




***


Sempre-Lendo, o melhor grupo de troca de livros da Internet!


***


Danielle Steel
      Baseado num "script" de
    Garry Michael White

 Segredo de uma Promessa




      Traduo de
      A.B PINHEIRO LEMOS

    Editora Record

Livro digitalizado por Thalita Costa- Maio/2006


Capitulo 1
              O sol do comeo da manh incidia em suas costas quando pegaram
as bicicletas diante da Heliot House, no campus de Harvard. Pararam por um
momento, a fim de sorrirem um para o outro. Era maio e os dois eram muito 
jovens. Os cabelos curtos da moa brilhavam ao sol. Os olhos dela encontraram 
os dele, no momento em que comeou a rir.
      - E ento, Doutor em Arquitetura, como se sente?
      - Pergunte-me isso dentro de duas semanas, depois que eu conseguir o 
doutorado.
      O rapaz sorriu para ela, sacudindo da testa uma mecha de cabelos 
louros.
      - Seu diploma que se dane! Estava-me referindo  noite de ontem!
      Ela sorriu novamente. O rapaz deu-lhe uma palmada no traseiro.
      - Ahn...E voc, como se sente, Miss McAllister? Ainda pode andar? 
Ainda pode andar?
      Os dois estavam passando a perna por cima das bicicletas e a moa 
fitou-o com uma expresso zombeteira.
      -E voc pode?
      E com isso partiu, distanciando-se rapidamente na pequena bicicleta que 
ele lhe dera de presente no aniversrio, poucos meses antes. Ele estava 
apaixonado pela maa. Sempre estivera apaixonado por ela. Sonhara com ela 
por toda a sua vida E a conhecia h dois anos.
      Fora um tempo solitrio que ele tivera em Harvard antes disso. J no 
segundo ano do curso de doutorado estava resignado a continuar assim. No 
queria o que os outros desejavam. No queria uma jovem de Radcliffe, Vassar 
ou Wellesley na cama a seu lado. Para Michael, havia sempre algo que faltava. 
Queria algo mais. Estrutura, substncia, alma. Resolvera o problema 
temporariamente no vero anterior, tendo um caso com uma amiga de sua me. 
A me nada soubera,  claro. E fora extremamente divertido e satisfatrio. 
Era uma mulher muito atraente, de trinta e tantos anos, bem mais moa que a 
me,  claro. E era uma editora da Vougue. Mas fora simplesmente um 
passatempo agradvel. Para ambos. Com Nancy, porem, era diferente.
      Ele o compreendera desde o primeiro momento em que a vira, na galeria 
de Boston que estava expondo os quadros dela. Havia uma solido obcecante 
nas paisagens rurais, uma ternura solitria nas pessoas retratadas. Michael 
sentiu-se dominado por uma profunda compaixo, com vontade de consolar 
aquelas pessoas e a mulher que as pintara. Ela estava na galeria naquele dia, 
com uma boina vermelha e um velho casaco de pele de guaxinim, a pele delicada 
ainda luzindo da caminhada at a Charles Street, com os olhos brilhando, o 
rosto cheio de vida. Michael jamais desejara outra mulher tanto quanto a 
desejara. Comprara dois quadros e a levara para jantar no Lockobers. Mas o 
resto levara muito mais tempo. Nancy McAllister No era uma mulher propensa 
a ceder prontamente seu corpo ou seu corao. Fora solitria demais por tempo 
demais para se entregar facilmente. Aos 19 anos, j era uma mulher sbia e 
calejada na dor. A dor de estar s. A dor de ser abandonada. Era o que a 
atormentada desde que fora colocada num orfanato, ainda bem pequena. No 
mais podia recordar o dia em que a me a deixara no orfanato, pouco antes de 
morrer. Mas lembrava-se nitidamente do frio horrvel dos sales. Do cheiro 
das pessoas estranhas. Dos sons pela manh, enquanto deitada na cama, lutava 
para conter as lagrimas. Iria recordar-se dessas coisas pelo resto de sua vida. 
Por muito tempo, pensara que nada poderia preencher o vazio que havia dentro 
de si. Mas agora tinha Michael.        
      O relacionamento entre eles nem sempre fora fcil. Mas era um 
relacionamento muito forte, baseado no amor e no respeito. Haviam fundido os 
mundos de cada um e disso resultara algo belo e raro. E Michael tambm no 
era nenhum tolo. Conhecia os perigos de se apaixonar por algum "diferente", 
como sua me insistia em ressaltar... sempre que tinha oportunidade. Mas no 
havia nada de "diferente" em Nancy. A nica coisa, diferente era o fato de que 
ela era uma artista, no uma simples estudante. Nancy no estava mais na fase 
de procura, j era o que desejava. E ao contrrio das outras mulheres que 
Michael conhecia, ela no estava experimentando candidatos, mas 
simplesmente escolhera o homem a quem amava. Em dois anos, Michael jamais a 
desapontara. E ela tinha certeza de que isso jamais aconteceria. Afinal, 
conheciam-se muito bem. O que poderia haver que ela j no soubesse? Sabia 
de tudo. As coisas engraadas, os segredos tolos, os sonhos da infncia, os 
medos desesperados. E, atravs dele, Nancy passara a respeitar sua famlia. 
At mesmo a me.
      Michael nascera na tradio, condicionado desde a infncia a herdar um 
trono. No era algo que ele encarasse com leviandade. Nem mesmo gracejava a 
respeito. Havias ocasies em que isso chegava at a assust-lo. Teria 
capacidade de se mostrar  altura do mito? Mas Nancy no tinha a menor 
dvida quanto a isso. O av de Michael, Richard Cotter, fora um arquiteto. O 
pai dele tambm. Fora o av que fundara um imprio. Mas havia sido a fuso do 
imprio Cotter com a fortuna Hillyard, atravs do casamento dos pais de 
Michel, que criara o imprio Cotter-Hillyard de hoje. Richard Cotter soubera 
como ganhar dinheiro, mas fora o dinheiro Hillyard, um dinheiro antigo, 
tradicional, que proporcionara os rituais e tradies do poder. Havia ocasies 
em que era um manto incmodo de se usar, mas no se podia dizer que Michael 
no gostasse. E Nancy tambm o respeitava. Ela sabia que Michael estaria um 
dia no comando do imprio Cotter-Hillyard. No princpio, haviam conversado a 
respeito incessantemente. Mais tarde, voltaram a conversar constantemente, 
quando compreenderam como era profunda e sria a ligao que os unia. Mas 
Michael sabia que encontrara uma mulher que podia assumir tudo, tanto as 
responsabilidades de famlia quanto as funes nos negcios. O orfanato nada 
fizera a fim de preparar Nancy para o papel que Michael sabia que ela iria 
desempenhar, mas a base parecia estar fixada na prpria alma dela.
      Michael contemplava-a agora com um orgulho quase insuportvel, 
enquanto ela se distanciava a sua frente, segura de si, forte, as pernas geis 
pedalando vigorosamente, virando a cabea para trs de vez em quando a fim 
de fit-lo e rir. A vontade de Michael era aumentar a velocidade e alcan-la... 
tir-la da bicicleta... ali... na grama... da maneira como tinham feito na noite 
anterior... da maneira... Ele tratou de afastar o pensamento de sua mente e 
disparou atrs dela.
      - Ei, espere por mim, sua bruxinha!
      Michael estava emparelhado com ela um momento depois.Continuaram a 
pedalar, agora um pouco mais devagar. Michael estendeu a mo pelo curto 
espao que os separava.
      - Est linda hoje, Nancy. - A voz dele era uma carcia no ar da 
primavera. Ao redor deles, o mundo era verde e vioso. 
      - Sabe quanto a amo?
      - No seria a metade do que o amo, Mr. Hillyard?
      - Isso demonstra o quanto sabe, Miss Nancy Calalinda!
      Ela riu, como sempre fazia, ao ouvir o apelido. Michael sempre a fazia 
feliz. Ele fazia coisas maravilhosas. Nancy sempre pensara assim desde o 
primeiro momento, quando ele entrara na galeria e ameaara tirar as prprias 
roupas,  todas, se ela no lhe vendesse todos os quadros.
      - Acontece que a amo pelo menos sete vezes mais do que me ama.
      - Essa no! - Nancy sorriu-lhe novamente, nariz no ar e disparou  
frente outra vez.
      - Eu o mais, Michael.
      - Como sabe?
      Ele estava acelerando para alcan-la.
      - Papai Noel me contou.
      E com isso, Nancy se distanciou novamente. Desta vez, Michael deixou-a 
ir na frente pelo, caminho estreito. Estavam num animo festivo e ele gostava 
de contempl-la. A forma esguia dos quadris na cala de jeans, a cintura fina, 
os ombros impecveis com a suter vermelha amarrada frouxamente e o 
balano maravilhoso dos cabelos pretos. Michael podia contempl-la por anos a 
fio. Na verdade, era justamente isso o que estava planejando fazer. O que o 
fazia lembrar... tinha planejado conversar com ela a respeito naquela manh. 
Diminuiu novamente a distncia que os separava e bateu no ombro de Nancy 
gentilmente.
      - Com licena, Sra. Hillyard.
      Ela teve um sobressalto ao ouvir as palavras, depois sorriu timidamente, 
o sol incidindo em seu rosto. Michael podia ver as sardas no rosto dela, quase 
como poeira de ouro deixada por duendes na superfcie cremosa da pele.
      - Eu disse... Sra. Hillyard...
      Michael pronunciou as palavras com infinito prazer. Tinha esperado por 
dois anos.
      - No est querendo precipitar um pouco as coisas, Michael?
      Ela parecia hesitante, quase temerosa. Michael ainda no falara com 
Marion. E enquanto isso no acontecesse, no importava o que ele e Nancy 
pudessem ter acertado entre si.
      - No acho que esteja precipitando coisa alguma. E j tem duas semanas 
que estou pensando em fazer isso. Logo depois da formatura.
      H muito que haviam combinado um casamento pequeno, intimo. Nancy 
no tinha famlia e Michael queria partilhar o momento com ela, no com um 
elenco de milhares de pessoas ou um exrcito de fotgrafos da sociedade.
       - Para dizer a verdade, estava planejando seguir esta noite para Nova 
York a fim de conversar com Marion.
      - Esta noite?
      Havia um eco de medo na voz de Nancy. Ela deixou bicicleta fosse 
diminuindo a velocidade lentamente, at parar.
      Michael assentiu em resposta. Nancy estava cada vez mais pensativa, 
enquanto contemplava as colinas luxuriantes ao redor.
      - O que acha que ela vai dizer? Nancy estava com medo de olhar para 
Michael. Com medo de ouvir a resposta.
      - Sim,  claro. Est mesmo preocupada com isso?
      Era uma pergunta sem sentido e ambos sabiam disso. Tinham muito com 
que se preocupar. Marion no era uma mera dama de honra. Era a me de 
Michael e tinha toda a ternura do Titanic. Era uma mulher de fora, 
determinao, concreto e ao. Havia assumido os empreendimentos da famlia 
com a morte do pai e voltara a faz-lo, com renovada determinao, depois que 
o marido morrera. Nada podia deter Marion Hillyard. Absolutamente nada. 
Certamente no uma garota esguia ou seu filho nico. Se no queria que os dois 
casassem, nada a faria dizer aquele "sim", embora Michael simulasse no ter a 
menor dvida a respeito. E Nancy sabia exatamente o que Marion Hillyard 
pensava dela.
      Marion jamais tentara esconder seus sentimentos. Ou pelo menos no o 
fizera a partir do momento em que chegara  concluso de que o caso de 
Michael com "aquela artista" podia ser algo srio. Chamara Michael a Nova 
York e o lisonjeara, persuadira e seduzira, para depois brigar, ameaar e 
pressionar. E finalmente se resignara. Ou pelo menos dera tal impresso. Mi-
chael encarara essa posio como um indcio encorajador, mas Nancy no tinha 
tanta certeza assim. Tinha a impresso de que Marion sabia o que estava 
fazendo e decidira, por enquanto, ignorar a "situao". No foram feitos 
convites, no foram formuladas acusaes, nunca foram apresentadas 
desculpas por coisas ditas a Michael no passado. Mas tambm no surgiram 
novos problemas. Para ela, Nancy simplesmente no existia. E, estranhamente, 
Nancy sempre se surpreendia ao descobrir como isso a magoava. No tendo 
famlia, ela sempre acalentara sonhos estranhos em relao a Marion. Que 
podiam ser amigas, que Marion gostaria dela, que ela e Marion iriam fazer 
compras para Michael... que Marion seria... a me que ela no tivera ou 
conhecera. Mas Marion no se enquadrava facilmente nesse papel. Em dois 
anos, Nancy tivera muitas oportunidades para compreender isso. Somente 
Michael se apegava obstinadamente  posio de que a me acabaria por ceder, 
que as duas se tornariam grandes amigas, a partir do momento em que Marion 
aceitasse o inevitvel. Mas Nancy nunca tivera tal certeza. Ela chegara mesmo 
a forar Michael a discutir a possibilidade de Marion nunca aceit-la, jamais 
concordar com o casamento. O que fariam ento?
      - Nesse caso, pegamos o carro e seguimos para o juiz de paz mais 
prximo. Afinal, j somos ambos maiores de idade.
      Nancy sorrira com a simplicidade daquela soluo. Sabia que nunca 
poderia ser to fcil assim. Mas que diferena fazia? Depois de dois anos 
juntos, eles j se sentiam de qualquer forma casados.
      Ficaram parados em silncio por um longo momento, contemplando a 
paisagem. Depois, Michael pegou a mo de Nancy e murmurou:
      - Eu a amo, querida..
      - Tambm o amo.
      Nancy fitou-o com expresso preocupada e Michael silenciou os olhos 
dela com um beijo. Mas nada podia sufocar as dvidas que ambos tinham. Isto 
, nada exceto a conversa com Marion. Nancy deixou a bicicleta cair e com um 
suspiro aconchegou-se lentamente entre os braos de Michael.
      - Gostaria que fosse tudo mais fcil, Michael.
      - E ser. Vai ver s. E agora vamos adiante. Vamos dar um passeio ou 
ficamos parados aqui o dia inteiro?
      Michael deu-lhe novamente uma palmada no traseiro. Nancy sorriu, 
enquanto ele pegava a bicicleta dela. E no momento seguinte estavam de novo 
pedalando, rindo, brincando, cantando, fingindo que Marion no existia. S que 
ela existia. Sempre existiria. Marion era mais uma instituio do que uma 
mulher. Marion era eterna. Pelo menos na vida de Michael. E agora na vida de 
Nancy.
      O sol subiu mais alto pelo cu enquanto eles pedalavam pelos campos, 
alternadamente adiantando-se um ao outro ou ficando emparelhados, em um 
momento gracejando exuberantemente, no outro ficando silenciosos e 
pensativos. J era quase meio-dia quando alcanaram a Revere Beach e 
avistaram o rosto fami1iar vindo em sua direo. Era Ben Ayery, com uma nova 
garota a seu lado. Outra loura de pernas compridas. Todas pareciam rainhas 
colegiais. E muitas eram mesmo.
      -Oi, vocs dois! Esto indo para a feira?        
      Bem sorriu-lhes e depois, com um gesto vago da  mo, apresentou 
Jeannette. Trocaram cumprimentos.Nancy protegeu os olhos com a mo e olhou 
na direo da feira. Ainda faltava alguns quarteires para alcan-la.
      -Vale a pena parar?        
      - E como vale! Ganhamos um cachorro rosa.. - Bem apontou para a 
criatura horrenda na cesta de Jeannette.
      -... uma tartaruga verde que deu jeito de se perder, e duas latas de 
cerveja. Alm do mais, eles tm milho cozido que est sensacional.
      - Acaba de me convencer. - Michael  olhou para Nany e sorriu.        -
Vamos at l? 
      -Claro. Vocs j esto voltando?
      Mas Nancy podia ver claramente que estavam. Bem tinha um brilho 
irreconhecvel nos olhos e Jeannette parecia estar de pleno acordo. Nancy 
sorriu para si mesma ao observ-los
      - J, sim. Estamos andando desde as seis horas desta manh. Estou 
exausto. Por falar nisso o que vocs vo fazer no jantar esta noite? No 
querem visitar-me para uma pizza? O quarto de Bem ficava prximo do quarto 
de Michael.
      - O que vamos fazer no jantar esta noite, seor?
      Nancy olhou para Michael , com um sorriso brejeiro. Mas ele estava 
sacudindo a cabea.
      - Tenho de resolver alguns problemas essa noite. Vamos deixar para 
outra ocasio.
      Era um rpido lembrete do encontro com Marion.
      - Est certo. At mais tarde.
      Ben e Jeannette acenaram e depois se afastaram, enquanto Nancy 
olhava para Michael.
      - Vai mesmo procur-la esta noite?
      - Vou, sim. E pare de se preocupar com isso. Tudo vai dar certo. Por 
falar nisso, mame diz que ele conseguiu o lugar.
       - Ben?
      Nancy levantou os olhos inquisitivamente, enquanto recomeavam a 
pedalar, a caminho da feira.
      - Isso mesmo. Comeamos ao mesmo tempo. Em reas diferentes,  
verdade, mas comeamos no mesmo dia.
      Michael parecia satisfeito. Conhecia Ben desde o tempo do curso 
preparatrio e eram como irmos.
      - Bem j sabe? 
      Michael sacudiu a cabea, com um sorriso de conspirador. - Achei que 
seria melhor deixa-lo experimentar a emoo de receber a notcia 
oficialmente. No quis estragar-lhe esse prazer.
      Nancy tambm sorriu.
      - Voc  um bom sujeito e eu o amo, Hillyard.
      - Obrigado, Sra. H.
      - Pare com isso, Michael.
      Nancy queria demais aquele sobrenome para ouvi-lo pronunciado como 
um gracejo, at mesmo por Michael.
      -No vou parar. E  melhor comear logo a se acostumar. Ele parecia 
subitamente srio.
      - E vou-me acostumar... quando chegar o momento certo.        Mas at l, 
no entanto, Miss McAllister soa melhor.        
      - Por mais duas semanas, para ser exato. Aposto que posso         venc-la na 
corrida!        
      E os dois dispararam em frente, lado a lado, ofegando e rindo. Michael 
alcanou a entrada da feira cerca de 80 segundos antes de Nancy.  Ambos 
pareciam bronzeados, saudveis e despreocupados.
      - E ento, meu caro senhor, o que vamos fazer primeiro?
       Mas Nancy j adivinhara o que seria e estava absolutamente certa.
      - Ao milho cozido,  claro! Precisava perguntar?
      - No.
      Deixaram as bicicletas perto de uma rvore, sabendo que ali, nos campos 
sonolentos, ningum iria roub-las. Foram andando de braos dados. Dez 
minutos depois estavam-se lambuzando com a manteiga que escorria, enquanto 
comiam o milho cozido. Em seguida comera cachorros-quentes e tomaram 
cerveja gelada. Nancy acompanhou tudo com uma gigantesca poro de algodo-
doce.
      - Como pode comer essa porcaria?
      - Fcil ... porque  delicioso. 
      As palavras saram meio truncadas atravs do algodo-doce,rosado  
pegajoso, mas Nancy tinha a expresso deliciada de uma criana de cinco anos.
      - J lhe falei ultimamente como voc  bonita?
      Nancy sorriu-lhe, exibindo o rosto todo salpicado de algodo.
      Michael pegou um leno e limpou-lhe o queixo.
      - Se consegui$se limpar-se, poderamos ,tirar uma fotografia. 
      -  mesmo? Onde?
      O nariz de Nancy desapareceu novamente por trs de outra poro que 
ela abocanhou
      - Voc  impossvel, querida. A fotografia  ali.
      Michael apontou para uma barraca em que podiam meter as cabeas 
atravs de buracos redondos e tirar uma foto sobre trajes exticos... Foram 
at l e escolheram Rhett Butler e Scarlet O'Rara. E por mais estranho que 
pudesse parecer, nem mesmo pareciam tolos na fotografia. Nancy ficou linda 
sobre o traje pintado meticulosamente. A beleza delicada de seu rosto e a 
preciso das feies se ajustou perfeitamente ao traje imensamente feminino 
da beldade sulista. E Michael ficou parecendo um jovem libertino. O fotgrafo 
entregou-lhes a foto e recebeu o seu dlar, comentando:
      -Eu deveria ficar com essa foto. Vocs dois saram muito bem
      - Obrigada.
      Nancy ficou comovida com o elogio, mas Michael limitou-se a sorrir. Ele 
sempre sentia o maior orgulho de Nancy. Apenas mais duas semanas e... Mas 
Nancy puxou-lhe a manga freneticamente, arrancando-o dos devaneios.
      - Olhe ali! Um jogo de argolas!
      Nancy sempre quisera jogar as argolas na feira quando era criana, mas 
as freiras do orfanato invariavelmente alegavam que era muito caro.
      - Podemos?
      - Mas  claro, minha querida!
      Michael fez-lhe uma reverncia, ofereceu o brao e tentou        lev-la a 
caminhar tranqilamente na direo da barraca. Mas Nancy estava excitada 
demais para andar normalmente. Estava quase pulando como uma criana e o 
excitamento dela deliciava-o.
      - Podemos jogar agora?
       - Claro, meu amor!
      Michael estendeu um dlar e o homem por trs do balco        entregou a 
Nancy quatro vezes a quantidade habitual de argolas. A maioria dos fregueses 
pagava apenas 25 cents. Mas Nancy era inexperiente no jogo e todas as suas 
tentativas malograram. Michael observava-a divertido.
      - Exatamente que prmio est querendo?
      - As contas. - Os olhos de Nancy brilhavam como os de uma criana e as 
palavras saam quase como um sussurro. Nunca tive antes um colar 
espalhafatoso!
      Era algo que ela sempre desejara ter quando era menina. Algo bem 
vistoso, brilhante, frvolo.
      - No resta a menor dvida de que  uma pessoa fcil de contentar, meu 
amor. Tem certeza de que no prefere o cachorrinho rosa ?
      Era igual ao que Jeannette levava na cesta. Mas Nancy sacudiu a cabea, 
determinada.
      - Quero as contas.
      - Seu desejo  uma ordem para mim.
      E Michael arremessou todas as trs argolas perfeitamente no alvo. Com 
um sorriso, o homem por trs do balco entregou-lhe as contas. 
Imediatamente, Michael colocou-as no pescoo de Nancy.
      - Voil, mademoiselle! Tudo seu! Acha que devemos fazer um seguro de 
seu colar?
      - Quer parar de gozar as minhas contas? Acho que elas so 
maravilhosas!
      Nancy tocou-as suavemente, encantada por saber que estavam faiscando 
em seu pescoo.
      - Acho que voc  maravilhosa. Seu corao deseja mais alguma coisa?
      Nancy sorriu.
      - Mais algodo-doce.
      Michael comprou outro chumao de algodo-doce e depois foram 
voltando lentamente para as bicicletas.
      - Est cansada? 
      - No muito.
      - No quer seguir um pouco mais adiante? H um maravilhoso aqui perto. 
Podemos ficar sentados l por         tempo, contemplando o mar.
      - Boa idia.
      Partiram novamente, s que desta vez mais devagar. O clima de carnaval 
desaparecera e estavam ambos imersos em seus prprios pensamentos, a maior 
parte sobre o outro. Michael estava comeando a desejar que estivessem de 
volta  cama e Nancy no teria discordado. Estavam-se aproximando de Nahant 
quando ela avistou o local que Michael escolhera  na extremidade de uma ponta 
de terra, sob uma rvore antiga aprazvel. Nancy ficou contente por terem 
coberto aquela ltima etapa do passeio.
      - Oh, Michael,  lindo! .
      - No  mesmo?
      Sentaram-se na relva, pouco antes da estreita ponta de terra comear. 
 distncia, podiam observar as ondas quebrarem suavemente sobre um recife 
logo abaixo da superfcie.
      - Sempre quis trazer voc at aqui.
      - E estou contente que me tenha trazido.
      Ficaram sentados em silncio por algum tempo, de mos dadas. Depois, 
Nancy se levantou abruptamente.
      - O que foi?
      - Quero fazer uma coisa.
      - Pode ir at ali, atrs das moitas. 
      - No  isso, seu chato!
      Nancy saiu correndo pela praia. Michael seguiu-a lentamente, sem ter a 
menor idia do que ela pretendia fazer. Nancy parou ao lado de uma pedra 
grande na areia e tentou desloc-la, mas no conseguiu
      - Deixe-me ajud-la, sua tolinha. O que est pretendendo fazer?
      Michael estava aturdido.
      - Quero apenas afasta-la por um segundo... assim..
      A pedra cedera sob a presso de Michael, revelando uma depresso 
mida na areia. Rapidamente, ela tirou as contas azuis do pescoo, segurou-as 
por um momento, de olhos fechados, depois largou-as na areia, no lugar sobre o 
qual a pedra estava antes.
      - Muito bem, Michael, pode pr a pedra de volta no lugar. 
      - Em cima das contas?
      Ela assentiu, os olhos no se desviando do vidro azul a faiscar. 
      - Essas contas seria o nosso vnculo, um vnculo fsico, enterradas 
enquanto esta pedra, esta praia e estas rvores continuarem aqui. Combinado?
      -Combinado. - Michael sorriu gentilmente. - Estamos sendo muito 
romnticos.
      - Por que no? Quando se  afortunado o bastante para se ter amor, 
temos de comemorar! Fazer com que tenha um lar!
      - Tem razo, tem absoluta razo. Muito bem, aqui  o ninho do nosso 
amor.
      - E agora vamos fazer uma promessa. Prometo que nunca esquecerei o 
que est aqui nem esquecerei o que representa. E agora  a sua vez.
      Nancy tocou na mo dele, que sorriu-lhe novamente. Michael nunca a 
amara tanto
      -Eu prometo... prometo nunca dizer adeus a voc. . .
      E depois, sem qualquer razo em particular, os dois riram. Porque era 
maravilhoso ser jovem, ser romntico, at mesmo banal. O dia inteiro havia sido 
maravilhoso. 
      - Vamos voltar agora?
      Nancy assentiu. De mos dadas, voltaram para o lugar em que haviam 
deixado as bicicletas. E duas horas depois estavam no pequeno apartamento de 
Nancy, na Spark Street, perto do campus. Michael olhou ao redor ao cair, 
sonolento, no sof, compreendendo mais uma vez o quanto gostava do 
apartamento dela, o quanto representava um lar para ele. O nico lar 
verdadeiro que j conhecera. O apartamento gigantesco da me em Nova York 
nunca lhe dera realmente a impresso de lar. O que acontecia com o minsculo 
apartamento de Nancy. Que possua todos os toques afetuosos e maravilhosos 
de Nancy. Os quadros que ela pintara ao longo dos anos, as cores simples que 
escolhera, um sof de veludo castanho, um tapete felpudo que ela comprara de 
um amigo. Havia sempre flores por toda parte, muitas plantas, s quais ela 
dedicava um cuidado meticuloso. L estavam a pequena mesa de tampo de 
mrmore impecvel onde comiam e a cama de lato que rangia de prazer quando 
faziam amor.
      - Tem alguma idia do quanto amo este apartamento, Nancy.
      - Claro que tenho. - Ela olhou ao redor, nostalgicamente. - Tambm amo 
muito. O que vamos fazer quando nos casarmos?
      - Levar todas essas suas coisas lindas para Nova York e encontrarmos 
um pequeno lar aconchegante para receb-las.
      E foi nesse momento que algo atraiu a ateno de Michael - O que  
isso? Algo novo?
      Ele estava olhando para o cavalete de Nancy, onde estava um quadro 
ainda nos estdios iniciais, mas j apresentando uma qualidade fascinante. Era 
uma paisagem de rvores e campos. Mas quando se aproximou, Michael 
percebeu que havia um menino escondido numa rvore, com as pernas pendendo.
      - O menino vai continuar a aparecer depois que puser folhas na rvore?
      - Provavelmente. De qualquer forma, porm, saberemos que est na 
rvore. Gosta do quadro?
      Os olhos de Nancy brilhavam, enquanto ela observava a aprovao de 
Michael. Ele sempre compreendera perfeitamente o trabalho dela.        
      - Adoro.
      -Ento ser o seu presente de casamento... quando estiver terminado.
      - Negcio fechado. E por falar em presentes de casamento. .. - Michael 
olhou para o relgio. J eram cinco horas da tarde e ele queria estar no 
aeroporto s seis. - Est na hora de eu partir.
      - Precisa mesmo ir esta noite?
      - Tenho, sim.  importante. Voltarei dentro de algumas horas. Devo 
chegar ao apartamento de Marion por volta das sete e meia ou oito horas, 
dependendo do trnsito em Nova York. Posso pegar o ltimo vo de volta, s 
onze horas, chegando em casa por volta da meia-noite. Est bem assim, minha 
linda angustiada?
      - Est bem. - Mas Nancy estava hesitante, apreensiva pela partida dele. 
No queria que Michael fosse a Nova York e ao mesmo tempo no sabia por qu.
       - Espero que tudo corra bem.
      - Tenho certeza de que vai correr.
      Mas ambos sabiam que Marion s fazia o que queria, s escutava o que 
desejava ouvir e compreendia apenas o que lhe convinha. Mas Michael sabia 
que, de alguma forma, iriam vence-la. Tinham de faze-lo. Ele precisava ter 
Nancy. E nada mais importava. Abraou-a uma ltima vez, antes de ajeitar uma 
gravata no colarinho da camisa esporte e pegar um casaco leve nas costas de 
uma cadeira. Deixara-o ali naquela manh. Sabia que estaria fazendo calor em 
Nova York, mas sabia tambm que tinha de aparecer no apartamento de Marion 
de palet e gravata. Marion no tolerava "hippies" ou pessoas insignificantes... 
como Nancy. Ambos sabiam o que ele estava enfrentando quando se deram um 
beijo de despedida na porta.
      - Boa sorte.
      - Eu a amo.
      Por longo tempo, Nancy ficou sentada no apartamento silencioso olhando 
para a fotografia que haviam tirado na feira. Rhett e Scarlet, amantes 
imortais, naqueles trajes absurdos pintados na madeira, os rostos metidos 
atravs de buracos. Mas no pareciam tolos.. Pareciam felizes. Nancy se 
perguntou se Marion seria capaz de compreender isso, se ela saberia a 
diferena entre ser feliz e tolo, entre o real e o imaginrio. Tinha dvidas se 
Marion poderia entender qualquer coisa.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 2
      
      A mesa da sala de jantar brilhava como a superfcie de um lago. A 
perfeio cintilante s era interrompida na beira da praia, onde estava um 
nico jogo de linho irlands de cor creme, adornada por porcelana azul e 
dourada. Havia um servio de caf de prata ao lado do prato, assim como um 
pequeno sino todo ornado. Marion Hillyard reccostou-se  na cadeira, deixando 
escapar um pequeno suspiro, enquanto exalava a fumaa do cigarro que acabara 
de acender. Estava bastante cansada naquele dia... Os domingos sempre a 
cansavam. Havia ocasies em que ela pensava que trabalhava mais em casa do 
que no, escritrio. Sempre passava os domingos cuidando de sua 
correspondncia pessoal, examinando as contas que a cozinheira e a governanta 
mantinham rigorosamente em dia, fazendo listas do que julgava ser necessrio 
consertar no apartamento e dos artigos que precisava para completar seu 
guarda-roupa alm de planejar os cardpios da semana. Era um trabalho 
tedioso; mas h anos que ela o fazia, mesmo antes de comear a  dirigir o 
imprio da famlia. Depois que assumira o lugar do marido, continuara a passar 
os domingos a cuidar da casa e a tomar conta de Michael, no dia de folga da 
bab. A recordao f-la sorrir. Fechou os olhos por um momento. Aqueles 
domingos haviam sido preciosos, umas poucas horas em companhia do filho sem 
que ningum interferisse; sem que ningum aparecesse para afast-lo dela. Mas 
seus domingos j no eram mais assim; haviam deixado de ser h .muitos anos. 
Uma pequena lgrima brilhante insinuou-se entre as pestanas, enquanto Marion 
permanecia imvel na cadeira, vendo o filho como fora dezoito anos antes, um 
garoto de seis anos e todo dela. Como havia amado aquele menino! Teria feito 
qualquer coisa por ele. E fizera mesmo. Mantivera um imprio para Michael, 
preservando o legado de uma gerao para a seguinte. Era o seu presente mais 
valioso para Michael Cotter-Hillyard. E ela passara a amar o imprio quase 
tanto quanto amava o filho.
      - Est linda, mame.
              Os olhos dela se abriram bruscamente, em surpresa, deparando 
com o filho parado na entrada em arcada da sala de jantar revestida de 
lambris. A viso dele naquele momento quase a fez chorar. Sentiu vontade de 
abraa-lo, como o fizera por todos aqueles anos. Em vez disso, porm, limitou-
se a sorrir lentamente para o filho.
      - No ouvi voc chegar.
      No era um convite para Michael se aproximar, no havia qualquer 
indcio do que ela estava sentindo. Com Marion, ningum jamais sabia o que se 
passava dentro dela.
      - Usei minha chave. Posso entrar?
      - Claro. Quer uma sobremesa?
      Michael avanou lentamente para ela, um sorriso nervoso tnue a lhe 
contrair os lbios. Depois, como um garotinho, deu uma espiada no prato da 
me.
      - Hum...o que era? Parece alguma coisa  base de chocolate...
      Marion soltou uma risadinha e sacudiu a cabea. Michael jamais 
Cresceria. Ou pelo menos no em algumas coisas.
      - Profiteroles. Quer um pouco? Mattie ainda est l na copa
      - Provavelmente comendo o que sobrou.
      Ambos riram, pelo que sabiam ser provavelmente verdadeiro.
      Mesmo assim, Marion tocou o sino.
      Mattie apareceu um instante depois, de uniforme preto, guarnecido de 
renda, rosto plido. Ela passara a vida inteira correndo, buscando, fazendo 
coisas para os outros, com apenas um  breve domingo semanal a que podia 
chamar de todo seu. E quando chegava o "dia" to cobiado, ela descobria que 
nada tinha para fazer.
      - Pois no, madame.
      Traga caf para Mr Hillyard, Mattie. E... quer sobremesa,querido?- 
Michael sacudiu a cabea-Apenas caf ento.                
      Por um momento, Michael se perguntou, como j fizera muitas vezes 
antes, por que a me nunca dizia obrigado s empregadas. Como se elas 
tivessem nascido para cumprir suas ordens. Mas ele sbia que era exatamente 
isso o que a me pensava. Marion sempre vivera cercada por criados, 
secretrias, toda espcie de empregados que se podia imaginar. Tivera uma 
criao solitria, mas das mais confortveis. A me morrera quando ela tinha 
trs anos, num acidente que vitimara tambm o nico irmo de Marion, que 
seria o herdeiro do trono arquitetnico da famlia. O acidente deixara apenas 
Marion para assumir o papel de filho substituto. E ela o assumira eficazmente.
      - Como vai a escola?
      - Quase acabando, graas a Deus. S faltam mais duas semanas.
      - Sei disso. E estou muito orgulhosa de voc. Um doutorado  algo 
maravilhoso para se ter, especialmente em arquitetura.
      Por alguma razo, aquelas palavras despertaram em Michael o desejo de 
exclamar, "Oh! Mame!", como fazia quando tinha nove anos de idade.
      - Vamos  entrar em contato com o jovem Avery nesta semana, para 
acertarmos o emprego dele. No lhe contou nada, no  mesmo ?
      Marion parecia mais curiosa do que austera. Na verdade, no se, 
importava com tal detalhe. Julgara um tanto infantil que Michael ,pensasse que 
era to importante fazer uma surpresa a Ben. 
      - No, no contei. Ele vai ficar muito contente.
      - No.  para menos. Afinal,  um excelente emprego. 
      - Ele merece.
      - Espero que sim. - Marion jamais cedia um centmetro sequer. - E voc? 
Est pronto para comear a trabalhar? Sua sala estar pronta na prxima 
semana.
      Os olhos dela brilharam ao pensar nisso. Era um lindo gabinete, todo 
revestido de madeira, como teria sido o do pai de Michael, com gravuras que 
haviam pertencido ao pai de Marion, um impressivo conjunto de sof e 
poltronas de coura, mveis antigos. Ela os comprara em Londres, nas suas 
frias.
      - Est ficando maravilhoso, querido.
      - timo. - Ele sorriu para a me por um momento, antes de acrescentar: 
- Tenho algumas coisas que quero mandar emoldurar, mas vou esperar at dar 
uma olhada na decorao.
      - No vai haver qualquer necessidade. J providenciei tudo o que vai 
precisar para as paredes.        .
      E Michael tambm tinha. Os quadros de Nancy. Havia agora um fogo 
sbito em seus olhos, um ar de vigilncia e  cautela nos olhos de Marion. Ela 
percebera algo no rosto do filho.
      - Mame. .. - Ele se sentou perto da me, soltando um pequeno suspiro e 
esticando as pernas, enquanto Mattie chegava com o caf. - Obrigado, Mattie? 
       -  sempre bem-vindo, Mr. Hillyard.
      Ela lhe sorriu to afetuosamente quanto sempre o fazia. Ele era sempre 
amvel, como se detestasse incomod-la, muito diferente da...
      - Deseja mais alguma coisa, madame?
      - No. Para dizer a verdade... Michael, no quer tomar o caf na  
biblioteca?
      - Est certo
      Talvez fosse mais fcil conversar l. A sala da jantar da me sempre o 
fizera recordar os sales de baile que vira em manses ancestrais. No era 
propcio a conversas ntimas, muito menos a uma suave persuaso. Ele se 
levantou e seguiu a me para fora da sala, descendo trs degraus atapetados e 
entrando na biblioteca,  esquerda. De l, tinha-se uma vista esplndida da 
Quinta Avenida e de parte considervel do Central Park. Mas havia tambm na 
sala uma lareira aconchegante e duas paredes cobertas de livros. A quarta 
parede era dominada por um retrato do pai de Michel. Mas era um retrato de 
que ele gostava, em que o pai parecia extremamente simptico, como algum 
que se  tinha vontade de conhecer. Quando menino, Michael ia muitas vezes 
olhar para aquele retrato e "conversava" em voz alta com o pai. A me o 
descobrira assim certa ocasio e dissera-lhe que isso era um absurdo. Mais 
tarde, porm, Michael descobrira-a a chorar naquela sala, olhando para o 
retrato, da mesma forma como ele fazia.
      A me se acomodou em seu lugar de sempre, uma cadeira Lus XV 
forrada em damasco bege e de frente para a lareira. Naquela noite, o vestido 
dela era quase da mesma cor. Por um momento, ao claro da lareira, Michael 
julgou-a quase bonita. Marion j o tinha sido e no fazia muito tempo. Ela 
estava agora com 57 anos. Michael nascera quando a me tinha 33 anos. Ela no 
tivera tempo para ter filhos antes disso. Marion era muito bonita naquele 
tempo. Possua os mesmos cabelos louros, quase cor de mel, que Michael tinha 
s que agora estavam cada vez mais grisalhos. E a vida em seu rosto se 
desvanecera. Fora substituda por outras coisas. Principalmente pela 
preocupao com os negcios. E os olhos outrora de um, azul sereno pareciam 
quase cinzentos agora. Como se o inverno tivesse finalmente chegado.
      - Tenho o pressentimento de que veio aqui esta noite para falar-me 
sobre algo importante, Michael.  isso mesmo?
      Ser que ele engravidara alguma mulher? Teria destrudo o carro? 
Ferira algum? Nada era irreparvel,  claro, contanto que Michael lhe 
contasse tudo. Ela estava contente pelo fato do filho ter vindo procur-la,
      - No  nada de grave. Mas h algo que preciso discutir com voc.         
      Errado. Michael encolheu-se quase visivelmente diante de suas palavras. 
"Discutir." deveria ter falado que havia algo que queria contar e no discutir. 
Oh,! diabo!
      - Achei que j era tempo de sermos francos um com o outro. 
      - Fala como se geralmente isso no acontecesse.
      - Em algumas coisas, no acontece mesmo.
      Todo o corpo de Michael estava agora tenso. Ele se inclinou para frente, 
consciente de que o pai olhava por cima de seu ombro.
      -No somos francos em relao a Nancy, mame.
      - Nancy?
      Ela parecia ignorar inteiramente o nome. Por um instante, Michael sentiu 
um impulso de levantar-se e esbofete-la. Detestava a maneira como a me 
pronunciara o nome de Nancy. Como se no passasse de  uma criada.
      - Nancy McAllister. Minha amiga.
      - Ah, sim... - Houve uma pausa interminvel, enquanto Marion mudava a 
posio da colher esmaltada no pires. - E em que no somos francos em relao 
a Nancy?
      Os olhos dela estavam agora velados por uma mortalha de        gelo 
cinzento.
      - Tenta fingir que ela no existe. E procuro no incomod-la com isso. 
Mas a verdade, mame,  que... vou casar-me com ela. - Ele respirou fundo e 
recostou-se, antes de arrematar: -Dentro de duas semanas.
      - Entendo. - Marion Hillyard estava perfeitamente imvel. Os olhos no 
se mexiam nem as mos nem o rosto. Nada. - E posso perguntar por qu? Ela 
est grvida?
      - Claro que no!
      - O que  muita sorte. Sendo assim, posso perguntar por que vai-se 
casar com ela? E por que dentro de duas semanas?
      -Porque estarei formado ento, mudando-me para Nova York e, 
comeando a trabalhar. Porque faz sentido.
      -Para quem?
      -O gelo estava-se endurecendo e uma perna foi cruzada cuidadosamente 
sobre a outra, com o rudio de seda Michael sentiu-se constrangido sob a 
firmeza do olhar da me. Ela no desviara os olhos dele uma nica vez. Como 
nos negcios, Marion estava se mostrando implacvel. Era capaz de fazer 
qualquer homem encolher-se e finalmente desmoronar.
      - Faz sentido para ns, mame.
      -Pois no faz para mim. Fomos chamados a construir um centro mdico 
em So Francisco, pelo mesmo grupo que est por trs do Hartford Center. 
No ter tempo para uma esposa. Estou contando muito com sua ajuda pelo 
prximo ano. Francamente, querido, gostaria que esperasse.
      Era a primeira vez que Michael via a me abrandar um pouco uma 
posio, o que o levou a pensar que talvez houvesse alguma esperana.
      - Nancy ser til para ns dois, mame. No ser uma distrao para 
mim nem um estorvo para voc. Ela  uma moa maravilhosa. 
      -  possvel. Mas quanto a ser til. Por acaso j pensou no escndalo?
      Havia agora um brilho de vitria nos olhos de Marion. Ela estava-se 
preparando para o bote e subitamente Michael prendeu a respirao como 
presa indefesa, sem saber por que lado a me iria atacar. Ou como.
      - Que escndalo?
      - Ela lhe contou quem , no  mesmo?
      Oh, Deus! O que viria agora?
      - O que est querendo insinuar com esse quem ela ? 
      - Exatamente isso, posso ser mais especfica.
      Com um movimento suave, felino, Marion largou a xcara numa mesinha e 
deslizou at sua escrivaninha.Tirou uma pasta da ltima gaveta e entregou-a a 
Michael, sem dizer nada. Ele segurou a pasta, indeciso, com medo de ver o que 
havia dentro.
      - O que .isso?
      - Um relatrio. Contratei um investigador particular para saber quem 
era a sua amiguinha pintora. No estava muito satisfeita. 
      O que era uma atenuao da verdade. Marion ficara furiosa. 
      - Por favor, Michael, sente-se e leia.
      Ele no se sentou, mas relutantemente abriu a pasta e comeou a ler. 
Nas primeiras doze linhas, descobriu que o pai de Nancy fora morto na priso 
quando ela ainda era beb, e que a me morrera dois anos depois, como 
alcolatra. Estava tambm explicado que o pai dela fora condenado a sete anos 
de priso por assalto a mo armada.
      -No acha que eram pessoas encantadoras, querido?
      A voz dela era ligeiramente desdenhosa. Abruptamente, Michael Jogou 
a pasta em cima da escrivaninha. O contedo deslizou rapidamente para o cho.
      -No vou ler esse lixo.
      - No quer ler... mas vai casar-se com esse lixo.
      -Que diferena faz quem foram os pais dela? Por acaso  culpa de 
Nancy?
      - No. E o infortnio dela. E o seu, se casar com ela. Seja sensato, 
Michael. Vai entrar para um negcio em que milhes de dlares esto 
envolvidos em cada transao. No pode mais expor-se ao risco de um 
escndalo.Poderia nos arruinar. Seu av fundou esse imprio h mais de 50 
anos e vai agora destru-lo por causa de um romance? No seja absurdo. Est 
na hora de crescer, meu rapaz. Mais do que na hora. Os tempos de aventuras 
vo se acabar para voc exatamente dentro de duas semanas.
      Marion estava agora inflamada, sem tirar os olhos do filho. No ia 
perder aquela batalha, no importava o que tivesse de fazer.
      -No quero discutir esse problema com voc, Michael. No tem 
alternativa.
      -Marion sempre lhe dissera aquilo.Sempre...
      -Uma ova que no tenho! -Era um sbito rugido, enquanto ele andava pela 
sala. -No vou me inclinar diante de voc e de suas regras pelo resto da vida, 
mame! De jeito nenhum! O que est pensando exatamente? Que vai me levar 
para o negcio, paparicar-me at se aposentar e depois continuar a me 
controlar como um ttere de seu quarto? Pois saiba que isso no vai acontecer! 
Vou trabalhar para voc e mais nada! No  dona de minha vida, nem agora nem 
nunca! E tenho o direto de me casar com quem quiser! 
      -Michael!
      Foram interrompidos pelo som abrupto da campainha da porta. Os dois 
estavam de p, olhando-se, como jaguares numa jaula. O jaguar velho e o novo, 
cada um ligeiramente temeroso do outro, ambos famintos pela vitria, ambos 
lutando pela sobrevivncia. Estavam ainda parados em lados opostos da sala, 
tremendo de raiva, quando George Calloway entrou, percebendo prontamente 
que viera deparar com uma cena de paixo intensa. Homem suave, elegante, de 
cinquenta e tantos anos, ele era h muita tempos o brao-direito de Marion. 
Mais do que isso, era em grande parte a fora por trs da Cotter-Hillyard. Mas 
ao contrario de Marion, raramente aparecia na linha de frente. Preferia 
exercer sua fora das sombras. H muito que aprendera os mritos da fora 
discreta. Isso. lhe valera a confiana e admirao de Marion h vrios anos, 
assim que ela assumira o lugar do marido na empresa. Marion fora ento apenas 
uma figura de proa e George  que realmente dirigia a Cotter-Hillyard pelo 
primeiro ano, enquanto resolutamente, conscienciosamente, ensinava tudo a ela; 
E George fizera um bom trabalho. Marion aprendera tudo o que lhe ensinara e 
muito mais. Era agora uma fora por si mesma, mas ainda se apoiava em George 
em todas as operaes de grande monta. Isso significava tudo para ele. Saber 
que Marion ainda precisava dele depois de todos aqueles anos. Saber que ela 
sempre precisaria. George podia agora compreender isso. Formavam uma 
equipe, silenciosa, inseparvel, cada um mais forte que o outro. Algumas vezes 
George se perguntava se Michael sabia o quanto eram unidos. Duvidava muito 
Michael sempre fora o centro da vida da me. Por que iria perceber at que 
ponto George estava envolvido? Sob certos aspectos, a prpria Marion no 
chegava a compreender. Mas George aceitava tudo. Dedicava seu afeto e 
energias  empresa. E talvez algum dia... George olhou agora para Marion com 
uma preocupao imediata. Aprendera a reconhecer a contrao nos cantos da 
boca e a estranha palidez por baixo do p-de-arroz e rouge cuidadosamente 
aplicados.
              - Voc est bem, Marion?
      George conhecia mais a respeito da sade dela do que qualquer outra 
pessoa. Marion lhe confidenciara tudo, anos atrs. Algum tinha de saber, pelo 
bem da empresa. Ela tinha uma presso assustadoramente alta e um problema 
cardaco.
      Por um momento no houve resposta. Depois, ela desviou os olhos do 
filho para   fix-los no associado e amigo de muitos anos.
      - Estou... estou bem. Desculpe. Boa noite, George. Pode entrar.
      - Acho que cheguei num momento errado.
      - Absolutamente, George. Eu j estava saindo.
      Michael virou-se para fita-lo e nem ao menos conseguia exibir um 
arremedo de sorriso. Depois, olhou novamente para a me, mas no fez 
qualquer meno de se aproximar dela.
      -Boa noite, mame.
      - Telefono para voc amanh, Michael. Podemos discutir o problema pelo 
telefone.
      Michael sentiu vontade de dizer algo odioso para a me, deix-la 
amedrontada. Mas no podia, no sabia como. E de que isso adiantaria?
      - Michael...
      Ele no respondeu. Apertou solenemente a mo de George e depois saiu 
da sala, sem olhar para trs. No chegou a ver a expresso nos olhos da me ou 
a preocupao nos de George, enquanto ela afundava lentamente de volta na 
cadeira e erguia as mos trmulas ao rosto. Havia lgrimas nos olhos dela, que 
ocultou at mesmo de George.
      - O que aconteceu?
      - Ele vai fazer uma loucura.
      - Talvez no. Todos ns ameaamos fazer loucuras de vez em quando. .
      - Em nossa idade, ameaamos. Na idade de Michael, eles fazem.
      Todos os meus esforos para nada, pensou Marion. Os relatrios do 
investigador particular, os telefonemas, os... Ela suspirou e recostou.se 
lentamente na cadeira.
      - J tomou o seu remdio hoje, Marion? - Ela sacudiu a cabea, quase 
imperceptivelmente. 
      - Onde est?
      - Na minha bolsa. Atrs da escrivaninha;
      George foi at l, sem fazer qualquer comentrio sobre as pginas do 
relatrio espalhadas sobre a mesa e o cho. Encontrou a bolsa de crocodilo 
preto, com um fecho de ouro de 18 quilates. Conhecia bem aquela bolsa. Fora 
um presente de Natal dele, trs anos antes. Encontrou o remdio e voltou para 
junto de Marion, com duas plulas brancas na mo. Ela ouviu o barulho da xcara 
de caf a seu lado e abriu os olhos. Desta vez, Marion sorriu-lhe.
      - O que eu faria sem voc, George?
      - E o que eu faria sem voc? - George no podia sequer suportar tal 
pensamento. - Devo ir embora agora? Voc precisa descansar .
      - Se ficar sozinha, vou pensar em Michael e me tornarei cada vez mais 
angustiada.
      - Ele ainda vem trabalhar na firma?
      - Vem, sim. O problema  outro.
      Ou seja, a moa. George tambm estava a par disso, mas no queria 
pressionar Marion naquele momento. Ela estava bastante angustiada, mas pelo 
menos a cor estava agora voltando a seu rosto. Depois de engolir as plulas, ela 
pegou um cigarro. George acendeu-o, enquanto observava o rosto dela. Marion 
era uma linda mulher. Ele sempre o achara. Mesmo agora, quando ela se tornava 
cada vez mais cansada e doente. Ele se perguntou se Michael saberia o quanto 
a me estava doente. Provavelmente no sabia, caso contrrio no a deixaria 
transtornada daquela maneira.
      O que George no sabia era que Michael estava igualmente desesperado 
e angustiado naquele momento. Lgrimas ardentes lhe queimavam os olhos, 
enquanto seguia de txi para o aeroporto.
      Ele telefonou para Nancy assim que chegou ao terminal. Seu        avio 
partiria dentro de 20 minutos.
      - Como foi o encontro?
      Nancy no pudera perceber coisa alguma pela maneira como ele a 
cumprimentara.
      - Tudo bem. Agora, quero que voc entre em ao. Prepare uma mala, 
vista-se, esteja pronta dentro de uma hora  meia, quando estarei chegando a.
      - Pronta para qu?
      Nancy estava aturdida, sentada no canto do sof, toda enroscada, com o 
fone na mo. Michael fez uma breve pausa, sorrindo em seguida. Era o seu 
primeiro sorriso em duas horas.
      - Para uma aventura, meu amor. Vai descobrir quando chegar a hora.
      - Acho que ficou doido.
      Ela estava rindo, aquela sua risada suave e maravilhosa. 
      - Isso mesmo, estou doido por voc. 
      Michael sentiu que voltava a ser ele prprio. Novamente, tudo comeava 
a fazer sentido. Estava de volta a Nancy. Ningum poderia jamais tirar isso 
dele. Nem sua me. Nem um relatrio confidencial. Ningum. Nada. Ele 
prometera naquele dia, na praia, quando haviam enterrado as contas, que nunca 
diria adeus para Nancy. E estava falando srio.
      - Muito bem, Nancy Calalinda; trate de se mexer! Ah, sim... e no se 
esquea de usar algo novo, algo velho...
      Ele no estava apenas sorrindo agora; estava transbordando de 
felicidade.
      - Est querendo dizer... a  voz de Nancy se desvaneceu no espanto.
      - Estou querendo dizer que vamos nos casar esta noite. Est certo para 
voc?
      - Est, sim. Mas...
      - Mas coisa nenhuma, mocinha. Levante esse rabo da e comece a se 
comportar como uma noiva no dia do casamento. 
      - Mas por que esta noite?
      - Por uma questo de instinto. Confie em mim. Alm do mais,  uma noite 
de lua cheia.
      - Deve ser.
      Nancy tambm estava sorrindo agora. Ia casar-se. Ela e Michael iam       
casar-se
      - Eu a verei dentro de uma hora, meu bem. S  mais uma coisa, Nancy...
      - O que ?
      - Eu a amo.
      Michael desligou e correu para o porto. Foi o ltimo passageiro a 
embarcar no avio para Boston. Nada podia det-lo agora.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 3
      
      Ele estava batendo na porta h quase 10 minutos, mas no ia desistir. 
Sabia que Ben estava l dentro
      - Ben! Vamos, abra a porta! Ben! Pelo amor de Deus, cara, abra logo essa 
porta
      Outra saraivada de batidas e depois o som de passos, seguido por um 
sbito estrondo. A porta se abriu para revelar um Ben sonolento, parado ali, 
inteiramente atordoado, de cueca, esfregando a canela.
      - So apenas 11 horas, Ben. O que est fazendo dormindo a uma, hora 
dessas? - O sorriso no rosto de Ben revelou tudo,a         um segundo olhar. - Ei, 
voc est chumbado!
      - At as pontas dos dedos dos ps!
      Ben olhou para os ps, com um sorriso malicioso e as pernas balanando 
tropegamente.
      - Pois vai ter de ficar sbrio bem depressa, companheiro. Preciso de 
voc. 
      - Quero que voc se dane! Tomei seis Beefeaters com tnica e acha que 
vou desperdiar tudo isso? Essa no!
      - Esquea tudo o mais e trate de se vestir.
      - Estou vestido! - Ele contraiu os olhos, com uma cara de infeliz, quando 
Michael acendeu a luz.
      - Ei, que diabo est fazendo?
      Mas Michael limitou-se a sorrir, enquanto se encaminhava para a 
pequena cozinha, na desordem mais total.
      - O que andou fazendo por aqui, Ben? Detonou uma granada de mo?
      - Isso mesmo. E vou meter uma pelo seu...
      - Ora, ora, esta  uma ocasio especial, Ben.
      Michael virou-se para sorrir-lhe, da entrada da cozinha. Por um 
momento, houve um brilho de esperana nos olhos de Ben. 
      - E podemos beber por conta dessa ocasio?
      - Tudo o que quiser. S que depois.
      - Essa no!
      Ben desabou numa poltrona e deixou que a cabea recostasse nas 
almofadas.
      - No quer saber qual  a ocasio, Ben?
      - No, se eu no puder beber por conta. Vou terminar o curso de 
doutorado. E isso  algo pelo qual posso beber.
      - E eu vou-me casar.
      - Isso  timo... - No instante seguinte, Ben se endireitou na poltrona, 
arregalando os olhos. - Voc o qu?
      - Ouviu direito o que eu falei. Nancy e eu vamos nos casar.
      Michael falou com o orgulho sereno de um homem que sabe o que quer.
      - E vamos para uma festa de noivado?
      Ben exibia agora uma expresso de satisfao. Ali estava algo que valia 
pelo menos outra meia dzia de Beefeaters. Talvez at uns sete ou oito.
      - No  uma festa de noivado, Ben Avery. J lhe disse.  um casamento.
      - Agora? - Confuso novamente. Hillyard era de fato um p no saco. - 
Por que agora?
      - Porque queremos. Alm do mais, voc est chumbado demais para 
entender qualquer coisa. Pode dar um jeito para ficar de p pelo tempo 
suficiente para ser nosso padrinho?
      - Claro. Ora, seu filho da me, voc vai mesmo...
      Ben levantou-se de um pulo da poltrona, cambaleou perigosamente, 
bateu com o dedo na mesinha do caf.
      - Mas que merda!
      - Trate de vestir algumas roupas sem se matar, Ben. Vou fazer um caf 
para voc.
      - Est bem.
      Ele ainda estava murmurando consigo mesmo quando desapareceu no 
quarto, mas j estava ligeiramente mais controlado quando voltou. Chegara 
mesmo a por uma gravata sobre a T-shirt listrada, de azul e vermelho. Michael 
fitou-o e sacudiu a cabea, com um sorriso.
      - Poderia pelo menos ter escolhido uma gravata que combinasse com 
essa camisa.
      A gravata era marrom escura, com padres beges e pretos.
      - Preciso mesmo de uma gravata? - Ben parecia subitamente preocupado. 
- No consegui encontrar nenhuma que combinasse.
      - Basta agora levantar o zper da cala e estaremos prontos. E talvez 
seja bom descobrir onde est seu outro sapato.
      Ben olhou para os ps e descobriu que estava s com um sapato. Desatou 
a rir.
      - Est certo, estou chumbado. Mas por acaso eu sabia que ia precisar de 
mim esta noite? Poderia ter me contado esta manh.
      - Eu ainda no sabia esta manh.
      Tal resposta provocou uma expresso de seriedade nos olhos de Ben.
      - No sabia?
      - No.
      - Tem certeza do que est fazendo?
      - Absoluta. E no me venha com sermes. J ouvi bastante esta noite. 
Trate apenas de terminar de se arrumar decentemente para podermos ir 
buscar Nancy.
      Michael entregou ao amigo uma caneca de caf fumegante.
      Ben tomou um gole prolongado e depois fez uma carranca.
      - Mas que desperdcio de um bom gim!
      - Pagaremos quantos voc puder tomar depois do casamento.
      - Por falar nisso, onde  que vai se casar?
      - J vai descobrir.  uma cidadezinha linda, pela qual estou apaixonado 
h anos. Passei um vero l quando era menino. o lugar perfeito.
      - Tem uma licena?
      - No h necessidade.  uma dessas cidadezinhas malucas em que as 
pessoas podem casar-se com a cara e a coragem. Est        pronto?
      Ben engoliu o resto do caf e assentiu.
      - Acho que sim. Puxa estou comeando a ficar nervoso.
       No est apavorado?
      Ele olhou para o amigo, mais sbrio agora. Mas Michael parecia 
estranhamente calmo.
       - Nem um pouco.
      - Talvez saiba o que est fazendo. No sei. ..  que... o casamento. .. - 
Ben sacudiu a cabea e olhou novamente para os ps, o que o fez recordar que 
ainda precisava encontrar o outro sapato. - Mas Nancy  uma garota 
sensacional.
      - Muito mais do que isso. - Michael avistou o outro sapato debaixo do 
sof, e pegou-o. - Ela  tudo o que sempre desejei.
      - Ento espero que o casamento proporcione aos dois tudo o que querem, 
Michael. Para sempre.        
      Havia um brilho de ternura nos olhos de Ben e por um momento Michael 
segurou-o pelos braos.
      - Obrigado.
      E no instante seguinte os dois desviaram o olhar, ansiosos em partirem, 
para rirem novamente, para saborearem o momento com alegria, ao invs de 
solenemente.
      - Estou direito?
      Ben apalpou a cala para verificar se estava com a carteira depois 
procurou as chaves.
      - Est deslumbrante.
      - Ora, v... Mas onde  que se meteram as minhas chaves?
      Ben olhou ao redor, desolado, enquanto Michael ria. As chaves estavam 
presas numa das presilhas de cinto da cala dele.
      - Vamos logo embora, Avery. J estamos atrasados.
      Os dois partiram, de braos dados, entoando canes de cervejaria de 
veres anteriores. Todo o prdio podia ouvi-los, mas ningum se importava 
realmente. Era povoado por estudantes que iriam nas proximidades do campus 
e todos andavam promovendo os maiores tumultos, quando faltavam duas 
semanas para terminarem as aulas.
      Dez minutos depois, estavam diante do prdio de Nancy, na Spark 
Street. Ela acenou nervosamente da janela quando Michael buzinou. Tinha a 
sensao de que estava pronta h horas. Um momento depois, estava parada ao 
lado do carro. Por alguns segundos, os dois rapazes ficaram em silncio. Foi 
Michael o primeiro a falar:
      - Deus do cu, Nancy... voc est maravilhosa! Onde conseguiu esse 
vestido?
      - Eu o tinha.
      Eles trocaram um sorriso prolongado. Nenhum dos dois se mexeu. Nancy 
sentiu-se de repente uma noiva da cabea aos ps, apesar da hora tardia e das 
circunstncias heterodoxas. Usava um vestido branco comprido e tinha sobre 
os cabelos pretos lustrosos pequena touca azul de cetim. O vestido fora 
comprado quando servira como dama de honra no casamento de uma amiga, trs 
anos antes, mas Michael nunca o tinha visto. Ela estava de sandlias brancas e 
levava um leno de renda muito antigo e bonito.
      - Est vendo, Michael? Algo velho, algo novo... o leno era de minha av.
      E a pequena touca era azul. Ela estava to bonita que, por um momento, 
Michael ficou sem saber o que dizer. At mesmo Ben parecia ter ficado 
completamente sbrio pela contemplao dela. .
      - Est parecendo uma princesa, Nancy.
      - Obrigada, Ben.
      - Ei, voc tem algo emprestado?
      - Como assim?
      - No est lembrada? Algo velho, algo novo... algo em prestado... - Nancy 
riu e sacudiu a cabea. - Pois aqui est algo emprestado.
      Ben inclinou a cabea para frente e comeou a mexer em algo no 
pescoo. Um momento depois, ele exibiu uma corrente de ouro delicada e 
bonita.
      -  apenas um emprstimo. Minha irm me mandou de presente de 
formatura, mas abri antes. Pode  tomar emprestado para o casamento.
      Ele se inclinou para fora do carro a fim de prender a corrente no 
pescoo de Nancy. Terminava um pouco acima da gola rendada do vestido.
      -  perfeito.
      - Assim como voc.
       O comentrio foi de Michael, que saiu do carro nesse momento e abriu 
a porta para Nancy entrar. Ele ficara to atordoado pela aparncia dela que 
por algum tempo fora incapaz de pensar.
      - V para trs, Avery. Voc senta na frente, querida.
      - Ela no pode sentar no meu colo?
      Ben murmurou um dbil protesto, enquanto se transferia para o banco 
traseiro. Michael sacudiu-lhe o dedo.
      - No precisa ficar nervoso, cara. Apenas pensei que por ser o padrinho 
podia...
      - Vai acabar virando um homem morto se no tomar mais cuidado, Avery.
      O nimo de ambos era da mais intensa alegria, sendo ali palavras 
pronunciadas em tom zombeteiro. Nancy acomodou-se no banco da frente e 
fitou radiante o homem com quem estava prestes a casar. Sentiu um momento 
de apreenso ao pensar em Marion, mas tratou de afastar o problema de sua 
mente. Aquele era um momento para pensar apenas em si mesma. E em Michael. 
- Que noite mais doida... mas estou adorando!
      Alternadamente, gracejaram e ficaram em silncio, no caminho para a 
pequena cidade em que Michael estava pensando. Chegou finalmente o momento 
em que nenhum dos trs falou mais qualquer coisa. Tinham uma poro de 
coisas em que pensar. Michael estava recordando o encontro com a me, 
enquanto Nancy pensava em tudo o que aquele dia representava para ela.
      - Ainda falta muito, amor?
      Nancy estava, comeando a ficar nervosa e o leno da av parecia cada 
vez mais amarrotado, espremido entre as mos.
      - Faltam apenas sete ou oito quilmetros. Estamos quase chegando. ..- 
Michael acariciou por um momento a mo de Nancy. - S mais alguns minutos, 
querida, e estaremos casados.
      - Pois ento trate de acelerar, mister, antes que eu fique de ps frios - 
cantarolou Ben, no banco de trs. 
      Michael calcou o acelerador e entrou na curva seguinte, enquanto os 
trs riam. Mas as risadas rapidamente se transformaram em arquejos, 
enquanto Michael dava uma guinada desesperada no volante, tentando 
inutilmente evitar um caminho que ocupava as duas pistas; avanando na 
direo deles, depressa demais, quase descontrolado. O motorista devia estar 
meio adormecido. Nancy recordou-se depois de ter ouvido o grito angustiado 
de Ben:
      - Oh, no!
      E sua prpria voz, ressoando em seus ouvidos. E depois houve o barulho 
interminvel de vidro espatifado, metal rangendo, sendo destroado, motores 
se encontrando, couro e plstico sendo rasgado, tudo se cobrindo com uma 
mortalha de fragmentos de vidro. E depois, finalmente, tudo parou, o mundo 
ficou totalmente escuro.
      Parecia que se haviam passado muitos anos quando Ben despertou, a 
cabea comprimida contra o painel, um latejar horrvel nos ouvidos. Tudo 
estava escuro ao seu redor e parecia haver um punhado de areia em sua boca. 
Teve a sensao de que transo correram mais algumas horas antes que 
conseguisse abrir os olhos. O esforo deixou-o terrivelmente enjoado, 
sentindo-se mal. A princpio, no pde compreender o que viu. Nada parecia 
fazer sentido. Depois, compreendeu que olhava para o olho direito de Michael. 
Estava no banco da frente com ele, mas tudo o que podia ver era Michael. E 
havia um filete de sangue escorrendo lentamente pelo lado do rosto de 
Michael, continuando pelo pescoo. Era estranho ficar observando, mas por 
algum tempo foi tudo o que Ben fez... observar... Michael... sangrando... Santo 
Deus! Ocorreu-lhe finalmente o que estava acontecendo. Acidente... houvera 
um acidente... ele e Michael estavam no carro  e... Ben levantou a cabea e 
tentou divisar mais alguma coisa, mas um golpe, que parecia de uma barra de 
ferro, obrigou-o a baixa-la novamente. Alguns minutos se passaram antes que 
ele conseguisse recuperar o flego e pudesse abrir os olhos novamente. 
Michael ainda estava cado no mesmo lugar, sangrando. Mas Bem pde agora 
constatar que o amigo estava respirando. Desta vez, quando ele se mexeu, nada 
aconteceu. Pde levantar a cabea. O que viu, alm de Michael, foi o caminho 
que os abalroara,  beira da estrada, capotado. O que ele no viu foi o mo-
torista, sob a cabina do caminho, morto. Algum tempo se passaria antes que 
algum visse isso. E depois Ben compreendeu algo mais, que estava vendo tudo 
atravs de janelas abertas. No restava mais vidro intacto em qualquer lugar 
do carro. O vidro estava por cima deles, espatifado em pequenos fragmentos 
ao redor deles. E no lado de Michael tambm no havia porta. No 
instante.seguinte, Ben recordou-se de mais uma coisa. Havia outra pessoa no 
carro... Nancy estava com eles, e para onde estavam indo?
      Era muito difcil lembrar-se das coisas, ver tudo direito. A cabea de 
Ben doa terrivelmente. Quando ele se mexeu, uma dor terrvel subiu-lhe pela 
perna, continuou pelo lado do corpo. Ele se mexeu para o outro lado, a fim de se 
livrar da dor. E foi nesse momento que a viu. Nancy... oh, Deus... era Nancy, 
numa espcie de roupa vermelha e branca, cada sobre o cap, o rosto virado 
para baixo... Nancy... ela s podia estar morta... Ben j no se importava mais 
com a dor em sua perna. Arrastou-se por cima do painel, aproximando-se dela. 
Ele tinha de vir-la... alcan-la... ajud-la... Nancy... E foi ento que percebeu a 
poeira tnue que cobria os cabelos de Nancy. Ela estava usando o pra-brisa 
por cima do vestido, sobre a nuca, sobre... Santo Deus! Com suas ltimas 
reservas de energia, ele a rolou lentamente para o lado.. E depois, 
desoladamente, com um garotinho aterrorizado.
              - Oh, Deus...
      No mais havia qualquer rosto por baixo da touca azul de cetim 
ensopada de sangue. Ele no podia dizer se Nancy estava morta ou viva. Mas, 
por um instante horrvel, esperou que ela estivesse morta. Porque 
simplesmente no existia mais nenhuma Nancy. No restava absolutamente 
mais ningum ali, nem mesmo um remanescente do rosto outrora bonito. E 
depois, misericordiosamente, entre o sangue de Nancy e as suas prprias l-
grimas, Ben desmaiou.
      
      
      
      
    

Captulo 4
      
      Ele parecia terrivelmente plido, com a me sentada ali a observ-lo. 
Marion Hillyard, sentada num canto do quarto, tinha uma expresso desolada. 
J estivera ali antes, naquele quarto, naquele dia, observando aquele rosto... 
no realmente aquele rosto ou aquele quarto, mas ela tinha a sensao de que 
nada mudara. Era exatamente como na ocasio em que Frederick tivera o 
infarto fulminante que o matara em poucas horas. Ela ficara sentada ali, 
igualmente imvel, igualmente apavorada, igualmente sozinha. E ele acabara... 
Frederick... Marion sentiu novamente um soluo subir por sua garganta e 
respirou fundo. No podia chorar. No podia deixar-se dominar por aqueles 
pensamentos. O marido morrera. Michael no ia morrer. Nada aconteceria a 
Michael. Ela no deixaria que coisa alguma lhe acontecesse. Estava agora 
fazendo-o resistir com as ltimas reservas de energia que podia dar.
      Por um momento, ela desviou o olhar para o rosto da enfermeira. A 
mulher estava observando Michael atentamente, mas no havia qualquer sinal 
de alarme em sua atitude. Ele passara o dia inteiro em estado de coma, desde o 
acidente na noite anterior. Marion chegara ali s cinco horas da manh. 
Telefonara para um servio de limusine que funcionava 24 horas por dia e viera 
de carro de Nova York. Mas teria vindo a p, se fosse necessrio. Nada a 
impediria de ficar ao lado de Michael. Tinha de estar ali para mant-lo vivo. 
Michael era agora tudo o que ela tinha. Michael e a firma... e a firma era para 
ele. Fizera tudo para Michael... isto , nem tudo por ele, mas a maior parte. Era 
o maior presente que podia dar ao filho. O presente do poder, do sucesso. 
Michael no podia jogar tudo fora por causa daquela sem vergonha... assim 
como no podia perder tudo morrendo. Oh, Deus! Era tudo culpa dela, daquela 
maldita mulher. Ela provavelmente persuadira Michael a fazer aquilo. Ela...
      A enfermeira levantou-se abruptamente e puxou as plpebras de 
Michael. Marion ficou tensa e esqueceu tudo o que estava pensando. Ela 
tambm se levantou, silenciosamente, indo postar-se ao lado da enfermeira. O 
que quer que houvesse para ver, ela queria ver. Mas no havia nada. Nenhuma 
mudana. A mulher inexpressiva de branco pegou o pulso de Michael por um mo-
mento e depois formou com a boca as mesmas palavras de sempre:
      - Continua na mesma.        .
      Ela fez um gesto na direo do corredor e Marion seguiu-a para fora do 
quarto. Desta vez, a preocupao da enfermeira no era com Michael, mas sim 
com a me.
      - O Dr. Wickfield pediu-me que lhe dissesse que devia partir s cinco 
horas, Sra. Hillyard. E, infelizmente... Ela olhou ameaadoramente para o 
relgio e depois sorriu, como se pedisse desculpas. Eram 5h15min. Marion 
estava ao lado de Michael h exatamente 12 horas. Ficara sentada ali durante o 
dia inteiro, ininterruptamente, com apenas duas xcaras de caf para se 
manter. Mas no estava cansada, no estava com fome, no estava coisa alguma. 
E no ia embora.
      - Obrigada pela gentileza. Vou andar um pouco pelo corredor e depois 
voltarei.
      Ela no ia deixar Michael. Nunca mais. Deixara Frederick.
      Apenas por uma hora, para jantar. Havia insistido que ela comesse 
alguma coisa e fora nessa ocasio que Frederick morrera. Morrera enquanto ela 
estava ausente. O que no ia acontecer desta vez. Ela sabia que Michael no 
morreria enquanto estivesse sentada ali no quarto. As leses haviam sido 
principalmente internas, mas o prprio Wickfield achava que Michael poderia 
em breve emergir do estado de coma. De qualquer forma, Marion no estava 
disposta a correr qualquer risco. Haviam tambm pensado que Frederick iria 
em breve se recuperar. Havia agora lgrimas nos olhos dela, enquanto ficava 
parada ali, os olhos vazios fixados na parede azul-clara por trs da enfermeira.
      - Sra. Hillyard?.- A mulher tocou-lhe gentilmente o brao e Marion 
estremeceu. - Deve descansar um pouco. O Dr. Wickfield reservou-lhe um 
quarto no terceiro andar.
      - No h necessidade.        
      Marion sorriu inexpressivamente para a enfermeira e afastou-se pelo 
corredor. O sol ainda brilhava na janela na extremidade do corredor. Ela se 
sentou cuidadosamente no peitoril da janela, para fumar o seu primeiro cigarro 
em horas e contemplar o sol se pr atrs de uma igreja branca naquela 
agradvel cidadezinha da Nova Inglaterra. Graas a Deus que a cidade apenas 
parecia remota, quando na verdade estava a menos de uma hora de carro de 
Boston. No houvera a menor dificuldade em trazer os melhores mdicos para 
examinarem Michael. Assim que estivesse em condies Michael seria 
transferido para um hospital em Nova York. At l, ela sabia que; pelo menos, o 
filho estaria em boas mos. Em termos mdicos, foi Michael quem mais sofrera. 
O rapaz Avery sara bastante machucado do acidente, mas estava desperto e 
vivo. O pai levara-o de ambulncia para Boston, naquela tarde. Ele quebrara um 
brao, uma perna, um p e uma clavcula, mas iria recuperar-se inteiramente. E, 
a moa... ora, tudo fora culpa dela, no havia razo para que devesse. .. Marion 
apagou o cigarro com um movimento vigoroso do p. A moa tambm ficaria, 
boa. Isto , pelo menos viveria. A nica coisa que ela perdera havia sido o rosto. 
E talvez tivesse sido at melhor assim. Por uma frao de segundo, Marion quis 
combater a raiva que sentia, desejou sentir pena da moa... para o caso de toda 
aquela baboseira sobre caridade crist ser verdadeira, para o caso de seus 
sentimentos fazerem alguma diferena para Michael... e pela possibilidade de 
haver um Deus que pudesse puni-la. Mas no conseguiu. Odiava. a moa at o 
fundo de seu corao.
      - Pensei ter deixado ordens para que fosse descansar um pouco.
      Marion virou-se na direo da voz, com um sobressalto - riu, cansada, ao 
deparar com o seu Dr. Wickfield. Wicky.
      - Ser que nunca acata o que os outros dizem, Marion? 
      - No, se puder evit-lo. Como est Michael?
      Ela estava com o cenho franzido, enquanto pegava outro cigarro.
      - Acabei de dar uma olhada. Ele continua estvel. J lhe disse que ele vai 
sair do estado de coma, mas  preciso dar-lhe algum tempo. Todo o seu 
organismo recebeu um tremendo choque.
      - Foi o que tambm aconteceu comigo, quando recebi a notcia. - O 
mdico assentiu, com uma expresso compreensiva.
      - Tem certeza de que no haver leses permanentes? - Marion fez uma 
breve pausa, antes de acrescentar as palavras terrveis: - Leses cerebrais?
      Wickfield afagou-lhe o brao e sentou-se a seu lado no peitoril da 
janela. Por trs deles, a cidadezinha era um cenrio digo no de um carto-
postal.
      - J lhe falei tudo, Marion. Na medida em que podemos prever, ele 
ficar inteiramente bom. Mas  claro que muito vai depender do tempo em que 
permanecer em estado de choque.
      Mas posso afirmar-lhe que ainda no estou assustado.
      - Mas eu estou.
      Eram trs palavras bem pequenas na boca de uma muito forte. 
Surpreenderam o seu mdico, que  fitou mente. Havia facetas de Marion 
Hillyard de que ningum jamais suspeitava.
      - Como est a moa? - indagou ela.
      Agora ela era novamente a Marion que Wickfield sempre conhecera os 
olhos estreitados por trs da fumaa do cigarro, o rosto duro, o medo 
dissipado.
      - No h muita coisa que possa mudar para ela. Ou pelo menos no por 
enquanto. O estado dela permaneceu estvel durante o dia inteiro, mas no h 
absolutamente nada que possamos fazer por ela. Por um lado, porque ainda  
muito cedo; por outro, porque s existem dois homens em todo o pas que 
podem cuidar desse tipo de reconstruo total. No restou absolutamente nada 
no rosto dela, nem um nico osso intacto, nervo ou msculo. Somente os olhos  
que no foram totalmente destruidos.
      - Melhor assim, porque dessa forma ela poder contemplar a si mesma.
      O Dr. Wickfield teve um sobressalto com o tom de voz de Marion.
      - Michael  que estava dirigindo, Marion. No era ela. Mas Marion 
limitou-se a assentir em resposta. No havia sentido em insistir no assunto com 
Wickfield. Ela sabia de quem era a culpa. Era toda da moa.
      - O que acontece com algum nesse estado se o trabalho de 
reconstruo no for feito? Ela viver?
      - Infelizmente sim. Mas levar uma vida trgica. No se pode pegar uma 
moa de 20 anos e transform-la num horror desse tipo esperando que se 
ajuste. Ningum pode ajustar-se. Ela era... bonita antes do acidente?
      - Acho que era. Mas no sei com certeza. Nunca nos encontramos.
      A voz de Marion era dura como rocha, assim como os olhos.
      - Entendo. Seja como for, ela vai enfrentar uma terrvel realidade. 
Faro tudo o que for possvel aqui no hospital, assim que ela melhorar um pouco. 
Mas no poder ser muita coisa. Ela por acaso tem dinheiro?
      - Nenhum.
      Marion pronunciou a palavra como se fosse uma sentena de morte. Era 
a pior coisa que podia dizer a respeito de qualquer pessoa. 
      - Ento ela no tem muitas opes. Infelizmente, os homens que fazem 
esse tipo de trabalho no so de fazer caridade.
      - J pensou em algum em particular?
      - Conheo alguns nomes. Dois, para ser mais exato. O melhor est em 
So Francisco. - Um pequeno fogo ateou-se no corao do Dr. Wickfield. Com 
todo o seu dinheiro, Marion Hil1yard podia... se ao menos... - O nome dele  
Peter Gregson. Ns nos conhecemos h alguns anos.  realmente um homem 
extraordinrio.
      - Ele seria capaz de fazer um trabalho desses?        
      Wickfield sentiu um impulso de admirao pela mulher. Sentiu vontade 
de abra-la, mas no se atreveu.         
      -  bem possvel que ele seja o nico homem capaz de faz-lo. Devo... 
quer que eu entre em contato com ele?
      Ele hesitou em dizer as palavras. Marion fitou-o com seus olhos frios e 
calculistas e Wickfield ficou sem saber o que ela estava pensando. A onda de 
admirao quase se transformou em medo.
      - Eu lhe direi quando chegar o momento.
       - Est certo. - Wickfield olhou para o relgio e depois se levantou. - 
Gostaria que descesse agora e descansasse um pouco. Estou falando srio.
      - Sei disso. - Marion presenteou-o com um sorriso frio. - mas acontece 
que no vou descansar. E voc sabe disso tambm. Tenho de ficar ao lado de 
Michael.
      - Mesmo que se matasse fazendo isso?
      - No vou me matar. Sou ruim demais para morrer, Wicky.
      Alm disso, ainda tenho muito trabalho a fazer.
      - E vale a pena?
      Wickfield fitou-a com curiosidade por um momento. Se tivesse um 
dcimo da ambio dela, teria sido um grande cirurgio. Mas no tinha e por 
isso no era. E nem mesmo tinha certeza se a invejava.
      - E vale a pena?
      Na segunda vez, ele falou mais suavemente. Marion assentiu. - Claro que 
vale. Jamais duvide disso, por um segundo sequer. Tem-me dado tudo o que 
quero da vida.
      A menos que eu perca Michael. Marion fechou os olhos, tratando de 
afastar o pensamento da mente.
       - Muito bem, vou deix-la mais uma hora com Michael e depois voltarei 
para c. E vou obrig-la a descansar nem que tenha de aplicar-lhe Nembutal e 
arrasta-la pessoalmente para fora do quarto. Entendido?        
      - Est certo. - Marion levantou-se, deixou cair o outro cigarro no cho, 
esmagou-o com o p, afagou o rosto dele ligeiramente. 
      - E Wicky... - Ela o fitou sob as pestanas castanhas compridas. Por um 
momento, era toda suavidade e beleza castanha. - ... obrigada.
      Ele a beijou gentilmente no rosto, apertou-lhe o brao e depois recuou 
por um momento.
      - Ele vai ficar bom, Marion. Voc vai ver.
      Ele no se atreveu a mencionar a moa novamente. Poderiam voltar a 
falar a respeito disso mais tarde. Limitou-se a sorrir o afastou-se, enquanto 
Marion continuava parada no mesmo lugar, parecendo vulnervel e solitria. 
Wickfield sentiu-se contento por ter-se lembrado de telefonar para George 
Calloway, pouca horas antes. Marion precisava de algum a seu lado. Wickfield 
no parou de pensar nela enquanto avanava pelo corredor. Marion ficou 
parada, observando-o afastar-se. S depois que ele sumiu  que ela comeou a 
avanar pelo corredor, um vulto solitrio, a caminho do quarto de Michael, 
passando por portas abertas e fechadas, por desesperos que estavam para 
chegar e esperanas que jamais se concretizariam. E umas poucas que 
sobreviveriam. Aquele andar estava reservado para os doentes em estado 
crtico e no saa qualquer rudo dos quartos pelos quais ela passava, 
lentamente. J estava, na metade do corredor quando ouviu soluos convulsivos 
saindo por uma porta aberta. Os sons eram to baixos que a princpio Marion 
no teve certeza se estava mesmo ouvindo alguma coisa. E foi ento que viu o 
nmero do quarto e compreendeu tudo. Estacou abruptamente, como se tivesse 
esbarrado numa parede invisvel. Olhou para a porta e para a escurido alm.
      Podia avistar a cama no canto, os contornos meio indefinidos. Mas o 
quarto estava s escuras. Todas as persianas e cortinas estavam fechadas, 
como se a paciente no pudesse ser atingida pela luz. Marion ficou parada ali 
por um longo tempo, com receio de entrar no quarto, mas sabendo que tinha de 
faze-lo. Lentamente, um p depois do outro, suavemente, quase deslizando, ela 
avanou um pouco pelo quarto. E parou novamente. Os soluos eram um pouco 
mais altos agora e soando a intervalos mais rpidos, com ligeiros arquejos de 
pnico.
      - H algum a?
      Toda a cabea da jovem estava envolta por ataduras e a voz soava 
abafada e estranha.
      - H algum a? - A voz tornou-se um pouco mais alta.
      - No posso ver.
      - Seus olhos esto apenas cobertos por ataduras. No h nada de 
errado com seus olhos. - Mais tais palavras foram recebidas por novos soluos. 
- Por que est acordada?
      Marion falava num tom impassvel. No eram palavras visando a 
tranqilizar, mas sim palavras inteiramente destitudas de toda e qualquer 
emoo. A prpria Marion tinha a sensao de que estava falando num sonho. 
Mas sabia que tinha de estar ali.         No havia outro jeito. Pelo bem de Michael.
      - No lhe deram nada para dormir?
      - No funciona. Continuo acordando a todo instante.
      - A dor  terrvel demais?
      No. Sinto o corpo todo dormente. Quem... quem   voc?
      Marion ficou com medo de dizer. Em vez disso, aproximou-se da cama e 
sentou-se na cadeira azul estreita que alguma enfermeira devia ter deixado ali. 
As mos da moa tambm estavam envoltas em ataduras e pediam nos lados, 
inteis. Marion recordou-se de que Wicky lhe dissera que a moa naturalmente 
usara as mos para proteger o rosto. As leses na mos eram to grandes 
quanto no rosto, o que seria terrvel para ela, por ser uma pintora. Em suma, 
toda a vida daquela moa estava praticamente liquidada. A juventude, a beleza, 
o trabalho .E o seu romance. Mas agora Marion sabia o que tinha de dizer.
      - Nancy... - era a primeira vez que ela pronunciava o nome, mas agora 
isso no tinha importncia. No havia alternativa. -Eles...
      Marion fez uma pausa. Sentada ali, ao lado da jovem mutilada, sua voz 
era suave e insinuante.
      Houve um silncio total no quarto por um tempo interminvel. Depois, um 
pequeno soluo angustiado emergiu do meio das ataduras.
      - J lhe falaram sobre o terrvel estado em que seu rosto ficou?
      Marion sentiu o estmago revirar-se ao pronunciar tais palavras, mas 
no podia parar agora. Tinha de libertar Michael. Se o libertasse, ele viveria. 
Ela podia sentir isso no fundo de si mesma.
      - J lhe contaram como seria impossvel reconstitu-la com perfeio?
      Os soluos eram agora furiosos.
      - Mentiram para mim! Disseram...
      - S h um homem que pode realizar o trabalho com perfeio, Nancy. E 
custaria centenas de milhares de dlares. No tem condies de pagar. Nem 
Michael.
      - Eu jamais permitiria que Michael pagasse! - Ela estava agora furiosa 
com a voz, assim como se revoltava contra o destino. - Nunca permitiria...
      - E o que vai fazer ento?
       Os soluos recomearam
      - Poderia enfrent-lo desse jeito? - Demorou alguns minutos para que o 
"no" sufocado sasse do meio das ataduras. 
      -Acha que ele iria am-la desse jeito?Mesmo que ele tentasse, por 
sentir algum vinculo de lealdade, alguma obrigao, quanto tempo acha que 
poderia durar?Quanto tempo voc suportaria saber como se parece e o que 
est fazendo com ele?
      Os sons que Nancy emitia agora eram assustadores. Ela dava a 
impresso de que estava passando muito mal e Marion perguntou-se qual teria 
sido sua reao naquelas circunstancias.
      - No restou nada de voc, Nancy. Absolutamente nada. Nada restou da 
vida que voc tinha antes deste dia.
              As duas permaneceram num silncio interminvel. Marion tinha a 
impresso de que iria ouvir aqueles soluos para sempre. Mas tinha que ser 
doloroso, caso contrrio no daria certo.
              - J o perdeu, Nancy. No pode fazer uma coisa dessas com ele. E ele... 
ele merece muito mais do que isso. Se o ama, sabe disso. E... e voc tambm 
merece. Mas pode ter uma vida nova, Nancy.
      A moa nem mesmo se deu ao trabalho de responder, continuando a 
soluar.
      - Pode ter uma vida nova, Nancy. Um mundo inteiramente novo. - Marion 
esperou, at que os soluos se tornaram novamente furiosos e depois cessaram. 
- Um rosto inteiramente novo, Nancy.
      - Como?
      - H um homem em So Francisco que pode torn-la bonita novamente. 
Que pode faz-la capaz de pintar outra vez. Levaria muito tempo, um dinheiro 
incalculvel. Mas valeria a pena, Nancy... no acha?
      Havia agora um sorriso incipiente nos cantos da boca de Marion. Estava 
em terreno familiar. Era como fazer uma transao de muitos milhes de 
dlares. Uma transao de 100 milhes de dlares. No final, era tudo a mesma 
coisa.
      Um pequeno suspiro entrecortado emergiu das ataduras. 
      - Ns no temos condies para um tratamento desses. 
      Marion quase estremeceu ao ouvir o "ns". No eram mais um "ns". 
Nunca haviam sido. Ela, Marion, e Michael  que eram o "ns". No aquela... 
aquela... Marion respirou fundo, tratando de recuperar o controle. Tinha um 
trabalho a fazer. Era a nica maneira pela qual podia pensar sobre o caso. No 
podia pensar na moa. Apenas em Michael.
      - Vocs no podem, Nancy. Mas eu posso. Sabe agora quem eu sou, no  
mesmo?
      - Sei.
      - Pode compreender que j perdeu Michael? Que ele no pode 
sobreviver  presso e tragdia do que lhe aconteceu, se  que conseguir 
escapar com vida do acidente? Pode compreender isso, no  mesmo?
      - Posso.
      - E sabe que seria uma iniqidade tentar submet-la a essa provao, 
faz-lo demonstrar a sua lealdade para com voc?
      Marion no queria dizer a palavra "amor". Aquela moa no era digna de 
tanto. E isso era algo em que Marion tinha de acreditar de qualquer maneira.
      - Pode compreender isso, Nancy? - Houve um momento ele silncio. - 
Pode, Nancy?
      Desta vez, a resposta foi uma palavra, desesperada, exausta, desolada:
      - Posso.
      - O que significa que j perdeu tudo o que podia perder, no  mesmo?
      - , sim.
      Novamente a voz soava destituda de inflexo, sem qualquer vida. Era 
como se a prpria vida estivesse se escoando da moa.
      - Nancy, eu gostaria de lhe propor um pequeno acordo.
      Era Marion Hillyard no melhor de sua classe. Se o filho pudesse ouvi-la 
naquele momento, sentiria vontade de mat-la.
      - Gostaria que pensasse sobre aquele rosto novo. Sobre uma nova vida, 
uma nova Nancy. Pense nisso. Sobre o que poderia representar. Seria bonita 
novamente, poderia outra vez ter amigos, poderia ir a lugares... restaurantes, 
cinemas, lojas... poderia vestir roupas bonitas e sair com homens. A 
alternativa... as pessoas se encolhendo e recuando quando voc se aproximar. 
No poderia ir a lugar nenhum, no poderia fazer coisa alguma, no seria 
ningum. As crianas chorariam se a vissem. Pode imaginar o que seria viver 
assim? Mas tem uma opo.        
      Marion parou de falar, dando tempo para que a moa absorvesse suas 
palavras.
      - No, no tenho.
      - Tem, sim. Quero dar-lhe essa opo. Eu lhe darei essa nova vida. Um 
novo rosto, um novo mundo. Um apartamento em outra cidade, enquanto o 
trabalho estiver sendo realizado... qualquer coisa que precisar, qualquer coisa 
que quiser. No haver qualquer dificuldade. Dentro de um ano mais ou menos, 
Nancy, o pesadelo estar terminado.
      - E depois?
      - Voc estar livre. A. nova vida lhe pertencer.
      Houve uma pausa interminvel, enquanto Marion se preparava para 
desfechar o golpe de misericrdia que Nancy estava esperando.
      - Contanto que voc nunca mais volte a entrar em contato com Michael. 
O novo rosto ser seu somente se renunciar a Michael. Mas se no aceitar... 
meu presente, sabe que de qualquer maneira j o perdeu. Assim, por que viver o 
resto de sua vida como uma aberrao, se no tem necessidade?
      - E, se Michael no quiser respeitar o acordo? E se eu me afastar dele, 
mas Michael no quiser ficar longe de mim?
      - Tudo o que quero de voc  a promessa de que ficar longe dele. O que 
Michael quiser fazer  problema dele.
      - E voc vai respeitar isso? Se Michael me quiser... se vier atrs de 
mim... ento  tudo com ele?
      - Respeitarei isso.
      Deitada ali, Nancy sentiu-se vitoriosa. Conhecia Michael infinitamente 
melhor que a me dele. Michael jamais renunciaria a ela. Acabaria por 
encontr-la e insistiria em ajud-la a superar a provao. A esta altura, ela j 
estaria a caminho de se tomar a mesma Nancy de antes. A me dele no 
poderia vencer, por mais que tentasse. Aceitando o acordo, Nancy estaria de 
certa forma trapaceando, pois j sabia qual seria o resultado. Mas tinha de 
aceitar. No havia alternativa.
      - Vai aceitar?
      Marion quase perdeu a respirao, enquanto esperava pela palavra por 
que estava rezando, a palavra que libertaria Michael.. E finalmente essa palavra 
chegou.
      Mas seria uma palavra de vitria, no de derrota. Estaria impregnada 
com toda a f que Nancy depositava em Michael. Ela se recordou das palavras 
que Michael lhe dissera na praia, na manh anterior, ao esconderem as contas: 
"Prometo nunca dizer adeus". Ela sabia que ele jamais o faria.
      - Qual  a sua resposta, Nancy?
      Marion no podia esperar por mais tempo. O corao dela no 
suportaria.
      - Sim.
      

Captulo 5
      
      Marion Hillyard estava parada  entrada do, hospital num vestido preto 
de l e com um casaco preto de Cardin, observando os homens que embarcavam 
a moa em uma ambulncia. Eram seis horas da manh e ela no voltara a falar 
com Nancy. Assim que haviam concludo o acordo na noite anterior, Marion ime-
diatamente pedira a Wicky que telefonasse para o homem que ele conhecia em 
So Francisco. Wickfield ficara na maior alegria. Ele beijara Marion no rosto e 
depois tratara de entrar em contato com Peter Gregson, encontrando-o em 
casa. Gregson concordara em realizar o trabalho. E pedira que Nancy seguisse 
imediatamente para a Califrnia. Marion providenciara um compartimento 
especial de primeira classe e duas enfermeiras, num jato que partia para So 
Francisco s oito horas da manh.
      - Ela  uma moa de sorte, Marion.
      Wickfield contemplou-a com expresso de admirao, enquanto ela 
esmagava outro cigarro.
      - Tambm acho. E no quero que Michael saiba, Wicky. Entendido? - 
Wickfield entendia, assim como a insinuao do "ou ento" na voz dela. - Se 
algum contar alguma coisa a Michael, cancelo imediatamente o tratamento 
dela.
      - Mas por qu? Ele tem o direito de saber o que voc fez pela moa.
      - Fica entre ns duas. Ou melhor, entre ns quatro, incluindo voc e 
Gregson. Michael no precisa saber de nada. Quando ele sair do estado de 
coma, no deve mencionar-lhe a moa. S serviria para deixar-lo nervoso.
      Se  que Michael ia sair do estado de coma. Marion cochilara numa 
cadeira ao lado dele durante a noite inteira, apesar dos protestos de Wicky. 
Mas sentira-se estranhamente revigorada depois de sua conversa com Nancy. 
Finalmente libertara Michael. Agora ele podia viver. De certa forma, dera a 
vida a ambos. E sabia que estava certa ao agir como fizera.
      - No vai dizer coisa alguma, no  mesmo, Robert? Marion nunca o 
chamava assim, exceto para recordar-lhe o que o dinheiro Hil1yard fizera por 
seu hospital.
      - Claro que no, se  isso o que voc quer.
      - , sim.
      Houve o estrpito seco da porta da ambulncia sendo fechada. A 
derradeira manta azul que envolvia a moa desapareceu, assim como as duas 
enfermeiras. Elas ficariam com Nancy pelos primeiros seis ou oito meses em 
So Francisco. Depois disso, dissera Gregson, a moa no mais precisaria delas. 
Mas durante esses seis ou oito meses ela passaria a maior parte do tempo com 
os olhos vendados, enquanto ele trabalhava nas plpebras e nariz, testa e 
faces. Era preciso reconstruir inteiramente o rosto. E havia outras despesas 
envolvidas. Nancy precisaria dos cuidados quase constantes de um psiquiatra, 
para poder enfrentar o choque emocional de se transformar numa nova pessoa. 
No havia a menor possibilidade de Gregson restaurar o mesmo rosto que ela 
tivera antes. Ele tinha de criar uma mulher inteiramente nova. Marion achou 
que a idia no podia ser melhor. Assim, a moa ficaria ainda mais apartada de 
Michael. Estava eliminada a possibilidade de um encontro por acaso num 
aeroporto, cinco anos depois. Marion no queria que isso acontecesse. Ela 
repassou mentalmente as providncias que havia acertado pelo telefone com 
Gregson, s quatro horas daquela madrugada, uma hora em So Francisco. Ele 
dera a impresso de ser inteligente e dinmico, um homem na casa dos 40 anos, 
com reputao internacional extraordinria em seu campo. Nancy era uma moa 
de muita sorte.
      Gregson dissera que mandaria sua secretria cuidar dos detalhes. O 
apartamento, as roupas. Haviam rapidamente calculado o custo de 18 meses de 
cirurgia e as despesas adicionais de cuidados psiquitricos, enfermeiras 
permanentes por algum tempo e at mesmo medidas de apoio de carter geral. 
Terminaram por fixar-se em 400 mil dlares como uma cifra razovel. Marion 
telefonaria para seu banco s nove horas e mandaria transferir a quantia para 
a conta de Gregson em So Francisco. O dinheiro j estaria l quando o banco 
dele abrisse, s nove horas. No que Gregson estivesse preocupado com isso. 
Sabia quem era Hillyard. Quem no sabia?
      - Por que no entra agora e come alguma coisa, Marion? 
      Wickfield estava perdendo a esperana de ter qualquer influncia sobre 
ela e Calloway dissera que no poderia deixar Nova York antes daquela manh. 
Wickfield no sabia que Marion dissera a Calloway que no viesse. Ela queria 
estar sozinha para poder acertar devidamente os termos do "negcio". E tudo 
sara  perfeio.
      - Marion?
      - O que ?
      - Vai tomar o caf?
      - Mais tarde, Wicky. Quero antes ver como Michael est. - Vou subir 
para dar uma olhada nele agora.
      Marion parou por um momento no banheiro, enquanto Wickfield seguia 
em frente para ver Michael. Mas ele no esperava qualquer mudana imediata. 
Afinal, examinara.o apenas uma hora antes.        
      Mas havia um estranho silncio quando Marion entrou no quarto cinco 
minutos depois. Wicky estava afastado da cama, com expresso solene, a 
enfermeira no estava mais no quarto.
      O sol da Nova Inglaterra incidia sobre a cama e de algum lugar vinha o 
barulho de gua pingando numa pia. Tudo estava quieto demais. Subitamente, 
Marion sentiu que o corao lhe subia  boca. Era como na ocasio em que 
Frederick... oh, Deus!... a mo de Marion subiu involuntariamente para o corao 
e ela ficou paralisada na porta, olhando de Wicky para a cama. E depois ela o 
viu e seus olhos se encheram de lgrimas. Estava sorrindo para ela... o seu 
menino. No era absolutamente como Frederick. Um soluo ficou preso em sua 
garganta e ela se encaminhou para a cama, as pernas trmulas. Inclinou-se e 
tocou o rosto dele com as mos.
      - Oi, mame.
      Eram as palavras mais lindas que ela j tinha ouvido e as lgrimas 
escorreram por suas faces enquanto sorria.
      - Eu o amo, Michael.
      - Tambm a amo.
      At mesmo Wickfield tinha lgrimas nos olhos enquanto os observava. O 
rapaz, to jovem e bonito e vivo novamente, a mulher que tanto dera de si nos 
ltimos dois dias. Ele saiu discretamente do quarto e nenhum dos dois ouviu-o 
retirar-se.
      Marion ficou abraando o filho gentilmente por longo tempo, depois 
passou a mo pelos cabelos dele.
      - No precisa mais se preocupar, mame. Est tudo bem. Puxa, como 
estou com fome!
      Marion riu. Michael parecia estar muito bem. Estava vivo novamente. E 
era todo dela.
      - Vamos oferecer-lhe o maior e mais supercaf da manh que j 
conheceu em toda a sua vida, se Wicky achar que no h problema.
      - Wicky que se dane. Estou morrendo de fome.
      - Michael!
      Mas Marion no podia zangar-se com ele. Podia apenas am-lo. Mas 
depois, enquanto ela o contemplava, viu o rosto de Michael tornar-se 
abruptamente sombrio, como se recordasse de repente por que estava ali. 
Antes disso, ele se comportara como se tivesse acabado de despertar depois 
que lhe haviam arrancado as amgdalas. Tudo o que queria era sorvete e a me. 
Mas agora havia muito mais coisas no rosto de Michael. Ele tentou sentar-se na 
cama. No sabia como dizer as palavras, mas tinha de perguntar de qualquer 
maneira. Examinou atentamente o rosto de Marion, que manteve os olhos 
fixados nos dele, segurando-lhe a mo firmemente.
      - Fique calmo, querido.
      - Mame... os outros... a noite passada... estou me lembrando do que 
aconteceu....
      - Ben j voltou para Boston com o pai. Ele ficou bastante machucado, 
mas vai-se recuperar. O estado dele no era to grave quanto o seu.
      Marion pontuou tais palavras com um suspiro e apertou ainda mais a mo 
do filho. Ela j sabia o que viria em seguida. Mas estava preparada para a 
pergunta.
      - E... Nancy? - O rosto dele estava branco como marfim ao pronunciar o 
nome da moa. - E Nancy, mame?
      As lgrimas j apareciam nos olhos de Michael. Ele podia divisar a 
resposta no rosto da me, enquanto ela se sentava cuidadosamente na cadeira 
ao lado da cama e passava a mo gentilmente pelos contornos do rosto dele.
      - Ela no conseguiu se salvar, querido. Fizeram tudo o que era possvel. 
Mas as leses que ela sofreu haviam sido grandes demais. - Marion fez uma 
pausa por uns poucos segundos e depois acrescentou: - Ela morreu esta 
madrugada.
      - Voc a viu? 
      Michael ainda estava imvel, observando atentamente o rosto da me,  
procura de algo mais.
      - Passei algum tempo sentada com ela na noite passada.
      - Oh, Deus... e eu no estava l! Oh, Nancy...
      Michael virou a cabea contra o travesseiro e chorou como uma criana, 
enquanto Marion lhe segurava firmemente os ombros. Ele murmurou o nome 
dela vezes sem conta, interminavelmente, at que finalmente no podia mais 
continuar a chorar. Enquanto se virou a fim de olhar novamente para a me, ela 
viu algo no rosto de Michael que nunca antes conhecera. Era como se ele 
tivesse perdido alguma coisa de si mesmo durante aqueles momentos em que 
ficara murmurando o nome de Nancy. Como se uma parte dele se tivesse 
esvado e morrido.
      
      
      
      
    

Captulo 6
      
      Nancy ouviu o barulho do trem de aterrissagem sendo baixado. Pela 
centsima vez, desde que o vo comeara, sentiu o contacto da mesma mo que 
j lhe tocara o brao antes. Era estranhamente reconfortante sentir a mo da 
enfermeira e ficou satisfeita ao constatar que j podia reconhecer a diferena 
entre as duas. Uma das mulheres tinha mos finas e delicadas, com dedos 
compridos, as mos estavam sempre frias, mas havia um indcio de grande 
fora na maneira como seguravam Nancy. E faziam com que Nancy se sentisse 
corajosa novamente, pelo simples contato. A outra enfermeira tinha mos 
quentes, gorduchas, macias, que a faziam sentir se segura e amada. Ela afagava 
constantemente o brao de Nancy. Fora ela quem aplicara em Nancy as duas 
injees contra a dor. Possua voz suave e tranqilizadora. A primeira mulher 
tinha um ligeiro sotaque. Nancy j estava gostando das duas..
      - Agora no vai demorar muito, minha cara. J podemos ver a baa. Mais 
alguns minutos e estaremos aterrissando.
      Mas o avio ainda levaria 20 minutos para pousar. Era o tempo que Paul 
Gregson estava contando, enquanto avanava rapidamente pela freeway em seu 
Porsche preto. A ambulncia iria encontrar-se com ele no aeroporto. Mais 
tarde, ainda naquela manh, poderia mandar uma das moas do escritrio 
buscar o seu carro. Gregson queria ir para a cidade junto com a moa. Estava 
intrigado. Ela devia ser Algum para que Marion Hillyard se interessasse tanto 
pelo seu caso. Afinal, 400 mil dlares era uma quantia e tanto. E apenas 300 mil 
seriam para ele. Os outros 100 mil dlares serviriam para manter a moa 
confortavelmente, pelo prximo ano e meio. O que de fato aconteceria. Fora o 
que ele prometera a Marion Hillyard. De qualquer forma, teria mesmo 
providenciado isso. Era parte do trabalho que fazia. Precisaria conhecer at a 
prpria alma da moa. Iriam tornar-se mais que amigos; ele passaria a 
representar tudo para a moa e vice-versa. Tinha de ser assim, porque ela seria 
a pessoa com que ia parecer no momento em que seu novo rosto nascesse. Peter 
Gregson ia dar  luz a Nancy McAllister, depois uma gravidez de 18 longos 
meses. Ela teria de ser uma moa bastante corajosa. Mas certamente seria. Ele 
providenciaria para que assim fosse. Enfrentariam a tudo juntos. A prpria 
idia excitou-o. Ele amava o que fazia e, de uma estranha maneira, j amava 
Nancy. Amava aquilo em que a transformaria. O que ela seria. Iria dar a Nancy 
tudo o que ele tinha para dar.
      Gregson olhou para o relgio e pisou mais ainda no acelerador. O carro 
era uma de suas vlvulas de escape prediletas. Ele tambm pilotava seu prprio 
avio, dedicava-se  caa submarina sempre que tinha tempo, esquiava, j havia 
escalado diversas montanhas da Europa. Era um homem que gostava de alcanar 
as culminncias, por todos os meios possveis. Gostava de desafiar o impossvel 
e vencer. Era por isso que amava seu trabalho. Muitas pessoas acusavam-no de 
bancar Deus. Mas no era realmente isso. Era a emoo dos percalos 
insuperveis que o estimulava. E at hoje ele nunca fora derrotado. Nem pelas 
mulheres, pelas montanhas ou pelo cu. Nem mesmo por uma paciente. Aos 47 
anos, havia conquistado tudo em que tocara. E ia vencer novamente agora. Os 
cabelos pretos de Gregson agitavam-se ao vento e os olhos quase 
transbordavam de vida. Ainda tinha um bronzeado da semana que passara 
recentemente no Tahiti. Vestia cala esporte cinza e suter de casimira azul-
clara, da cor de seus olhos. Estava sempre impecavelmente vestido, as roupas 
combinando perfeitamente. Era um homem de aparncia excepcionalmente 
atraente, mas tinha algo mais do que isso. Era a sua vitalidade, a sua 
exuberncia, que atraam a ateno das pessoas muito mais que a aparncia.
      Ele encostou o carro no meio-fio, diante do aeroporto, exatamente no 
momento em que o avio de Nancy tocava na pista. Exibiu um passe especial 
para um guarda, que assentiu e prometeu ficar de olho no carro. At mesmo o 
guarda sorriu para Gregson. Peter Gregson era um homem que ningum podia 
ignorar possua um encanto quase irresistvel e uma fora que transparecia em 
tudo o que fazia. E despertava nas pessoas a vontade de estarem perto dele.
      Avanou rapidamente pelo saguo do aeroporto e foi falar com um 
supervisor. O homem pegou um telefone e momentos depois Peter foi levado 
por uma porta, desceu um lance de escada e embarcou em um pequeno veculo 
do aeroporto. Foi levado pela pista at o local em que a ambulncia estava 
parada, com os atendentes esperando que a paciente fosse desembarcada do 
avio. Agradeceu ao motorista que o trouxera e depois seguiu apressadamente 
para a ambulncia. Verificou rapidamente o interior da ambulncia, a fim de 
conferir se suas ordens haviam sido cumpridas. E haviam, ao p da letra. L 
estava tudo o que ele precisava. Era difcil imaginar em que estado a moa 
poderia ter ficado depois do vo. Mas ele a queria em So Francisco 
imediatamente, a fim de poder supervisionar tudo de perto. Tinha muito 
planejamento a fazer e o trabalho iria comear dentro de poucos dias.
      Os outros passageiros foram retidos por mais alguns minutos enquanto 
Nancy era retirada do avio. As aeromoas recuaram, com expresses 
sombrias, desviando o olhar dos vidros e tubos de transfuso que pendiam 
sobre a moa envolta em ataduras, mas as enfermeiras pareciam estar 
conversando com a paciente, enquanto a acompanhavam para fora do avio. 
Peter Gregson gostou da aparncia das enfermeiras. Eram jovens, mas 
competentes pareciam trabalhar bem como uma equipe. Era justamente o que 
ele desejava. Todos iriam fazer parte de uma equipe pelo prximo ano e meio e 
cada pessoa tinha a sua importncia. No havia lugar para relutncia ou 
incompetncia. Todos tinham que ser o melhor de que eram capazes, inclusive 
Nancy. Mas disso ele cuidaria. Nancy ia ser a estrela do espetculo. Ele ficou 
observando enquanto a levavam para longe do lugar em que estava e esperou 
at que a maca fosse ajeitada suavemente no interior da ambulncia Sorriu 
para as enfermeiras, mas no disse nada. Ergueu a mo, gesticulando para que 
esperassem um pouco, enquanto entrava na ambulncia e sentava-se em um 
banco ao lado de Nancy.
      Pegou a mo dela e suspendeu-a ligeiramente.
      - Ol, Nancy. Sou Peter. Como foi a viagem?
      Como se ela fosse algo concreto. Como se ainda fosse algum e no 
apenas uma massa informe. Nancy sentiu um alvio imenso invadi-la ao ouvir a 
voz de Peter Gregson.
      - Foi tudo bem.  o Dr. Gregson?
      Ela parecia cansada, mas interessada.
      - Exatamente. Mas acho que Peter soa um pouco menos formal entre 
duas pessoas que vo trabalhar juntas.
      Nancy gostou da maneira como ele falou; se pudesse, teria sorrido.
      - Veio ao aeroporto para me receber?
      - No teria feito a mesma coisa?
      - Teria. - Nancy queria sacudir a cabea em assentimento, mas no 
podia. - Obrigada.
      - Estou contente por ter vindo esper-la. J esteve em So         Francisco 
alguma vez antes, Nancy?
      - No.
      - Pois vai adorar a cidade. E vamos arrumar-lhe um apartamento de que 
vai gostar tanto que nunca mais vai querer ir embora. Talvez j saiba que a 
maioria das pessoas nunca deixa        So Francisco. A partir do momento em que 
chegam aqui, as pessoas querem ficar para sempre. Eu prprio vim de Chicago 
h cerca de 15 anos e nada neste mundo me faria voltar.
      Nancy riu pela maneira como ele falou. Peter sorriu e indagou: .
      - Voc  de Boston?
      Ele a estava tratando como se tivessem sido apresentados por amigos 
comuns. Mas queria que ela relaxasse depois do 10hs de  vo. E uns poucos 
minutos sem movimento iriam fazer-lhe bem. As enfermeiras tambm estavam 
contentes pela oportunidade de esticarem as pernas por algum tempo, enquanto 
conversavam com os dois atendentes da ambulncia a fim de verificarem se o 
Dr. Gregson ainda estava conversando com Nancy. J tinham simpatizado com 
ele. O Dr. Gregson irradiava simpatia.
      - No. Eu era de New Hampshire. Ou pelo menos foi l que cresci. Num 
orfanato. Mudei-me para Boston quando estava com 18 anos.
      - Parece muito romntico. Ou ser que o orfanato era uma instituio 
sada diretamente de Dickens?
      Ele imprimiu  indagao um toque leve, uma conotao feliz. Nancy no 
pde deixar de rir da pergunta referente a Dickens.
      - Absolutamente. As freiras eram maravilhosas. E de tal forma que por 
muito tempo pensei em me tomar freira.
      - Essa no! Quero que saiba de uma coisa... - Nancy riu novamente, por 
causa do tom com que ele falava. - Quando terminarmos com o nosso projeto, 
minha jovem, estar prontinha para Hollywood. Se for esconder-se em algum 
convento, eu... eu... eu... ora, vou-me atirar da ponte!  melhor prometer logo de 
uma vez que no vai sair daqui para virar freira em algum lugar. Era uma 
promessa fcil de fazer. Ela tinha de ficar preparada para Michael. Os sonhos 
de se tornar a Irm Agnes Marie haviam-se dissipado h anos, mas ela queria 
provocar Gregson mais um pouco. J, estava gostando dele. 
      - Est bem, est bem...
      Nancy falou relutantemente, mas havia um indcio de riso em sua voz.
      - Isso  uma promessa? Vamos, quero que diga uma coisa: eu prometo.
           - Eu prometo.
      - O que est prometendo?
      Ambos estavam agora rindo.
      - Prometo no ser uma freira.
      - Assim est melhor.
      Ele fez sinal para que as duas enfermeiras embarcassem na ambulncia. 
Os atendentes seguiram para a frente do veculo. Nancy estava agora pronta 
para ir e ele no queria cans-la com conversa demasiada. 
      - Porque no me apresenta a suas amigas, Nancy? 
      - Deixe-me ver... as mos frias so de Lily e as quentes de Gretchen. Os 
quatro riram.
      - Muito obrigada, Nancy.
      Lily riu afavelmente, enquanto Nancy sorria para si mesma. Sentia-se 
segura com seus novos amigos  tudo o que podia pensar, naquele momento era 
como pareceria para Michael, depois que tudo estivesse terminado. J estava 
gostando de Peter Gregson e subitamente compreendeu que ele iria faz-la 
algum muito especial, porque se importava com a sorte dela.
      - Seja bem-vinda a So Francisco, mocinha.
      As mos frias de Lily foram substitudas pelas mos fortes e gentis de 
Peter Gregson. Ele manteve a mo pousada de leve sobre o ombro de Nancy 
durante toda a viagem at a cidade. Estranhamente, ele fazia com que Nancy 
sentisse que havia chegado em casa.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 7
      
      As portas da ambulncia abriram-se e levaram a maca para o hotel. O 
gerente estava esperando para receb-los, tendo reservado uma sute de 
cobertura para atend-los. Estavam planejando ficar apenas um ou dois dias, 
mas o hotel proporcionaria, um intervalo necessrio entre o hospital e a casa. 
Marion tinha algumas reunies de negcios em Boston e, alm disso, por alguma 
razo inexplicvel, Michael insistira em passar alguns dias num hotel, antes de 
voltar para casa. E a me estava disposta a atender a todos os caprichos dele.
      Os atendentes da ambulncia puseram-no cuidadosamente na cama. 
Michael fez uma careta.
      - Pelo amor de Deus, mame, no h nada de errado comigo! Disseram 
que j estou bem!
      - Mas no h necessidade de exagerar.
      - Exagerar?
      Michael correu os olhos pela sute e resmungou, enquanto Marion dava 
uma gorjeta aos atendentes da ambulncia, que prontamente desapareceram. O 
quarto estava repleto de flores e havia uma imensa cesta de frutas numa 
mesinha perto da cama. A me era a proprietria do hotel. Comparara-o anos 
antes, como um investimento.
      - Procure relaxar agora, querido. No fique excitado demais. Vai querer 
alguma coisa para comer? 
      Marion quisera manter a enfermeira, mas at mesmo o mdico dissera 
que era desnecessrio e que s serviria para agravar ainda mais o estado 
nervoso de Michael. Tudo o que ele precisava agora era descansar por outras 
duas semanas e depois podia comear a trabalhar. Mas ele tinha de fazer uma 
coisa antes.
      - No gostaria de almoar agora, querido? - indagou Marion.
      - Quero, sim. Escargots. Ostras Rockefeller. Champanha. Ovos de 
tartaruga e caviar.
      Michael sentou-se na cama, como uma criana travessa.
      - Mas que combinao horrvel, meu amor! - Mas Marion no estava 
realmente escutando. Deu uma olhada no relgio, antes de acrescentar 
      - Mas pode pedir o que quiser. George deve estar chegando. Nosso 
encontro no centro   uma hora.
      Ela saiu do quarto, meio distrada, a fim de procurar sua mala. Michael 
ouviu a campainha tocar na porta da frente da sute. Um momento depois, 
George Calloway entrou no quarto dele.
      - E ento, Michael, como est-se sentindo?
      - Depois de duas semanas no hospital sem fazer absolutamente nada, 
estou-me sentindo principalmente constrangido.
      Ele tentava no dar muita importncia  situao, mas ainda havia uma 
expresso desolada em seus olhos. Marion havia percebido tal expresso, mas 
atribura  fadiga. Afastara dos pensamentos a possibilidade de qualquer 
explicao alternativa. E ela e Michael jamais discutiam o assunto. Conversavam 
sobre os negcios, sobre o projeto para o centro mdico em So Francisco.
      Jamais sobre o acidente.
      - Estive em sua sala esta manh, Michael. Ficou realmente muito boa.
      George sorriu, sentando-se ao p da cama.
      - No tenho a menor dvida quanto a isso.
      Michael observou a me entrar no quarto. Ela usava um costume Chanel 
cinza-claro, com blusa de seda azul, brincos de prolas e trs fieiras de 
prolas no pescoo.
      - Mame tem muito bom gosto.
      - Tambm acho.        
      George sorriu afetuosamente para Marion, mas ela acenou nervosamente 
a indicar que estava na hora de irem embora.
      - Pare de jogar confete. J estamos atrasados. Trouxe os documentos 
de que precisamos, George?        
      - Claro.
      - Ento vamos embora.  Ela se aproximou rapidamente da cama de 
Michael e inclinou-se para beijar-lhe o alto da cabea. - Descanse, querido. E 
no se esquea de pedir o almoo.
      - Sim,madame. E boa sorte na reunio.
       Marion levantou a cabea e sorriu de pura expectativa.
      - A sorte nada tem a ver com os resultados.
      Os dois homens riram e Michael ficou observando-os se retirarem.
      Depois, sentou-se na cama.
      Ficou sentado em silncio, pacientemente esperando e pensando. Sabia 
exatamente o que ia fazer. H duas semanas que vinha planejando. Vivera para 
aquele momento. Era a nica coisa em que podia pensar. Fora por isso que 
sugerira ficarem um pouco no hotel, chegara mesmo a insistir, recomendara  
me que comparecesse pessoalmente s reunies para tratar do projeto da 
nova biblioteca pblica de Boston. Michael precisava daquela tarde s para si. 
No queria estragar coisa alguma com a possibilidade de irem atrs dele. 
Queria ter certeza de que ningum iria impedi-lo. Por isso, ficou sentado 
exatamente onde estava por meia hora. E depois teve certeza de que eles 
tinham ido mesmo. Ensaiara tudo mentalmente uma centena de vezes. Foi 
rapidamente  sua mala no estrado ao p da cama e tirou o que precisava. Cala 
cinza, camisa azul, sapatos de lona, meias, cueca. Parecia que se haviam passado 
mil nos desde que se vestira assim pela ltima vez. Ficou surpreso ao constatar 
como estava trmulo ao vestir-se. Teve de sentar-se trs ou quatro vezes, a 
fim de recuperar o flego. Era ridculo sentir-se to fraco assim e ele no 
estava disposto a se entregar. No iria esperar mais um dia. Ia at l agora, de 
qualquer maneira. Levou quase. meia hora para  vestir-se e pentear os cabelos. 
Depois, telefonou para a portaria e pediu um txi. Estava extremamente plido 
ao descer do elevador, mas o excitamento pelo plano que estava executando 
fazia com que sentisse melhor. A simples perspectiva proporcionava-lhe nimo 
novamente, como nenhuma outra coisa o fizera em duas semanas. O txi estava 
a sua espera, encostado no meio-fio.
      Michael deu o endereo ao motorista e recostou-se, com um sentimento 
de imensa exultao. Era como se tivessem marcado um encontro, como se ela 
estivesse a sua espera, como se ela soubesse. Michael foi sorrindo para si 
mesmo durante toda a viagem e deu ao motorista uma gorjeta generosa. No 
lhe pediu que esperasse. No queria que ningum ficasse esperando por ele. Fi-
caria ali sozinho, por tanto tempo quanto quisesse. Chegara mesmo a pensar na 
possibilidade de continuar a pagar o aluguel do apartamento, a fim de que 
pudesse ir para l sempre que desejasse. Era apenas uma hora de vo de Nova 
York e dessa maneira ficaria sempre com o apartamento deles. O apartamento 
deles... Ele contemplou o prdio com um calor familiar. Quase contra a vontade, 
ouviu-se a si mesmo pronunciar as palavras que estava pensando:
      -Oi, Nancy Calalinda, cheguei!
      Dissera aquelas palavras mil vezes antes, ao passar pela porta e 
encontra-la sentada diante do cavalete, mos e braos borrados de tinta, 
ocasionalmente o rosto tambm. Se estava profundamente envolvida no 
trabalho, havia ocasies em que Nancy no o ouvia chegar.
      Ele subiu lentamente a escada, cansado, mas animado pela sensao de 
estar chegando em casa. Queria simplesmente subir e sentar-se no 
apartamento, perto dela, com ela... com as coisas dela... Todos os mesmos 
cheiros familiares impregnavam o prdio, havia o barulho de gua correndo, de 
uma criana, um gato miando no corredor l embaixo, uma buzina tocando 
insistentemente na rua. Michael podia ouvir uma cano italiana no rdio. Por 
um estranho momento, imaginou que o rdio estava no estdio dela. Tinha a 
chave na mo quando finalmente chegou ao patamar do andar em que ficava o 
apartamento. Parou ali, por um longo tempo. Pela primeira vez, em todo aquele 
dia, sentiu lgrimas a lhe arderem nos olhos. Ainda no sabia a verdade. Ela no 
estaria l dentro. Fora-se para sempre. Estava morta.
      Michael ainda tentava pronunciar a palavra em voz alta de tempos a 
tempos, apenas para se obrigar a dize-la, para se forar a saber. No queria 
ser uma dessas pessoas doidas que se recusam a enfrentar a verdade, que se 
entregavam a jogos de fingimento.
      Ela teria desdenhado tal atitude. Mas de vez em quando ele deixava que 
o conhecimento se dissipasse, s para t-la de volta como um golpe forte, um 
impacto violento. Como acontecia naquele momento. Ele girou a chave na 
fechadura e esperou, como se algum, no final das contas, pudesse vir abrir a 
porta. Mas no havia ningum ali. Michael abriu a porta lentamente e deixou 
escapar uma exclamao de espanto.
      - Oh, Deus! Onde est... onde...
      Tudo desaparecera. Cada mesa, cadeira, as plantas, os quadros, o 
cavalete, as tintas. As roupas dela, as...
      - Nancy!
      Michael ouviu-se chorando furiosamente, as lgrimas lhe queimando o 
rosto, enquanto abria as portas. Nada. At mesmo a geladeira sumira. Ele 
continuou parado ali por um momento completamente atordoado, depois desceu 
correndo a escada, de dois em dois degraus, at chegar ao apartamento do 
zelador, no poro.
      Bateu insistentemente na porta, at que o homenzinho abriu-a, apenas 
pela largura da corrente de segurana, olhando com expresso de medo nos 
olhos. Reconheceu Michael imediatamente, abriu toda a porta e comeou a 
sorrir, at que Michael agarrou-o pela gola e ps-se a sacudi-lo.
      - Onde esto as coisas dela, Kowalski? Onde est tudo? O que fez com 
elas? Foi voc quem as tirou? Quem foi ento? Onde esto as coisas dela?
      - Que coisas? Quem.. oh, Deus... no, no, eu no peguei coisa alguma! 
Eles apareceram h duas semanas. E me disseram...
      Ele estava tremendo de terror. Michael tambm tremia, s que de raiva.
      - Quem eram eles?
      - No sei. Algum telefonou e disse que a apartamento, seria 
desocupado. Que Miss McAllister estava... tinha... - Ele percebeu as lgrimas 
ainda brilhando no rosto de Michael e ficou com medo de continuar. - J sabe o 
que aconteceu. Eles me informaram e acrescentaram que o apartamento seria, 
desocupado at o final da semana. Duas enfermeiras apareceram aqui e 
pegaram algumas coisas e o caminho da Goodwill chegou na manh seguinte.
      - Enfermeiras? Que enfermeiras?
      Michael no estava entendendo nada. E a Goodwill? Quem a chamara?
      - No sei quem elas eram. Mas pareciam enfermeiras... estavam todas de 
branco. No levaram muita coisa. Apenas aquela sacola pequena e os quadros. A 
Goodwill levou o resto. No peguei nada. Juro que no peguei. Jamais faria uma 
coisa dessas. No para uma moa to simptica como...
      Mas Michael no estava escutando. J estava subindo a escada para a 
rua, completamente atordoado, enquanto a velho zelador observava-o, 
sacudindo a cabea. Pobre coitado. Provavelmente acabara de receber a 
notcia.
      - Ei... ei! - Michael virou-se e o velho baixou a voz para acrescentar: - 
Sinto muita.
      Michael limitou-se a assentir e saiu para a rua. Como as enfermeiras 
sabiam? Como podiam ter feita tal coisa? Provavelmente haviam levado as 
poucas jias que Nancy possua, quase tudo fantasia, e os quadros. Talvez 
algum lhes tivesse contado alguma coisa no hospital. Eram como abutres, 
recolhendo o que ficara.
      Oh, Deus, Se ele as tivesse visto, iria... Michael cerrou as mos nos 
lados do corpa, depois levantou bruscamente o brao a fim de fazer sinal para 
um txi. Pelo menos... talvez... valia a pena tentar. Ele entrou na txi, ignorando 
a dor intensa que comeava a sentir, a nuca latejando terrivelmente.
      - Onde fica a Goadwill mais prxima?
      - Goadwiil o qu?
      O motorista tinha na boca um charuto todo babado e no estava 
particularmente interessado em qualquer espcie de Goadwill
      - As lojas Goodwill. A que compra roupas usadas, mveis velhos, coisas 
assim.
      - Ah, sim... Est certo.
      O garoto no parecia um fregus habitual da Goadwill, mas uma corrida 
era uma corrida. Era uma viagem de cinco minutos do apartamento de Nancy  
loja. O vento batendo no rosto de Michael ajudou-o a se recuperar do choque 
que experimentara ao encontrar o apartamento totalmente vazio. Havia sido 
como verificar o pulso e descobrir de repente que o corao tinha parado de 
bater.
      -  aqui.
      - Michael agradeceu, distraidamente, pagou o dobra do preo da corrida 
e saltou. Nem mesma tinha certeza se queria entrar na loja. Queria ver as 
coisas no apartamento de Nancy, que era o lugar a que pertenciam. No em 
alguma loja velha, cheia de mofo, malcheirosa, com etiquetas de preo.. E o que 
iria fazer? Comprar tudo? E depois o qu? Ele entrou na loja sentindo-se 
solitrio, cansado e confuso. Ningum se ofereceu para ajuda-lo. Michael ps-
se a vaguear pela loja, sem encontrar nada que conhecia, sem ver nada familiar, 
sentindo-se subitamente angustiado, no pelas coisas que lhe haviam parecido 
to importantes naquela manh, mas pela jovem que as possura. Ela se fora e 
nada do que encontrasse ou deixasse de encontrar jamais faria qualquer 
diferena. As lgrimas comearam a escorrer por suas faces, enquanto voltava 
lentamente para a rua.        
      Desta vez ele no fez sinal para um txi. Simplesmente saiu andando.. 
s cegas, sozinho, numa direo que as ps pareciam conhecer, mas a cabea 
desconhecia. A cabea j no conhecia mais nada. Dava a impresso de haver se 
transformado numa massa informe. Todo o corpo parecia uma papa, mas a 
corao era como pedra. Subitamente, naquela loja velha e ftida, sua vida 
chegara ao fim. Compreendia agora o que tudo, aquilo significava. E enquanto 
estava parado num sinal vermelho, esperando que mudasse, sem dar qualquer 
importncia a que isso acontecesse ou no, acabou desmaiando.
      Acordou um momento depois, com uma multido ao seu redor, deitado 
num pequeno gramado, para onde algum o levara. Um guarda estava parado por 
cima dele, fitando-o nos olhos. - Est bem, filho?
      O guarda tinha certeza de que o rapaz no estava bbado nem sob a 
ao de txicos, mas estava terrivelmente plido. Era mais provvel que 
estivesse doente. Ou talvez apenas com fome. Ou qualquer coisa no gnero. 
Mas o rapaz dava a impresso de que tinha dinheiro. Portanto, no podia ser um 
simples caso de inanio.
      - Estou, sim. Sa do hospital esta manh e acho que exagerei querendo 
andar demais.
      Michael sorriu tristemente. Os rostos ao seu redor comearam a girar 
quando tentou se levantar. O guarda percebeu o que estava acontecendo e 
insistiu para que a multido se dispersasse. Depois, virou-se novamente para 
Michael e disse:
      - Vou chamar um carro para lev-lo em casa.
      - No precisa. Estou bem agora.
       - No h nenhum problema. Mas diga uma coisa: no prefere voltar para 
o hospital?
      - No!
      - Est certo. Neste caso, vamos lev-Lo para casa. - O guarda falou por 
um pequeno ualkie-talkie e depois agachou-se ao lado de Michael. - O carro j 
vai chegar. Est doente h muito tempo?
      Michael sacudiu a cabea, depois olhou para as mos e murmurou:
      - H duas semanas.
      Ainda havia uma pequena cicatriz perto de sua tmpora, to pequena que 
no dava para o guarda perceber 
      -  melhor se cuidar, rapaz.
      O carro da polcia encostou no meio-fio e o guarda ajudou Michael a 
levantar-se. Ele j estava melhor agora. Ainda bastante plido, mas bem mais 
firme que a princpio. Michael virou a cabea para olhar o guarda e tentou 
sorrir,balbuciando:
      - Obrigado.
      Mas a tentativa De sorriso s serviu para deixar o guarda Imaginando o 
que estaria errado. Havia um desespero visvel nos olhos do rapaz.        
      Michael deu aos homens do carro da polcia um endereo a um 
quarteiro do hotel e agradeceu-lhes quando saltou. Percorreu a p o 
quarteiro final. A sute ainda estava vazia quando ele l chegou. Por um 
momento, Michael pensou em tirar as roupas e voltar para a cama. Mas de nada 
serviria continuar empenhado naquele jogo. J fizera o que tinha querido fazer. 
No o levara a parte alguma, mas pelo menos realizara o que havia imaginado. O 
que fora procurar havia sido Nancy. J devia saber que no a encontraria no 
apartamento. Nem em qualquer outro lugar. S poderia encontr-la no nico 
lugar em que ela ainda vivia: no seu corao.
      A porta da sute abriu-se enquanto ele estava olhando pela janela. Por 
um momento, ele no se virou. No queria realmente v-los nem ouvir notcias 
sobre a reunio ou ter de fingir que estava se sentindo bem. No estava bem. E 
talvez nunca mais voltasse a ficar.
      - O que est fazendo de p, Michael?
      A me falava como se ele fosse fazer sete anos dentro de mais alguns 
dias, ao invs de 25 anos. Michael virou-se lentamente e no disse nada a 
princpio. Depois, com um ar de exausto completa, sorriu para George.        
      - J est na hora de eu comear a me levantar, mame. No posso 
passar o resto da vida na cama. Na verdade, vou partir para Nova York esta 
noite.
      - Vai o qu?
      - Vou para Nova York.
      - Mas por qu? No queria ficar aqui?
      Marion estava totalmente confusa.
      - J teve a sua opinio, mame. - E eu tive a minha. No temos motivo 
para continuarmos por aqui. E eu quero estar no escritrio amanh. Certo, 
George?
      George fitou-o nervosamente, assustado pela angstia e desespero que 
via nos olhos do rapaz. Talvez lhe fizesse bem ter alguma coisa com que se 
ocupar.  verdade que Michael ainda, no parecia bastante forte, mas fora-lhe 
muito difcil passar todo aquele tempo deitado. Tinha assim muito tempo para 
pensar.
      -  bem possvel que seja melhor assim, Michael. E sempre pode 
trabalhar apenas meio expediente, no incio.
      - Acho que os dois esto doidos - interveio Marion - Afinal ele saiu do 
hospital esta manh.
       - E voc, evidentemente,  famosa por sempre tomar cuidado consigo 
mesma. Certo, mame?
      Michael inclinou a cabea na direo dela. Marion afundou lentamente no 
sof.
      - Est bem, est bem... - murmurou ela, com um sorriso hesitante.
       - Como foi a reunio?
      Michael sentou-se ao lado dela e procurou dar a impresso de que o 
assunto o interessava. Teria de comportar-se assim muitas vezes, porque 
naquela tarde tomara uma deciso. Dali por diante ia viver para uma coisa e 
somente por uma coisa. Seu trabalho. Nada mais lhe restava na vida.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 8
    
      - Est pronta? 
      - Creio que sim.
      Ela no podia sentir coisa, alguma acima dos ombros. Era como se a 
cabea. Tivesse sido cortada. As luzes intensas da sala de operaes 
despertaram em Nancy a vontade de cerrar os olhos, mas nem isso ela podia 
fazer. Tudo o que podia ver era o rosto de Peter, enquanto se inclinava sobre 
ela, a barba impecavelmente aparada coberta por uma mscara cirrgica azul, 
os olhos deslocando-se rapidamente de um lado para outro. Ele passara quase 
trs semanas estudando as radiografias, medindo, avaliando, projetando, 
planejando, preparando tudo e conversando com Nancy.
      A nica fotografia de Nancy de que ele dispunha era a que fora tirada 
na feira, no dia do acidente. Mas o rosto estava parcialmente obscurecido pelo 
tapume de madeira, com os trajes tolos pintados, no qual ficavam os buracos 
pelos quais, ela e Michael haviam metido a cabea, a fim de tirarem a foto. Pelo 
menos proporcionava uma idia geral a Peter, um ponto de partida. Mas ele 
teria de ir muito alm. Nancy seria uma moa diferente quando tudo 
terminasse, uma pessoa que qualquer mulher sonharia ser. Peter sorriu 
novamente para ela, observando que as plpebras comeavam abaixar.
      - Vai ter de permanecer acordada agora e ficar falando comigo. Pode 
ficar sonolenta, mas no pode dormir.
      Afora isso, Nancy podia sufocar em seu prprio sangue. Mas ela no 
precisava saber disso. Peter tratou de mant-la distrada, contando histrias e 
anedotas, fazendo perguntas, obrigando-a a pensar em coisas, a vasculhar a 
mente em busca de respostas, a recordar os nomes de todas as freiras que 
conhecera quando era, menina.
      - E tem certeza de que continua no querendo ser a irm Agnes Marie?
      - Claro que tenho. No prometi?
      Os dois ficaram gracejando um com o outro durante as trs horas em 
que durou o trabalho, as mos de Peter no parando por um momento sequer. 
Para Nancy, era como assistir a um bal.
      - Pense s que mais duas semanas e j leremos providenciado um 
apartamento s para voc, talvez um apartamento com uma linda vista... Ei, 
sonolenta, o que acha da vista? No gostaria de contemplar a baa do quarto?
      - Claro que gostaria. Por que no?
      - Apenas "claro"? Quer saber de uma coisa, Nancy? Acho que est 
ficando estragada pela vista que tem do seu quarto aqui no hospital.
      - Isso no  verdade. Estou adorando tudo.
      - Neste caso, vamos sair juntos e descobrir algo ainda melhor. 
Combinado?
      - Combinado. - Mesmo com a voz sonolenta, Nancy parecia satisfeita - 
Ainda no posso dormir?
      - S mais um pouco, Princesa. Mais alguns minutos e a levaremos de volta 
para seu quarto. Poder ento dormir tanto quanto quiser.
      - timo.
      - J est cansada de me ouvir?
      Nancy soltou uma risada, pelo tom zombeteiro de quem estava magoado 
usado por Peter.
      - Pronto, amor, j est tudo terminado.
      Ele olhou para seu assistente e acenou com a cabea, recuando em 
seguida por um momento, enquanto uma enfermeira se adiantava e aplicava uma 
injeo na coxa de Nancy. Peter voltou a postar-se ao lado dela e sorriu para os 
olhos que j conhecia to bem. Nem mesmo via o resto. Ainda no. Mas via os 
olhos. E os conhecia intimamente. To bem quanto conhecia os seus prprios 
olhos.
      - Sabia que hoje  um dia especial?
      - Sabia.
      - Sabia mesmo? E como sabia?
      Porque era aniversrio de Michael, mas Nancy no queria dizer-lhe isso. 
Michael estava completando 25 anos naquele dia. Nancy perguntou-se o que ele 
estaria fazendo.
      - Simplesmente sabia
      - Pois  um dia muito especial para mim porque assinala o princpio. 
Nossa primeira cirurgia juntos, nosso primeiro passo por uma estrada 
maravilhosa que levar a uma nova voc. O que acha disso?
      Peter sorriu para ela. Nancy fechou os olhos e adormeceu. A injeo 
tinha um efeito rpido.
      - Feliz aniversrio, chefe.
      - No me chame de chefe, seu palhao, Puxa, voc est parecendo 
nojento, Ben.
      - Muito obrigado.
      Ben ficou olhando para o amigo enquanto avanava pela sala de muletas e 
com a ajuda de uma secretria. Ela o sentou numa cadeira e depois retirou-se 
da sala luxuosa e revestida de lambris de Michael.
      - Ento  este o lugar que ajeitaram para voc, hein? O meu vai ser 
igual?
      - Se no for, pode ficar com este. Eu o detesto.
      - Isso  timo. Quais so as novidades?
      A conversa entre os dois ainda era tensa. Haviam-se encontrado duas 
vezes desde que Ben chegara de Boston, mas o esforo de evitar qualquer 
referncia a Nancy era quase demasiado para ambos. Era tudo em que 
pensavam.
      - O mdico disse que posso comear a trabalhar na prxima semana.
      Michael riu e sacudiu a cabea.
      - Est parecendo completamente doido, Ben
      - E voc no est?
      Uma nuvem toldou os olhos de Michael por um momento.
      - No quebrei nada. - Ou pelo menos nada que se pudesse ver. - J lhe 
disse que pode esperar mais um ms. Ou dois, se for necessrio. Por que no vai 
para a Europa com sua irm?         
      - Para fazer o qu? Ficar sentado numa cadeira de rodas sonhando com 
biqunis? Quero comear a trabalhar logo. Posso comear daqui a duas 
semanas?
       - Vamos ver.
      Houve um silncio prolongado e depois, abruptamente, Michael fitou o 
amigo com uma expresso de amargura que Bem nunca vira antes.
      - E depois o qu?
      - O que est querendo dizer com esse depois o qu? Michael?
      - Exatamente isso. Trabalhamos at no poder mais pelos prximos 50 
anos, trepamos com quantas mulheres pudermos, ganhamos tanto dinheiro 
quanto conseguirmos... e depois o qu? O que fazemos com tudo isso?
      - Est com um nimo maravilhoso. O que aconteceu? Prendeu o dedo na 
gaveta esta manh?
      - Pelo amor de Deus, Ben, por que no pode ser srio uma vez, para 
variar? Estou falando srio. J pensou nisso alguma vez? Que diabo significa 
tudo isso?
      Ben estava entendendo perfeitamente e no havia agora como evitar as 
perguntas.
      No sei, Michael. O acidente tambm fez-me pensar nisso. Levou-me a 
perguntar a mim mesmo o que  importante em minha vida, em que acredito.
      - E qual foi a resposta que encontrou? .
      - No tenho certeza. Acho que me sinto simplesmente grato por estar 
aqui. Talvez tenha-me ensinado como a vida  importante, como  bom viv-la, 
enquanto podemos. - Havia lgrimas nos olhos de Ben enquanto ele falava. _ 
Ainda no entendo por que aconteceu daquela maneira. Eu gostaria... gostaria...
      - E foi com um fio de voz, quase inaudvel, que ele arrematou: - Gostaria 
que tivesse sido eu.: .
      Michael fechou os olhos para conter suas prprias lgrimas e depois 
contornou lentamente a mesa, aproximando-se do amigo.
      Ficaram.-se olhando em silncio por um momento, as lgrimas 
escorrendo pelos rostos de ambos, sentindo a amizade de dez anos reconfort-
los como nenhuma outra coisa conseguiria.
      - Obrigado, Ben.        
      - Ei, escute! - Ben enxugou as lgrimas do rosto com a manga do casaco. 
No quer sair e tomar um porre? Afinal,  o seu aniversrio. Por que no?        
      Michael riu por um minuto. Depois, como um garotinho chamado para 
uma conspirao, assentiu. 
      - J so quase cinco horas d tarde. No tenho mais reunies a que 
deveria comparecer. Vamos para o Oak Room e tomaremos um porre 
memorvel.
      Ele ajudou Ben a levantar-se e sair da sala. Pegaram um txi e meia hora 
depois estavam a caminho de um porre inesquecvel. Michael s chegou de volta 
ao apartamento da me depois de meia-noite. Precisou da ajuda do porteiro 
para conseguir subir. Na manh seguinte, ao entrar em seu quarto, a empregada 
encontrou-o adormecido no cho. Mas pelo menos ele conseguira sobreviver ao 
aniversrio. .
      Michael mal conseguia ver alguma coisa quando se sentou  mesa para o 
caf da manh. A me j estava ali, de vestido preto, lendo The New 
YorkTimes. Michael teve vontade de vomitar ao sentir o cheiro do caf.
      - Deve ter-se divertido muito ontem  noite. O tom de Marion era 
glacial.
      - Sa com Ben
      - Foi o que sua secretria me disse. Espero que no transforme isso num 
hbito.
      -Oh. Deus! Por que no?
      - O qu? Tomar um porre?
      - No. Deixar o escritrio mais cedo. E, para ser franca, a outra coisa 
tambm. Devia estar com uma aparncia encantadora quando chegou em casa.
      - No consigo lembrar.
      Michael estava tentando desesperadamente no engasgar com o caf.
      - H mais uma coisa de que no se lembra. - Marion largou o jornal em 
cima da mesa e fitou-o com expresso furiosa. - Tnhamos um compromisso 
para jantar ontem  noite, no Vinte-e-Um. Fiquei a esper-lo por duas horas. 
Com nove outras pessoas. Era o seu aniversrio... est lembrado?
      Oh, Deus! Isso teria sido tudo o que ele precisaria para explodir .
      - No me falou nada sobre as outras nove pessoas. Apenas convidou-me 
para jantar. Pensei que seramos apenas ns dois.  claro que se tratava de um 
argumento dos mais discutveis.
      - E sendo apenas eu, no haveria problema em me deixar esperando sem 
avisar nada? E isso o que est querendo dizer?
      - No, mame. Simplesmente esqueci-me por completo. No era 
exatamente o meu aniversrio predileto.
      - Sinto muito.
      Mas Marion no dava a impresso de se recordar por que aquele 
aniversrio era diferente. Ou pelo menos no se importava. E estava 
visivelmente irritada.
      - Isso nos leva a um outro problema, mame.
      Vou sair daqui, passar a morar em meu prprio apartamento.
      Marion ficou aturdida.
      - Por qu?
      - Porque estou com 25 anos. Trabalho para voc, mame. Mas no sou 
obrigado a viver com voc.
      - No  obrigado a fazer coisa alguma. Marion estava comeando a ter 
dvidas quanto ao rapaz Avery e tipo de influncia que exercia sobre Michael. 
Aquilo parecia ser idia dele.
      - No vamos discutir isso agora, mame. Estou com uma dor de cabea 
monumental
      - Ressaca. - Marion olhou para o relgio e levantou-se. - Eu o verei no 
escritrio, dentro de meia hora. No se esquea da reunio com o pessoal de 
Houston. Estar em condies de comparecer?
      - Estarei, mame. E mais uma coisa, lamento muito sobre o apartamento, 
mas acho que j  tempo.
      Ela o fitou firmemente por um momento e depois deixou escapar um 
pequeno suspiro.
      - Talvez seja, Michael, talvez seja... Feliz aniversrio, por falar nisso.
      Ela se abaixou para beij-lo. Michael chegou a sorrir, apesar da dor 
terrvel em sua cabea.
      - Deixei um pequeno presente em sua mesa.
      - No deveria.
      Nenhum presente tinha mais qualquer importncia. Bem compreendera 
isso e nada lhe dera.
      - Aniversrios so aniversrios no final das contas, Michael. Vejo-o mais 
tarde no escrit6rio.
       Depois que a me se retirou, Michael continuou sentado na sala de 
jantar por longo tempo, contemplando a vista. Sabia exatamente como era o 
apartamento que desejava. S que ficava em Boston. Mas faria tudo o que 
fosse humanamente possvel para encontrar um apartamento igual em Nova 
York. Em algumas coisas, ainda no renunciara totalmente ao sonho. Embora 
soubesse que era uma loucura apegar-se a ele.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 9
      
      - Oi, Sue. Mr. Hillyard est?
      Ben tinha a expresso das cinco horas da tarde ao chegar  porta da 
sala de Michael: no estava inteiramente desgrenhado, mas bastante aliviado 
pelo fato de estar quase terminando o dia. Mal tivera tempo de sentar-se 
durante o dia inteiro, muito menos de relaxar.
      - Est, sim. Devo avis-lo de que est aqui?
      Ela lhe sorriu. Ben contemplou o corpo cuidadosamente oculto da jovem. 
Marion Hillyard no aprovava secretrias sensuais, nem mesmo para o prprio 
filho... ou seria especialmente para o filho? perguntou-se Ben, enquanto sacudia 
a cabea.
      - No, obrigado. Eu mesmo me anunciarei.
      Ben passou pela secretria, carregando as pastas que eram seu 
pretexto. Bateu na porta de carvalho.
      - Algum em casa?
      No houve resposta e por isso ele bateu novamente. Continuou a no 
haver resposta. Ele se virou para a secretria, com um olhar inquisitivo.
      - Tem certeza de que ele est?
      - Absoluta.
      - Est certo.
      Ben tentou novamente e desta vez um resmungo rouco mandou-o entrar. 
Ele abriu a porta cautelosamente e olhou ao redor.
      - Estava dormindo ou algo assim?
      Michael levantou os olhos e sorriu para o amigo.
      - Bem que gostaria. Olhe s para essa mixrdia..
      Michael estava cercado por pastas, maquetes, plantas, relatrios. Era o 
suficiente para manter dez homens ocupados durante um ano inteiro.
      - Sente-se, Ben.
      - Obrigado, chefe.
      Ben no podia resistir a zombar do amigo.
      - Ora, no enche! O que h nessas pastas que esto-me trazendo?
      Michael passou a mo pelos cabelos e recostou-se na cadeira forrada de 
couro a que j se acostumara. Acostumara-se at mesmo s gravuras 
impessoais nas paredes. No tinha mais nenhuma importncia. Ele no ligava 
absolutamente. Nunca olhava para as paredes, para a sala, para a secretria... 
ou para a prpria vida. Olhava para o trabalho em sua mesa e bem pouco mais 
alm disso. J se haviam passado quatro meses.
      - Por favor, no me diga que est trazendo mais problemas com aquele 
maldito centro comercial em Kansas City. Isso est-me levando  loucura.
      - E voc est adorando. Diga-me uma coisa, foi o ltimo filme a que 
assistiu? A Ponte do Rio kwai ou fantasia? Ser que nunca sai daqui?
      - Quando eu tiver uma oportunidade - respondeu Michael, examinando 
alguns papis enquanto falava. - E ento, o que h nessas pastas?
      - So apenas um estratagema. Queria entrar aqui para conversar com 
voc.
      - E no pode fazer isso sem uma desculpa?
      Michael sorriu-lhe novamente. Era como se fossem garotos novamente, 
visitando um ao outro no estudo sob o pretexto de consultas sobre deveres de 
casa.
      - Estou sempre me esquecendo de que sua me no  como o velho 
Sanders l na escola.
      - Graas a Deus.
      Na verdade, ambos sabiam que Marion era pior, mas nenhum dos dois 
podia admitir tal coisa. Ela detestava ver pessoas "zanzando" pelos corredores, 
como dizia, apressando-se em verificar quais eram as pastas que estavam 
levando.
      - Quais so as novidades, Ben? Como vo os Hamptons este vero?
      Ben sentou-se, ficando imvel por um momento, observando-o, antes de 
responder:
      - Realmente se importa?
      - Com voc ou com os Hamptons?
      O sorriso de Michael era artificial e ele apresentava a palidez lgubre 
de dezembro, no de setembro. Era evidente que ele no tinha ido a lugar 
nenhum naquele vero.
      - Eu me importo muito com voc, Ben.
      - Mas no com voc mesmo. Tem-se olhado no espelho ultimamente? 
Est com uma cara que assustaria a me de Frankenstein.
      - Obrigado.
      - No precisa agradecer. De qualquer forma,  justamente por isso que 
estou aqui.
      - Por conta da me de Frankenstein?
      - Por minha prpria conta. Queremos que voc passe este fim de semana 
no Cape. Eles querem, eu quero, todos ns queremos. E se disser no, vou pular 
por cima dessa mesa e arrasta-lo  fora. Precisa sair daqui de vez em quando.
      Ben no estava mais sorrindo. Estava bastante srio e Michael sabia 
disso. Mesmo assim, sacudiu a cabea.
      - Eu adoraria, Ben, mas no posso. Tenho de cuidar de Kansas City. So 
47 mil problemas que ainda no conseguimos resolver. E voc sabe disso. Esteve 
na reunio ontem.
      - Assim como 23 outras pessoas. Deixe que elas cuidem dos problemas. 
Pelo menos por um fim de semana. Ou ser que seu ego  to grande que no 
pode permitir que ningum mais toque em seu trabalho?
      Mas ambos sabiam que no era esse o caso. O trabalho tornara-se o 
txico de Michael. Deixava-o atordoado para tudo o mais. E ele vinha abusando 
do trabalho desde o dia em que entrara naquela sala.
      - Vamos, Michael, seja indulgente consigo mesmo. Apenas esta vez.
      - No posso, Ben.
      - Mas que diabo, cara! O que preciso dizer-lhe? Olhe para si mesmo! 
Ser que no se importa? Est-se matando... e para qu?
      . A voz dele ressoou pela sala e atingiu Michael com um impacto quase 
fsico. Ben observou o rosto do amigo ficar convulsionado pela emoo.
      - De que vai adiantar tudo isso, Michael? Mesmo que se mate, isso no a 
trar de volta. E voc est vivo. Com 25 anos de idade e vivo... e desperdiando 
sua vida, matando-se de tanto trabalhar, como a sua me.  isso o que voc 
quer? Ser como ela? Viver, comer, dormir, beber e morrer por essa maldita 
firma?  isso o que lhe serve agora? Ficou assim? Pois no acredito. Sei que 
existe outra pessoa nessa sua pele... e adoro essa outra pessoa. Mas voc a 
est tratando como a um co, algo que no posso permitir. Sabe o que deveria 
estar fazendo? Deveria estar saindo, vivendo. Deveria estar saindo e 
divertindo-se com a sua secretria gostosa ou dez outras mulheres que 
encontra nas melhores festas da cidade. Levante o rabo dessa cadeira, 
Michael, saia de casa, antes.. .
      Mas Michael interrompeu-o antes que ele pudesse terminar. Estava meio 
debruado sobre a mesa, tremendo, ainda mais plido do que antes.
      - Saia da minha sala, Ben, antes que eu o mate! Saia!
      Era o rugido de um leo ferido. Por um momento, os dois homens ficaram 
a se olhar, abalados e assustados pelo que estavam sentindo e dizendo.
      - Desculpe. - Michael voltou a afundar na cadeira e baixou a cabea para 
as mos. - Por que no deixamos as coisas como esto por hoje?
      Ele no voltou a olhar para Bem, que atravessou lentamente a sala, 
apertou-lhe ombro e depois saiu fechando a porta. No restava mais nada a 
dizer.
      A secretria de Michael olhou par Ben inquisitivamente quando ele 
passou, mas no disse nada. Ela ouvira o rugido de Michael ao final. Todo o 
andar poderia ter ouvido, se as pessoas estivessem prestando ateno. Ben 
passou por Marion no corredor, ao voltar para sua sala. Mas ela estava ocupada 
com algo que Calloway lhe mostrava e Ben no estava com disposio para as 
amenidades habituais. No mais suportava Marion e o que ela estava deixando 
que Michael fizesse consigo mesmo. Podia servir aos objetivos dela fazer com 
que Michael trabalhasse daquele jeito; era bom para a firma, para o imprio, 
para a dinastia... e deixava Ben Avery enojado.
      Ele deixou o escritrio s seis e meia. Na rua, olhando para cima, 
verificou que as luzes na sala de Michael continuavam acesas. Sabia que ainda 
estariam acesas at 11 horas ou meia-noite. E por que no? Para que ele 
voltaria para casa? A fim de encontrar o apartamento vazio que alugara trs 
meses antes? Michael encontrara um apartamento pequeno e aconchegante em 
Central Park South. Ao visit-lo, Ben lembrara-se do apartamento de Nancy em 
Boston. Tinha certeza de que Michael tambm percebera a semelhana. Talvez 
tivesse sido por isso que ele ficara com o apartamento. Mas depois algo 
acontecera. A pouca vida que ainda restava em Michael se desvanecera. Ele 
comeara a trabalhar como um doido, uma verdadeira maratona de loucura. Por 
isso, jamais se dera ao trabalho de fazer qualquer coisa com o apartamento. 
Continuava do mesmo jeito, frio, vazio e solitrio.
      Os nicos mveis que Michael providenciara haviam sido duas cadeiras 
dobrveis, uma cama e um velho abajur horrendo, que ficava no cho. Todo o 
apartamento ressoava com os ecos do vazio. Parecia at que o inquilino fora 
despejado naquela manh.
      Ben ficava deprimido s de pensar em ir para uma casa assim e podia 
perfeitamente imaginar qual era o efeito em Michael...se  que ele ainda era 
capaz de notar o ambiente em que se encontrava, o que Ben estava comeando 
a duvidar. Dera trs plantas a Michael para o apartamento em princpio de 
julho e todas tinham morrido ao final do ms. Como o abajur horrvel, as 
plantas simplesmente tinham ficado no cho, desamadas e esquecidas.
      Ben no gostava do que estava acontecendo, mas no havia nada que 
alguma pessoa pudesse fazer. Ningum podia ajudar,  exceo de Nancy. E 
Nancy estava morta. Pensar nela ainda provocava em Ben uma dor quase fsica, 
como as pontadas que sentia no tornozelo e quadril quando ficava cansado. Mas 
as fraturas haviam-se reparado rapidamente com a ajuda da juventude. Ben 
ainda acalentava a esperana de que a mesma coisa pudesse acontecer com 
Michael. Mas o problema de Michael era diferente. As fraturas dele eram de 
partes que no se podia ver, no estavam  mostra. A no ser nos olhos. Ou no 
rosto ao final de um dia... ou na contrao da boca em um momento 
desprevenido, quando Michael estava sentado a sua mesa e ficava olhando para 
a distncia, para a extenso interminvel da vista.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 10
      
      - E ento, minha jovem? Acha que cumpri minha promessa? No tem a 
vista mais espetacular da cidade?
      Peter Gregson estava sentado no terrao junto com Nancy. Os dois 
trocaram um olhar afetuoso. O rosto dela ainda estava coberto por ataduras, 
mas os olhos estavam descobertos e brilhavam intensamente. E as mos, 
estavam livres. Pareciam diferentes, mas eram maravilhosas enquanto ela fazia 
um gesto para abranger tudo ao redor. Do lugar em que estavam sentados, po-
diam avistar toda a baa, com a Ponte Golden Gate  esquerda, Alcatraz  
direita, Marin County diretamente em frente no outro lado do terrao, havia 
tambm uma vista espetacular da cidade, para o sul e leste. O terrao 
proporcionava a Nancy a contemplao tanto do pr-do-sol como do nascer e 
um prazer ilimitado.
      Ela passava quase o dia inteiro sentada ali. O tempo estava glorioso 
desde que chegara ao apartamento. Peter  que o encontrara, exatamente 
como prometera.
      - Quer saber de uma coisa? Estou ficando terrivelmente mimada.
      - E merece. O que me fez lembrar que trouxe uma coisa para voc.        
      Nancy bateu palmas, como uma garotinha. Peter sempre lhe trazia 
alguma coisa. Era uma pilha de revistas, livros, um chapu engraado, uma 
charpe para usar sobre as ataduras, braceletes maravilhosamente ruidosos 
para comemorar as mos novas. O fluxo de presentes era constante, mas o 
daquele dia era o maior de todos. Com misteriosa expresso de prazer, Peter 
atravessou o terrao e entrou no apartamento. A caixa que trouxe de volta era 
bastante grande e dava a impresso de ser muito pesada. Quando ele a ps em 
seu colo, Nancy descobriu que adivinhara corretamente.
      - O que  isso, Peter? Parece uma pedra.
      Nancy sorriu atravs das ataduras e Peter soltou uma risada.
       - E  mesmo... a maior esmeralda que consegui encontrar na loja da 
esquina.
      - Maravilhoso!
              Mas o presente era ainda mais maravilhoso do que Nancy 
desconfiava. O contedo da misteriosa caixa era uma mquina fotogrfica 
extremamente cara e altamente sofisticada.
      - Mas que presente espetacular, Peter! No posso...
      - Claro que pode. E espero ver algum trabalho srio feito com essa 
mquina.
      Ambos sabiam como Nancy andava atormentada porque no tinha mais 
vontade de pintar. E agora ela nem tinha mais o pretexto das mos envoltas por 
ataduras. Mas no podia pintar. Havia algo nela que a fazia desistir cada vez 
que pensava em tentar. Os quadros que as enfermeiras haviam trazido de seu 
apartamento de Boston ainda estavam encerrados no grande portflio preto, no 
fundo de um armrio. Nancy no queria v-los, muito menos trabalhar neles. 
Mas uma cmara podia ser diferente. Peter percebeu o brilho nos olhos dela e 
rezou para que lhe tivesse aberto uma nova porta. Ela estava precisando de 
novas portas. Nenhuma das antigas iria revelar o que ela desejava encontrar do 
outro lado. Seria melhor, que ela comeasse tudo de novo.
      - H um folheto de instrues terrivelmente complicado, para o qual 10 
anos de faculdade de medicina no conseguiram me preparar. Talvez voc 
consiga entende-lo.
      - Claro que conseguirei!
      Nancy olhou para o folheto grosso e concentrou-se por algum tempo, 
segurando a mquina, o amigo inteiramente esquecido. Depois, sacudiu o folheto 
distraidamente e disse:
      -  fantstico, Peter! Olhe esta coisa aqui... se puxar isso, vai 
conseguir...
      Ela se fora, totalmente fascinada. Peter recostou-se, com um sorriso 
satisfeito. Passou-se meia hora antes que Nancy voltasse a not-lo. Ela 
levantou os olhos subitamente e Peter percebeu pela expresso como estava 
grata.
      -  o presente mais maravilhoso que j recebi.
      Exceto pelas contas azuis de Michael na feira... mas Nancy rapidamente 
afastou o pensamento da mente. Peter estava acostumado s nuvens repentinas 
que toldavam os olhos dela, quando pensamentos antigos retornavam para 
atorment-la. Ele sabia que, com o tempo, tais pensamentos acabariam por  
deixa-la.
      - Trouxe filme?
      - Claro. - Ele pegou uma caixa menor no meio do embrulho e largou-a no 
colo de Nancy. - Eu poderia esquecer do filme?
      - No. Nunca se esquece de coisa alguma.
      Nancy apressou-se em carregar a cmara e comeou a tirar fotografias 
dele, da vista e depois uma srie de um pssaro que passou voando pelo 
terrao.
      - Provavelmente vo sair horrveis, mas  um comeo.
      Peter ficou a observ-la por longo tempo. Depois, passou o brao pelos 
ombros dela e entraram no apartamento.
      - Tenho outro presente para voc hoje, Nancy.
              Um Mercedes. Est vendo? J comeo a adivinhar as coisas.
      No. Desta vez  srio. - Ele a fitou com um sorriso gentil e cauteloso. - 
Vou partilhar uma amiga com voc. Uma pessoa muito especial. 
      Por um momento insano, Nancy sentiu uma onda de cime correr por sua 
espinha. Mas algo no rosto de Peter disse-lhe que no precisava sentir-se 
assim.
       Ele percebeu que Nancy o observava atentamente, enquanto 
acrescentava:
      - O nome dela  Faye Allison e fomos colegas na faculdade de medicina. 
Ela  indubitavelmente uma das mais competentes psiquiatras da Califrnia, 
talvez do Pas.  grande amiga minha e uma pessoa muito especial. Tenho 
certeza de que vai gostar dela.
       -E...?
      Nancy ficou esperando, tensa mas curiosa.
      - E... acho que seria uma boa idia voc conversar com ela por algum 
tempo. Sabe disso - J conversamos a respeito antes.
      - No acha que estou-me ajustando bem? 
      Nancy parecia magoada e largou a mquina para fit-lo mais seriamente.
      - Acho que est-se saindo admiravelmente bem, Nancy. Mas mesmo que 
no houvesse qualquer outro motivo, precisa de uma pessoa para conversar. 
Tem Lily, Gretchen e a mim, mas isso  tudo. No gostaria de ter outra pessoa 
com quem conversar?
      Gostaria, sim. Michael. Ele tinha sido o melhor amigo dela         por muito 
tempo. Mas, no momento, Peter era suficiente.
      - No sei.
      - Acho que vai gostar, assim que conhecer Faye. Ela  incrivelmente 
simptica e gentil. E desde o incio que vem-se interessando pelo seu caso.
      - Ela sabe a meu respeito?
      - Desde o comeo.
        Ela estava em companhia de Peter na noite em que Marion         Hillyard e o 
Dr. Wickfield haviam telefonado, mas Nancy no precisava saber disso. Ele e 
Faye eram amantes, intermitentemente, h vrios anos, mais por uma questo 
de companheirismo e convenincia do que em decorrncia de uma grande 
paixo. Eram principalmente amigos.
      - Ela vir tomar caf conosco esta tarde. H algum problema para voc?
      Mas Nancy sabia que tinha pouca opo.
      - No.
      Ela ficou pensativa, enquanto se acomodava na sala de estar. No tinha 
certeza se lhe agradava aquele acrscimo ao cenrio, especialmente por se 
tratar de uma mulher. Experimentava um sentimento instantneo de 
competio e desconfiana.
      At que conheceu Faye Allison. Nada que Peter dissera a preparara para 
a simpatia que sentiu imediatamente pela outra mulher. Faye era alta, esguia, 
loura, angulosa, mas todas as linhas da rosto eram suaves. Os olhos eram 
afetuosos e alertas; naqueles olhos, havia sempre um graceja  espera, uma 
resposta imediata, uma risada pronta para se manifestar. Ao mesmo tempo, 
podia-se perceber que estavam tambm sempre prontos para se mostrarem 
srios e compassivos. Peter deixou as duas sozinhas depois da primeira hora e 
Nancy ficou at contente por isso.
      Conversaram sobre mil coisas, em nenhum momento a respeito do 
acidente. Boston, pintura, So Francisco, crianas, pessoas, faculdade de 
medicina. Faye partilhou coisas de sua vida e Nancy revelou coisas de sua vida 
que nunca contara a ningum por muito tempo, pela menos desde que conhecera 
Michael. Falou do orfanato, contando suas angstias, no as acontecimentos 
divertidos que contara para Peter. A solido, as indagaes sobre quem 
realmente era, por que fora deixada l, a que significava ser totalmente 
sozinha. E depois, sem qualquer motivo que pudesse compreender, contou a 
Faye sobre o acordo que fizera com Marion Hillyard. No houve choque, no 
houve censura, no houve outra coisa alm de simpatia e compreenso na 
maneira como Faye Allison escutou. Nancy descobriu-se a partilhar sen-
timentos que abrangiam anos, no apenas os ltimos quatro meses. Mas o alvio 
por contar sobre Marion Hillyard foi enorme.
      - No sei, parece estranho dizer isso, mas... - Ela hesitou, sentindo-se 
tola e parecendo infantil na maneira coma olhou para sua nova amiga. - Mas eu... 
eu nunca tive qualquer tipo de famlia, sendo criada no orfanato. A madre 
superiora foi a pessoa mais prxima de uma me que tive e era mais coma uma 
tia solteirona. Mas apesar do que eu sabia a respeito de Marion, pelas 
informaes de Michael, de seu amigo Ben, apesar do que eu podia pressentir... 
apesar de tudo, sempre tive sonhos loucos, fantasias absurdas, esperava que 
ela fosse gostar de mim, que seriamos amigas.
      Os olhos dela encheram-se de lgrimas inesperadas. Ela desviou o olhar.
      - Pensava que ela poderia tomar-se sua me?
      Nancy assentiu silenciosamente e depois afastou as lgrimas com uma 
risada tensa.
      - No  um absurda?
      - Absolutamente. Era uma suposio normal. Estava apaixonada por 
Michael. No tem famlia. Era normal que quisesse adotar a famlia dele.  por 
isso que o acordo com Marion a magoa tanto? Mas ela j sabia qual era a 
resposta, assim como Nancy.
      - Exatamente. Foi a prova do quanto ela me odiava.
      - Eu no chegaria to longe, Nancy. Levando-se tudo em considerao ela 
fez muito por voc. Afinal, mandou-a para c, a fim de que Peter lhe 
proporcionasse um novo rosto
      Para no falar da vida extremamente confortvel que Marion estava 
proporcionando a Nancy durante o processo.
      - Contanto que eu renunciasse a Michael. Ela estava me rejeitando para 
ele... e para si mesma. Compreendi ento que jamais tivera a menor 
possibilidade de conquistar Marion. Foi um momento horrvel. - Ela suspirou e a 
voz tornou-se mais suave. - Mas acho que j perdi antes e consegui sobreviver.
      - Lembra-se de ter perdido seus pais?
      - No de alguma forma concreta. Era muita pequena para me recordar 
de qualquer coisa quando meu pai morreu e no era muita mais velha quando 
minha me deixou-me no orfanato. Mas lembro-me do dia em que me contaram 
que ela havia morrido. Chorei muito, mas no tenho muita certeza por que 
chorei. No creia que me lembrasse dela. Talvez simplesmente me sentisse 
abandonada.
      - Coma se sente agora?
      Era apenas um palpite, mas dos bons.        
      - E possvel. Aquele sentimento insondvel do "mas quem vai tomar conta 
de mim agora?" Penso nisso de vez em quando. Naquela ocasio, eu sabia que o 
orfanato tomaria conta de mim at que crescesse. E agora sei que Peter o far, 
assim como o dinheiro de Marion, at que eu esteja inteiramente remendada. 
Mas o que acontecer depois?        .
      - E o que me diz de Michael? Acha que ele voltar para voc?
      s vezes penso que sim. Ou melhor, na maior parte do tempo penso que 
sim.
      Houve uma pausa prolongada.
      - E o resto do tempo?
      - Estou comeando a ter dvidas. A princpio, pensei que talvez ele 
estivesse com medo da maneira como eu parecia, da maneira como isso o faria 
sentir-se em relao a mim. Mas, agora ele j sabe sobre a cirurgia e deve 
calcular que houve alguma melhoria. Por que ento ainda no veio procurar-me? 
Ela se virou subitamente para fitar Faye nos olhos e acrescentou: -  nisso que 
estou pensando agora.
      - J encontrou alguma resposta para essa indagao?
      - As coisas que me ocorreram no foram das mais agradveis. s vezes 
penso que ela conseguiu convenc-lo de que uma moa com os meus 
"antecedentes condenveis" iria prejudic-lo profissionalmente. Marion 
Hillyard ajudou a construir um imprio e est contando com Michael para 
continuar a manter as melhores tradies da famlia. Isso no inclui casar-se 
com uma moa annima que saiu de um orfanato e pintora ainda por cima Ela 
quer que o filho se case com alguma herdeira debutante que possa ser-lhe til 
nos negcios.
      - Acha que isso tem alguma importncia para ele?
      - No tinha importncia antes, mas agora... no sei.
      - E se o perdesse?
      Nancy titubeou, mas no respondeu. Contudo, seus olhos diziam tudo.
      - E se ele no se sentisse capaz de enfrentar tudo por que voc est 
passando?  uma possibilidade, Nancy. Alguns homens no so to bravos como 
gostaramos de pensar que so.
      - No sei. Talvez ele esteja esperando at que tudo termine.
      - No ficaria ressentida nesse caso? Por no estar aqui quando voc 
precisava dele?
      Nancy deixou escapar um longo suspiro em resposta. 
      -Talvez. Mas no sei com certeza. Penso muito nisso tudo, mas no 
consigo tirar concluses absolutas.
       - Somente o tempo proporciona todas as respostas. Tudo o que voc 
precisa saber  como se sente. Isso  tudo. Como se sente em relao a voc? 
 nova voc? Est excitada? Assustada? Furiosa por saber que vai ficar 
diferente? Aliviada?
      - Todas as coisas que acabou de falar. - Ambas riram pela franqueza de 
Nancy. - Para dizer a verdade, estou aterrorizada. Pode imaginar olhar-se no 
espelho depois de 22 anos e deparar com uma pessoa diferente? Oh, cus,  
como uma aberrao!
      Ela riu novamente, mas havia um medo concreto por trs de sua reao.
      -  isso o que sente?
      - s vezes. Na maior parte do tempo, procuro no pensar a respeito.
      - E pensa em qu?
      - Sinceramente?
      - Claro.
      - Em Michael.. Algumas vezes em Peter. Mas principalmente em Michael.
      - Est-se apaixonando por Peter
      No houve hesitao na pergunta. Quem estava falando agora era a Dra. 
Allison e no Faye. Ela estava naquele momento pensando exclusivamente em 
Nancy
      - No. No posso apaixonar-me por Peter. Ele  um homem maravilhoso, 
um grande amigo. O tipo de pai que eu nunca tive. Est sempre me trazendo 
presentes. Mas... estou apaixonada por Michael.
       - Pois vamos ver o que acontece.
      Faye Allison olhou para o relgio e ficou espantada. As duas estavam 
conversando h quase trs horas. J passavam das sete horas da noite.
      - Deus do cu! Sabe que horas so?
      Nancy tambm consultou o relgio e seus olhos se arregalaram de 
surpresa.
      - Puxa! Como foi possvel? - E depois ela sorriu. 
      Vai voltar para conversar comigo, Faye? Peter estava certo. Voc  uma 
pessoa muito especial.
      - Obrigada. Eu adoraria voltar. Na verdade... Peter estava pensando que 
poderamos manter um contato numa base regular. O que acha da idia?
      - Acho que seria maravilhoso ter algum para conversar como fizemos 
hoje.
      - Nem sempre posso prometer-lhe que ficarei trs horas com voc.
      As duas riram e Nancy acompanhou-a at a porta.
      - O que me diz de trs vezes por semana, durante uma hora, 
profissionalmente? E podemos encontrar-nos tambm em outras ocasies, como 
amigas. Est bem assim?
      - Est maravilhoso!        .
      Apertaram-se as mos na porta e Nancy ficou surpresa ao descobrir que 
j estava impaciente pela prxima sesso, dentro de dois dias.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 11
      
      Nancy acomodou-se confortavelmente na poltrona perto do fogo e 
suspirou, enquanto recostava a cabea. Ela havia chegado cinco minutos mais 
cedo hoje estava ansiosa em conversar com Faye. Ouviu o barulho dos saltos 
altos de Faye atravessando o corredor a caminho do estdio que usava para 
receber os pacientes. Nancy sorriu e empertigou-se na cadeira. Queria que 
Faye visse tudo de sada.
      - Bom dia, pssaro madrugador. Est muito bem de vermelho hoje. - Ela 
parou abruptamente na porta e sorriu. - Esquea o vermelho. Deixe-me ver o 
novo queixo.
      Faye avanou lentamente, contemplando a parte inferior do rosto de 
Nancy. Depois, com um sorriso vitorioso, os olhos se encontraram com os de 
Nancy.
      - O que acha?
      Mas Nancy podia ver perfeitamente a resposta no rosto de Faye. 
Admirao pelo trabalho de Peter e prazer pela moa.
      - Nancy, voc est linda... maravilhosa!
      J podia ver agora o pescoo adorvel, subindo graciosamente dos 
ombros esguios, o queixo delicado e gentil, a boca sensual. E o que se podia ver 
era primoroso e perfeitamente apropriado  personalidade da moa. Os 
desenhos e esculturas interminveis de Peter no haviam sido em vo
      - Ei, tambm vou querer igual!
      Nancy riu de alegria e recostou-se de novo na cadeira, escondendo o 
resto do rosto, que ainda estava coberto por ataduras, por trs do chapu de 
feltro marrom-escuro que tinham comprado algumas semanas antes. Combinava 
com o novo casaco marrom de l e as botas marrons que estava usando com o 
vestido de tric vermelho. Estava at comeando a se sentir bonita, agora que 
podia ver algo do que estava para vir. Peter estava cumprindo sua promessa.
      - E muito embaraoso, Faye. Estou-me sentindo to bem que tenho at 
vontade de gritar. E o mais estranho de tudo  que no parece absolutamente 
comigo, mas estou adorando.
      - Fico contente por isso. Mas qual  o problema de no estar parecendo 
com voc? Isso por acaso a incomoda, Nancy?
      - No tanto quanto eu pensava que iria acontecer. Mas talvez eu ainda 
espere que o resto se parea comigo. Esta  apenas uma parte isolada e de 
qualquer forma jamais gostei mesmo de minha boca. Talvez parea mais 
estranho quando o resto tambm parecer com outra pessoa. No sei direito. 
      - Quer saber de uma coisa, Nancy? Talvez deva simplesmente recostar-
se e desfrutar. Talvez deva aprofundar-se mais um pouco. Seguir adiante.
      - Como assim?
      - Vou tentar explicar. Voc est-se empenhando em ser Nancy e 
procuramos um ajustamento abandonando algumas coisas dessa Nancy no 
processo. Talvez deva simplesmente recuar e contemplar o quadro inteiro. Por 
exemplo: voc gostava do seu jeito de andar antes?
      Nancy assumiu uma expresso de perplexidade enquanto pensava a 
respeito. Era uma idia inteiramente nova, algo que jamais haviam discutido nos 
quatro meses em que se encontravam.
      - No sei, Faye. Nunca pensei antes a respeito de minha maneira de 
andar.
      - Pois pense a respeito. E o que me diz da voz? J pensou alguma vez em 
apurar a voz? Possui uma voz maravilhosa, suave e melodiosa. Talvez possa, com 
um pouco de adestramento, apur-la ainda mais. Por que no exploramos o que 
voc possui para tentarmos tirar o mximo de proveito?  o que Peter est 
fazendo. Por que voc prpria no faz a mesma coisa?
      O rosto de Nancy iluminou-se com a idia e ela comeou a se deixar 
contagiar pelo entusiasmo de Faye.
      - Eu poderia desenvolver todas as espcies de novos aspectos de mim 
mesma, no ? Tocar piano... arrumar um novo jeito de andar. . - Podia at 
mudar o nome.
      - Mas no vamos nos precipitar. No vai querer sentir que se perdeu a si 
mesma. Ao contrrio, deve querer sentir-se que est acrescentando alguma 
coisa a si mesma. Vamos pensar com muito cuidado a respeito de tudo. Tenho o 
pressentimento de que isso vai levar-nos por algumas direes das mais 
interessantes.
      - Quero uma voz nova. - Nancy soltou uma risadinha.        - Como esta.
      Ela baixou a voz vrias oitavas e Faye no pde deixar de rir.
      - Se fizer isso, Peter talvez tenha que lhe providenciar uma barba.
      - Sensacional!
      Estavam subitamente dominadas por intensa alegria. Nancy levantou-se 
e andou pela sala, quase aos pinotes. Em ocasies como aquela Faye recordava-
se de como ela era realmente jovem. Tinha apenas 23 anos. O aniversrio dela 
chegara e passara e Nancy estava amadurecendo em muitas coisas que a 
maioria das pessoas jamais precisava. Mas, por baixo da superfcie, ela ainda 
era quase uma garota.
      - Mas quero que voc esteja perfeitamente consciente de uma coisa, 
Nancy.
      A voz de Faye era agora bastante sria.
      - O que ? .
      - Acho que deve compreender por que se mostra to disposta a tentar 
tornar-se uma nova pessoa. No  excepcional para os rfos, como voc, 
sentirem-se inseguros de suas identidades. No sabe direito como eram seus 
pais. Em decorrncia, sente que uma parte de voc est faltando, um vnculo 
com a realidade.
      Assim,  muito mais fcil para voc desistir de partes da pessoa que foi 
antes. O mesmo no aconteceria com algum que tivesse mantido imagens muito 
ntidas dos pais... e todas as responsabilidades que isso acarreta. Sob certos 
aspectos, isso pode fazer com que as coisas sejam mais fceis para voc.
      Nancy ficou calada. Faye sorriu e afundou-se na poltrona aconchegante 
perto do fogo. Era uma sala maravilhosa para as conversas com os pacientes, 
pois deixava qualquer pessoa imediatamente  vontade. Faye aproveitara os 
tapetes persas da av na sala, que tinha as paredes revestidas de madeira e 
candelabros de parede antigos, de bronze, para as lmpadas. A lareira era 
guarnecida de bronze, as cortinas eram antigas e de rendas, havia prateleiras 
de livros, pequenos quadros em cantos inesperados, por toda parte havia uma 
profuso de samambaias. Parecia a casa de uma mulher interessante e era 
justamente esse o efeito a que Faye visava.
      - Mas vou dar-lhe tempo para pensar a respeito, Nancy. No momento, 
temos de cuidar de outra questo importante. O que vamos fazer nos feriados?
      - O que h com os feriados?
      Os olhos de Nancy fecharam-se como duas portas e o riso de momentos 
antes agora desaparecera por completo. Faye j sabia que tal aconteceria e por 
isso mesmo o assunto tinha de ser abordado. .
      - Como se sente em relao aos feriados? Esta assustada? 
      - No.
      O rosto de Nancy permanecia impassvel, enquanto Faye a observava 
atentamente
      - Est triste?
      - No.
      - Muito bem, chega de adivinhao, Nancy.  melhor dizer-me. Como se 
sente?
      - Quer saber como me sinto? - Nancy subitamente a fitou nos olhos. - 
Quer mesmo saber? - Ela foi at o outro lado da sala e voltou. - Eu me sinto 
furiosa.
      - Furiosa?
      - Isso mesmo, furiosa. Superfuriosa. Furiosa que no acaba mais.
      - Com quem?
      Nancy tornou a afundar-se na poltrona e olhou para o fogo.
      Desta vez, quando falou, a voz era suave e triste:
      - Com Michael. Pensei que, a esta altura, ele j deveria ter-me 
encontrado. Afinal, j se passaram mais de sete meses.
      Pensei que ele j estaria aqui.
      Ela fechou os olhos, para conter as lgrimas.
      - Com quem mais est furiosa? Com voc mesma?
      - Exatamente.
      - Por qu?
      - Por ter feito o acordo com Marion Hillyard em primeiro lugar. Odeio a 
atitude dela, mas acho; que a minha foi ainda         pior. Eu me vendi.
      - Tem certeza?
      - Acho que sim. E tudo por um novo queixo.
       Ela falou com desprezo, quando pouco antes se manifestara com 
orgulho. Mas estavam agora penetrando mais fundo.
      - No concordo com voc, Nancy. No assumiu tal atitude por um novo 
queixo, mas sim por uma nova vida. Acha que  to errado assim na sua idade?  
O que pensaria de outra pessoa que tomasse a mesma deciso?
      - No sei. Talvez eu pensasse que era uma estupidez. Ou talvez 
compreendesse.
      -. H poucos minutos, estvamos falando sobre uma nova vida. Uma voz 
nova, um jeito de andar novo, rosto novo, nome novo. Tudo novo, exceto uma 
coisa. - Nancy esperou, no querendo ouvir o que Faye ia dizer. - Michael. O que 
me diz de uma nova vida sem Michael? Por acaso j pensou nisso?
      - No.
      Mas os olhos de Nancy estavam cheios de lgrimas e ambas sabiam que 
ela estava mentindo.
      - Nunca?
      - Nunca penso em outros homens. Mas, s vezes, penso em no ter 
Michael.
      - E como se sente nessas ocasies?
      - Gostaria de estar morta.
      Mas ela no pensava realmente assim e ambas tambm sabiam disso.
      - Mas no tem Michael agora, Nancy. E no  to ruim assim, no  
mesmo?
      Nancy limitou-se a dar de ombros em resposta. No momento seguinte, 
Faye voltou a falar, a voz infinitamente suave:
      - Talvez esteja precisando pensar de verdade a respeito de tudo isso, 
Nancy.
      - Est pensando que ele no vai voltar para mim?
      Nancy estava novamente furiosa, desta vez com Faye, por que no havia 
mais ningum em que descarregar sua raiva.
              - No sei, Nancy. Ningum sabe a resposta para tal questo, a no ser o 
prprio Michael.
      - Tem razo... o cachorro...
      Nancy levantou-se e comeou novamente a andar pela sala. Depois, como 
um boneco de corda que vai perdendo a fora, o mpeto dos passos foi 
diminuindo, at que ela parou diante do fogo, as lgrimas escorrendo pelo 
rosto, as mos apertando com toda fora a tela diante da lareira.
              - Oh, Faye, estou to apavorada!         
              - Com o qu? A voz atrs dela estava mais suave do que nunca.
      - De ficar s. De no ser mais eu. De. .. Fico-me perguntando se no fiz 
uma coisa terrvel pela qual serei punida. Renunciei ao amor por meu rosto.
      - Mas pensava que j havia perdido tudo. No pode culpar-se pela opo 
que fez. E  possvel que, ao final, se sinta contente por essa opo.
      -  possvel... - Novos soluos soaram junto  lareira
      Faye ficou observando os ombros esguios se sacudirem, sem dizer nada. 
- Sabe, Faye, estou tambm apavorada com esses feriados do fim do ano.  
pior do que no tempo em que eu estava no orfanato. Desta vez, no h ningum. 
Lily e Gretchen partiram no ms passado e voc vai esquiar. Peter vai passam 
uma semana na Europa e...
      Nancy no podia mais conter as lgrimas. Mas essas eram agora as 
realidades de sua vida. Tinha de enfrent-las. Faye no deveria sentir-se 
culpada por deix-la naquele momento. Nem Peter. Eles tinham suas prprias 
vidas, assim como o tempo que passavam ao lado dela.        
      - Talvez tenha chegado o momento de voc sair e fazer alguns amigos, 
Nancy.
      - Deste jeito? - Ela se virou novamente para Faye e tirou o chapu, 
deixando  mostra as ataduras. - Como posso sair e encontrar-me com algum 
assim? os outros ficariam mortalmente apavorados. Ei, pessoal, chegou o 
Drcula!
      - A aparncia no  assustadora, Nancy. E vai desaparecer com o tempo. 
No  permanente. No passam de ataduras. As outras pessoas certamente 
compreendero.
      - Talvez. - Mas Nancy ainda no estava disposta a acreditar em tal 
possibilidade. - De qualquer forma, no preciso de amigos. Mantenho-me 
ocupada com a minha cmara.
      O presente de Peter fora uma ddiva extraordinria.
      - Sei disso. Vi a sua ltima batelada de fotos outro dia no gabinete de 
Peter. Ele est orgulhoso do seu trabalho e mostra as fotos a todo mundo. E 
devo dizer que  de fato um trabalho excepcional, Nancy.
      - Obrigada. - Um pouco da raiva dissipou-se com a conversa sobre o 
trabalho dela. - Oh, Faye... - Nancy sentou-se novamente na poltrona e 
estendeu as pernas. - O que vou fazer com a minha vida?
      - No  justamente para descobrir isso que estamos trabalhando? 
Enquanto isso, por que no pensa um pouco a respeito do que conversamos 
hoje? O treinamento da voz, aulas de msica. .. algo para diverti-la e tudo parte 
da pessoa que vai.se tornar.
      -Est certo, vou pensar um pouco a respeito. Por falar nisso, quando 
voc vai voltar?        
      - Dentro de duas semanas. Mas deixarei um telefone onde poder 
encontrar-me em caso de emergncia.
      Faye estava mais preocupada com o impacto dos feriados de fim de ano 
em Nancy do que estava disposta a admitir. Era uma poca sempre propcia  
depresso, at mesmo ao suicdio. Mas Nancy parecia estar em condies de 
resistir, pelo menos no momento. Ela apenas no queria que Nancy ficasse 
histrica em sua solido. Era muito azar que ela e Peter resolvessem viajar na 
mesma ocasio. Por outro lado, Nancy tinha de aprender a no depender tanto 
deles.
      - Podemos marcar novo encontro para dentro de duas semanas. E' 
quando eu voltar, quero ver uma poro de fotografias novas.
      - Isso me lembra uma coisa.
      Nancy levantou-se novamente e saiu da sala. Foi at o vestbulo, onde 
deixara um embrulho em papel pardo. Voltou e estendeu-o sorridente para 
Faye.
      - Feliz Natal.        
      Faye abriu, com uma expresso de satisfao. E ficou impressionada. O 
presente era uma fotografia dela prpria, dando a impresso de que passara 
horas posando, para que a fotgrafa pudesse captar o olhar certo, o nimo 
certo. Possua uma caracterstica de sonho, impressionante. Ela estava de p no 
terrao de Nancy.. o vento agitando seus cabelos, com uma blusa de seda rosa-
clara, o sol se pondo atrs dela em tons vermelhos e rosas. Ela se recordava do 
dia, mas no se lembrava de Nancy tirando a fotografia.
      - Quando foi que tirou a foto?
      - Quando voc no estava olhando.
      Nancy parecia satisfeita consigo mesma e tinha todo o direito de estar. 
A fotografia era sensacional. Ela prpria a revelara e ampliara, depois a 
emoldurara. Era uma fotografia to expressiva quanto um quadro.
      - Voc  incrvel, Nancy!  um presente maravilhoso!
      - Tive um bom tema.
      As duas se abraaram. Foi com pesar que Nancy voltou a vestir o casaco.
      - Espero que se divirta bastante esquiando.
      - Pode estar certa de que vou-me divertir. E lhe trarei um pouco de 
neve.
      - Quero ver!
      Nancy abraou-a novamente e se desejaram Feliz Natal. Faye ficou 
sentindo um aperto no corao depois que ela se foi. Nancy era uma moa linda. 
Por dentro. Onde importava.
      
      
      
    

Captulo 12
      
      - Mr. Calloway est no telefone, Mr. Hillyard.
      A neve estava caindo h cinco ou seis horas sobre as ruas de Nova York, 
mas Michael no notara coisa alguma. Estava sentado a sua mesa desde as seis 
horas da manh e agora j passavam de cinco da tarde. Ele pegou o telefone, 
continuando a assinar uma pilha de cartas para sua secretria despachar. Pelo 
menos o trabalho de Kansas City j no estava mais sob sua responsabilidade. 
Tinha agora de preocupar-se com Houston e na primavera arrumaria uma lcera 
por causa do centro mdico de So Francisco. O trabalho dele era um fluxo 
incessante de dores de cabea e exigncias, contratos, problemas e reunies. 
Graas a Deus.
      - George? Michael. Qual  o problema?
      - Sua me est neste momento numa reunio, mas pediu-me que lhe 
telefonasse para avisar que voltaremos de Boston esta noite, se a neve 
permitir. Se no, amanh.
      - Est nevando a?
      Michael parecia surpreso, como se fosse o ms de junho e a neve fosse 
um absurdo.
      - No. - George ficou momentaneamente confuso. - Mas  disseram que 
est havendo uma nevasca em Nova York... No est?
      Michael olhou pela janela e sorriu.
      - Est, sim.  que eu no tinha olhado. Desculpe.
      O rapaz estava se matando, assim como a me sempre fizera. George se 
perguntou por um momento o que haveria naquela famlia que levava todos os 
seus membros a serem to exigentes consigo mesmos e com as pessoas que os 
amavam.         
      - Seja como for, agora que esse problema est resolvido, podemos 
cuidar do resto. - George soltou uma risadinha, antes de acrescentar:        - 
Sua me pediu que lhe telefonasse a fim de confirmar a sua presena em casa 
para a ceia de Natal amanh. Ela convidou uns poucos amigos e naturalmente 
quer que voc esteja presente.
      Michael suspirou fundo enquanto escutava. Uns poucos amigos. .. Isto 
significava vinte ou trinta pessoas, com as quais ele antipatizava ou no 
conhecia. Alm da inevitvel moa solteira de boa famlia, para fazer-lhe 
companhia. Parecia uma maneira horrvel de passar o Natal. Ou qualquer outro 
dia.
      - Sinto muito, George. Devo uma desculpa a mame. Mas j assumi um 
compromisso.
      -  mesmo?
      George parecia desconcertado
      - Eu pretendia dizer a ela na semana passada, mas esqueci-me 
inteiramente. Estava to absorvido pelo centro de Houston que nem pensei a 
respeito. Mas tenho certeza de que ela vai compreender.
      Ele estava realizando verdadeiros milagres com o cliente de Houston e 
por isso era melhor que a me compreendesse mesmo. Ele sabia que esse era 
um instrumento que sempre podia usar contra Marion.
      -  claro que ela vai ficar desapontada, mas ficar tambm satisfeita 
por saber que voc tem outros planos. Alguma coisa..ahn. .. alguma coisa 
excitante, pelo que imagino.
      - Exatamente, George. Um estouro.
      - Algo srio?
      George parecia agora preocupado. Oh, Deus, ser que no havia como 
satisfaz-los?
      - No, nada que possa preocupar. Apenas uma diverso saudvel.
      - Excelente. Bom, Michael, Feliz Natal e tudo o mais.
      - O mesmo para voc. E d lembranas minha a mame. Telefonarei para 
ela amanh.
      - Est certo.
      George estava sorrindo quando desligou, satisfeito por constatar que o 
rapaz estava finalmente se recuperando. Michael levara uma vida muito 
estranha por algum tempo.. Marion tambm ficaria aliviada, embora 
indubitavelmente fosse irritar-se intensamente por alguns minutos, ao saber 
que o filho no compareceria a sua ceia de Natal. Mas, no final das contas, 
Michael era jovem. Tinha o direito de divertir-se um pouco. George sorriu para 
si mesmo, enquanto tomava um gole do scotch e recordava um Natal em Viena 
h 25 anos. E depois, como sempre, seus pensamentos voltaram a fixar-se na 
me de Michael.
      Na sala de Michael, o telefone no parava de tocar. Ben ligou, querendo 
certificar-se de que ele tinha planos para o Natal. Michael assegurou-lhe que 
iria para a festa da me, tediosa, mas esperada. Diversos clientes telefonaram 
tambm, para se queixarem, darem os parabns ou desejarem Feliz Natal. Ao 
desligar, depois do ltimo telefonema, Michael murmurou para si mesmo: - Ora, 
que vo todos para o inferno!
      Ele levantou a cabea, surpreso, ao ouvir uma risada desconhecida na 
porta. Era a nova designer de interiores que Ben contratara. E era tambm uma 
moa bonita, com cabelos castanhos avermelhados caindo em ondas at os 
ombros, realando ainda mais a pele leitosa e os olhos azuis.  claro que 
Michael nunca tinha notado. Nunca notava coisa alguma, a menos que estivesse 
em sua mesa e precisando de assinatura.
      - Sempre deseja Feliz Natal s pessoas dessa maneira? 
      - Somente s pessoas de quem gosto realmente de ouvir votos de Feliz 
Natal.
      Ele sorriu para a moa e ficou imaginando o que ela estaria fazendo ali. 
No pedira para v-la e a moa no tinha nenhum assunto a tratar diretamente 
com ele, pelo menos ao que soubesse
      - H alguma coisa que eu possa fazer por voc, Miss. . .
      Oh, diabo! Ele no conseguia recordar o nome dela. Qual seria mesmo?
      - Wendy Towsend. Vim apenas desejar-lhe um Feliz Natal.
      Ah, uma puxa-saco! Michael estava divertido e acenou para que a moa 
se sentasse.
      - No lhe disseram que sou o original Scrooge? (Famoso personagem 
avarento de uma histria de Natal de Charles Dickens. )
      - Foi o que imaginei, quando no apareceu na festa do escritrio nem no 
jantar de Natal ontem  noite. Dizem tambm que trabalha demais.
      - Faz bem para a pele.
      - Outras coisas tambm fazem.
      Ela cruzou uma perna linda sobre a outra. Michael desviou os olhos. No 
lhe interessava, assim como nenhuma outra coisa o interessara desde maio.
      - Queria tambm agradecer pelo aumento que acabei de receber.
      Ela exibiu dentes impecveis e Michael retribuiu ao sorriso.
      Estava comeando a se perguntar o que a moa estaria realmente 
querendo. Uma gratificao? Outro aumento?
      - Ter de agradecer a Ben Avery por isso. No tive nada a        ver com o 
seu aumento.
      - Entendo.
      A conversa no ia levar a nada e ela sabia disso. Levantou-se, pesarosa, 
depois olhou para a janela. Havia quase 20 centmetros de neve empilhada no 
peitoril da janela.
      - Parece que, no final das contas, vai ser mesmo um Natal branco. E 
tambm vai ser praticamente impossvel chegar em casa esta noite.
      - Talvez tenha razo. E provavelmente no vou sequer tentar. - Michael 
apontou para o sof de couro com um sorriso. Acho que foi por isso que 
puseram esse sof. S para me manter, preso no escritrio.
      No, meu caro, voc  que est fazendo isso consigo mesmo. A moa 
limitou-se a sorrir, desejando-lhe um Feliz Natal. Michael voltou a assinar 
cartas. E cumprindo sua palavra, passou a noite no sof. E a noite seguinte 
tambm. Servia-lhe perfeitamente. O Natal caa num fim de semana naquele 
ano e assim ningum sabia onde ele estava. At mesmo o zelador e as 
faxineiras estavam de folga. Somente o vigia noturno soube que Michael no 
deixara o escritrio da sexta-feira at o final da noite de domingo. E,  esta 
altura, o Natal j havia acabado. Quando ele voltou a seu apartamento vazio, 
nada mais tinha a temer. O Natal, com todas as suas recordaes e fantasmas, 
j era uma coisa do passado. Havia uma poinstia grande e vistosa murchando 
diante de sua porta, enviada pela me. Michael deixou-a ao lado da lata de lixo.
      Em So Francisco, Nancy passou o Natal mais confortavelmente que 
Michael, mas em igual solido. Cozinhou um frango, entoou cantigas de Natal no 
terrao, sozinha, depois que voltou da igreja, na noite de Natal. Dormiu at 
tarde no dia de Natal. Havia acalentado a esperana de evitar que esse dia 
chegasse, mas no havia como escapar. Era inexorvel, com seus enfeites e 
suas rvores, promessas e mentiras. Pelo menos, em So Francisco. O tempo 
no a fazia lembrar-se tanto dos Natais que passara na costa do Atlntico. Era 
quase como se todas aquelas pessoas estivessem fingindo que era Natal, quando 
ela sabia muito bem que tal no acontecia. A estranheza fazia com que se 
tornasse um pouco mais fcil suportar tudo. E ela recebera dois presentes 
naquele ano: uma linda bolsa de Gucci dada por Peter e um livro cmico de Faye. 
Ela se acordou numa poltrona com o livro de tarde, depois que comeu o frango 
recheado, com um molho especial. Era como comemorar o Natal na Schrafft's, 
com todas as velhas senhoras, as esperanas de vida guardadas numa sacola de 
compras. Nancy sempre tentara imaginar o que havia naquelas sacolas. Talvez 
velhas cartas, fotografias, quinquilharias, trofus ou sonhos.
      J eram mais de seis horas quando finalmente largou o livro e esticou as 
pernas. Seria maravilhoso dar um passeio. Estava precisando respirar um pouco 
de ar fresco. Vestiu o casaco, pegou o chapu e a cmara, sorriu para si mesma 
no espelho. Continuava a gostar de seu novo sorriso. Era um sorriso 
maravilhoso. Fazia-a pensar em como pareceria o resto de seu rosto, quando 
Peter terminasse. Era um pouco como tornar-se a mulher aos sonhos dele. 
Certa ocasio, Peter chegara mesmo a dizer-lhe que a estava transformando 
em seu "ideal". O que era um sentimento um tanto constrangedor. De qualquer 
forma, ela gostava de seu novo sorriso. Nancy pendurou a cmara no ombro, 
saiu do apartamento e desceu no elevador.
      Era um final de tarde frio, com o vento soprando, sem nevoeiro. Nancy 
sabia que seria uma excelente noite para tirar fotografias. Encaminhou-se 
lentamente para o cais. As ruas estavam praticamente desertas. Todos 
estavam-se recuperando da ceia de Natal, instalados em poltronas ou sofs, 
roncando diante dos aparelhos de TV. A viso que criou na prpria mente fez 
Nancy sorrir. Subitamente ela tropeou, soltando um grito estridente ao cam-
balear. Peter advertira-a desse perigo. Agora, quase cara na rua. Estendeu os 
braos para se amparar e conseguiu recuperar o equilbrio antes de bater na 
calada. S no instante seguinte  que percebeu que no tinha sido a nica a 
gritar. Tropeara num cachorrinho peludo, que parecia estar profundamente 
ofendido. Sentou-se agora, sacudiu a pata para Nancy e latiu. Era uma pequena 
bola de plo emaranhado, em tons marrons e beges. Ficou olhando para Nancy e 
latiu novamente.
      - Est bem, est bem... Desculpe. Mas a verdade  que voc tambm me 
assustou.
      Ela se abaixou para afagar o cachorro, que sacudiu o rabo e latiu mais, 
uma vez. Era um cachorrinho cmico, pouco maior que um filhote. Nancy 
lamentou nada ter para lhe dar de comer. O bicho parecia muito faminto. Ela o 
afagou novamente, sorriu e depois se levantou, satisfeita por no ter deixado a 
cmara cair. O cachorrinho latiu novamente e ela voltou a sorrir.
      - Est bem. .. adeus.
      Ela comeou a afastar-se, mas o cachorro foi atrs, correndo a seu lado. 
Nancy parou e olhou-o. 
      - Escute, cachorrinho, volte para sua casa. V embora. Mas cada vez que 
ela dava um passo, o cachorro dava tambm; e quando ela parava, o cachorro 
sentava-se, esperando na maior felicidade que o passeio recomeasse. Nancy 
parou novamente e riu para o cachorro. Era realmente um cachorrinho ridculo, 
mas tambm extremamente simptico. Ela se abaixou para afag-lo novamente 
e tateou o pescoo  procura de uma coleira, mas nada encontrou. Era um 
cachorro totalmente despido. E depois, num sbito impulso, divertida, ela 
decidiu tirar algumas fotografias do cachorro. Ele demonstrou ser um modelo 
natural, empinando-se, posando, abanando o rabo, divertindo-se a valer.
      Nancy tinha feito um novo amigo. Ao final de meia hora, o cachorro 
ainda no dera qualquer sinal de que estava disposto a abandon-la.
      - Est certo, pode vir comigo.
              E assim seguiram os dois at a beira do cais, onde Nancy tirou 
fotografias de barracas de caranguejo e vendedores de camaro, turistas e 
Papais Nois embriagados, embarcaes e pssaros, de outros cachorros. 
Divertiu-se intensamente e em momento nenhum conseguiu livrar-se de seu 
novo amigo. O cachorrinho permaneceu ao lado dela at que Nancy finalmente 
parou para tomar um caf. Tornara-se bastante hbil em entrar em cafs e 
lanchonetes, abaixando a cabea a fim de ocultar a maior parte do rosto sob o 
chapu e assim pedindo o que desejava. Agora, tinha at mesmo um sorriso 
para acompanhar o obrigado, que j no era to difcil de exibir como antes. 
Nancy pediu caf puro para si e um hambrguer para o cachorro. Ps o prato de 
papel vermelho na calada, ao lado dele. O cachorro devorou tudo e depois latiu 
em agradecimento.        - Isso significa obrigado ou que voc est querendo mais? O 
cachorro latiu novamente e ela riu. Um homem parou para afagar o cachorro e 
perguntou, o nome dele a Nancy.
      - No sei. Ele acabou de me adotar.
      - J comunicou?
      - Ainda no.
      O homem explicou como deveria fazer e Nancy agradeceu.
      Telefonaria do apartamento, se o cachorrinho continuasse a segui-la at 
l. E foi justamente o que aconteceu. Ele parou na porta do prdio, como se 
tambm morasse ali. Nancy levou o cachorro para cima e telefonou para a 
Associao Protetora dos Animais. Mas ningum procurara a Associao para 
informar ter perdido um cachorro como aquele. Sugeriram que ela se 
resignasse a ficar com o cachorro ou o levasse para o depsito da prefeitura, 
onde dariam um jeito nele. Nancy ficou indignada com tal perspectiva e passou 
um brao protetor pelo cachorro, ambos sentados no cho, lado a lado.        '
      - Quer saber de uma coisa, garoto? Est com uma aparncia horrvel. O 
que me diz de tomar um banho?
      Ele abanou a lngua e o rabo ao mesmo tempo. Nancy pegou-o no colo e 
levou-o para a banheira. Ela tinha de tomar todo cuidado para no ser 
respingada, pois as ataduras em seu rosto no podiam ficar molhadas. Mas o 
cachorrinho submeteu-se ao banho sem qualquer resistncia. J no meio do 
banho, ela descobriu que a cor dele no era marrom e bege, mas sim marrom e 
branco. E o marrom era claro, da cor de chocolate com leite, enquanto o branco 
era da cor da neve. Era de fato um cachorrinho adorvel e Nancy comeou a 
torcer para que ningum comunicasse que o tinha perdido. Nunca antes tivera 
um cachorro e j estava apaixonada por aquele. No pudera ter um, cachorro 
no orfanato e os bichos de estimao no eram permitidos no prdio de 
apartamentos em que fora morar em Boston. Mas a administrao daquele 
prdio em So Francisco no tinha qualquer objeo a bichos de estimao. 
Nancy sentou-se sobre os calcanhares e esfregou-o novamente com a toalha, 
enquanto ele rolava para ficar de costas, sacudindo as quatro patas. E depois 
ela comeou a pensar em um nome para o seu novo amigo. No demorou a 
encontr-lo. Seria o mesmo nome de um cachorro de que Michael lhe falara, o 
primeiro filhote que ele tivera quando era menino. De certa forma, parecia o 
nome perfeito para aquele cachorrinho independente.
      - O que acha do nome Fred; meu pequeno amigo? Est bom para voc?
      Ele latiu duas vezes e Nancy encarou tal reao como um sim.
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 13
      
      Nancy meteu a cabea pela porta e sorriu para Faye, j instalada 
comodamente perto do fogo.
      - O que trouxe escondido na manga hoje, minha cara?
      Faye retribuiu o sorriso, aliviada ao constatar que Nancy parecia estar 
muito bem.
      - Trouxe um amigo.
      -  mesmo? Eu passo duas semanas fora e voc aproveita para arrumar 
um novo amigo? E onde est o seu amigo?
      Fred entrou na sala, obviamente orgulhoso de sua nova coleira e da 
correia vermelha. Ningum comunicara t-lo perdido e a partir daquela manh 
ele pertencia oficialmente a Nancy. Tinha uma licena, cama, tigela e dezessete 
brinquedos. Nancy o estava cumulando de carinho.
      - Faye, quero apresentar-lhe Fred. .
      Ela sorriu para o cachorrinho com um orgulho maternal e Faye no pde 
deixar de rir.
      - Ele  lindo, Nancy. Onde foi que o conseguiu?
      - Ele me adotou no dia de Natal. Deveria ter-lhe dado o nome de Noel, 
mas Fred me pareceu mais apropriado.
      Por um momento, Nancy sentiu-se embaraada em explicar a Faye por 
qu estava comeando a sentir-se como uma tola por se apegar  esperana de  
Michael.
      - Tambm trouxe alguns trabalhos meus para voc ver.
      - Puxa, como voc esteve ocupada! Talvez eu devesse ausentar-me com 
mais freqncia.
      - Se quer-me fazer um favor, no faa isso.
      Os olhos de Nancy revelaram a Faye como ela se sentira solitria. Mas 
pelo menos conseguira sobreviver ao Natal. E sozinha. O que no era pouca 
coisa para qualquer pessoa.
      - E... - Nancy fez uma breve pausa, com evidente orgulho. - ... j 
providenciei tudo para fazer um curso de aprimoramento da voz. Peter diz que 
tudo faz parte do acordo. Comeo amanh, s trs horas. Ainda no posso 
tomar aulas de dana porque meu rosto no est acabado. Mas poderei comear 
no prximo vero.
      - Estou orgulhosa de voc, Nancy.
      - Tambm estou.
      Tiveram uma boa sesso naquele dia e pela primeira vez, em oito meses, 
no falaram de Michael. Para espanto de Faye, j estavam na primavera quando 
Nancy voltou a menciona-lo. Era quase como se ela estivesse determinada a no 
faz-lo. Agora, Nancy s falava a respeito de seus planos. As aulas para 
aprimorar a voz. Fotografia. O trabalho que ela queria fazer com fotografia 
assim que suas tcnicas se tornassem mais sofisticadas. Na primavera, ela e 
Fred saam para longos passeios pelo parque, atravs das roseiras e pelos 
caminhos mais remotos, perto da praia. De vez em quando, ia de carro com 
Peter para praias distantes e desertas, onde no havia ningum para ver as 
ataduras. Pouco a pouco, o rosto novo dela estava emergindo, assim como a sua 
nova personalidade. Era como se, ao remodelar as faces, testa e nariz de 
Nancy, ele estivesse tambm revelando mais da alma que estivera oculta pela 
juventude. Ela amadurecera consideravelmente no ano que havia transcorrido 
desde o acidente.
      - J passou um ano?
      Faye estava atnita, enquanto olhava para Nancy, uma tarde. Peter 
estava trabalhando na regio em torno dos olhos dela e Nancy usava imensos 
culos escuros, que escondiam as faces, assim como os olhos.
      - Exatamente. Aconteceu em maio do ano passado. E estou vendo h oito 
meses, Faye. Acha realmente que estou fazendo algum progresso?
      Ela parecia desanimada. O que era natural, pois ainda estava cansada da 
ltima cirurgia, realizada apenas trs dias antes. 
      - Duvida de seu progresso?
      - s vezes. Quando penso demais em Michael.
      Era uma confisso extremamente rdua para Nancy. Ela ainda estava-se 
agarrando aos ltimos resqucios de esperana de que Michael iria finalmente 
encontra-la e o acordo com a me dele ficaria ento automaticamente 
cancelado.
      - No sei por que ainda fao isso comigo mesmo, mas a verdade  que 
fao.
      - Espere s at comear a sair mais um pouco pelo mundo, Nancy. No 
tem mais nada para fazer agora alm de olhar para trs, contemplando as 
coisas de que se recorda, ou para frente, imaginando as coisas que ainda no 
conhece.  perfeitamente natural que passe um tempo considervel olhando 
para trs. No tem outras pessoas em sua vida neste momento, mas ter 
quando chegar o momento. Seja paciente.
      Nancy deixou escapar um suspiro cansado.
      - Estou cansada de ser paciente, Faye. Tenho a sensao de que este 
trabalho em meu rosto vai durar para sempre. H ocasies em que odeio Peter 
por isso, mesmo sabendo que no  culpa dele. Ele est procurando fazer tudo o 
mais depressa que  possvel.
      - Valer a pena o tempo que voc est investindo. J est.
      Faye sorriu para Nancy, que retribuiu.. O formato delicado do rosto da 
moa j emergira e a cada semana parecia haver mudanas. O aprimoramento 
da voz tambm estava indo muito bem, a voz de Nancy era agora de um tom 
mais baixo muito bem modulada. Ela possua um controle maior sobre a 
suavidade de sua voz do que poderia acontecer sem o treinamento. O que deu 
uma idia a Faye.
      - J pensou em tornar-se atriz depois que tudo tiver acabado? A 
experincia pode proporcionar-lhe uma profundidade interior considervel.
      Nancy sorriu e sacudiu a cabea.
      - Posso fazer filmes, mas no atuar neles. Prefiro ficar no outro lado da 
cmara.
      - Foi apenas uma idia. O que tem na sua agenda para esta semana?
      - Combinei com Peter tirar algumas fotografias para ele.Vamos de avio 
para Santa Brbara, onde passaremos o domingo.
      Ele quer encontrar-se com algumas pessoas de l e ofereceu-me uma 
carona.
      - Eu gostaria de poder levar uma vida assim... - Faye olhou para o 
relgio, antes de acrescentar: - At quarta-feira.
      - Est bem, madame.
      Nancy despediu-se com um sorriso e Fred saiu correndo da sala com a 
coleira na boca. Ele estava acostumado s sesses no consultrio de Faye. 
Nancy nunca o deixava em parte alguma.
      Saindo do consultrio de Faye, Nancy decidiu percorrer a p os poucos 
quarteires que a separavam de um pequeno parque prximo, a fim de verificar 
se no havia crianas no playground para fotografar. J fazia algum tempo que 
no tirava fotografias de crianas. Ao chegar, encontrou um amplo suprimento 
de temas, subindo, pulando, empurrando, correndo. Nancy ficou sentada num 
banco por algum tempo, a observ-las. Era um lindo dia e ela se sentia em paz 
com a vida.
      - Vem aqui com freqncia?
      Sentado no banco, Michael levantou abruptamente a cabea, surpreso. 
Escapara para o parque por uma hora, apenas para se afastar do escritrio e 
poder ver algum verde. Havia sempre algo mgico naqueles primeiros dias de 
primavera, quando Nova York passava do cinzento para o verde vioso, 
arbustos, rvores e flores explodindo de vida. Mas estava convencido de que 
ficaria sozinho naquele lugar isolado em que encontrara um banco desocupado. 
A voz sbita surpreendeu-o. Deparou com Wendy Twnsend, a designer de. 
interiores do escritrio.
      - No. eu... para dizer a verdade, quase nunca. Mas estava tendo hoje um 
caso raro de febre da primavera.
      - Eu tambm.
      Ela parecia um tanto constrangida, parada ali, segurando um picol. 
Depois, rapidamente, deu urna lambida no sorvete, a fim de no perder uma boa 
poro de chocolate.
       - Est parecendo delicioso. Michael sorriu para a moa no ar ameno da 
primavera
      - Quer um pouco?
      Ela estendeu o sorvete como uma colegial amistosa, mas Michael sacudiu 
a cabea.
      - De qualquer forma, obrigado pelo oferecimento. No gostaria de 
sentar-se um pouco?
      Ele se sentia um pouco tolo por ter sido surpreendido no parque, mas 
era um dia to bonito que no se importava de partilh-lo, especialmente com 
uma jovem to simptica. Os caminhos de ambos haviam-se cruzado por 
diversas vezes desde que ela entrara na sala dele, cinco meses antes, para 
desejar Feliz Natal. Wendy Townsend sentou-se ao lado de Michael e terminou 
rapidamente o sorvete.
      - No que est trabalhando atualmente? - perguntou ele.
      - Houston e Kansas City. Meu trabalho est sempre cinco ou seis meses 
atrs do seu.  muito interessante seguir em seus calcanhares dessa maneira.
      - No tenho muita certeza como devo encarar tal declarao. Mas a 
verdade  que Michael no estava muito preocupado com isso.
      - Como um elogio.
      Ela sorriu por baixo das pestanas que tambm eram de uma tonalidade 
castanho-avermelhada.
      - Obrigada. Ben a est tratando decentemente ou  o feitor de escravos 
que eu lhe digo para ser?
      - Ele no saberia como faz-lo.
      - Sei disso. - Michael sorriu ao pensar no assunto. - Ns nos conhecemos 
pela metade de nossas vidas. Ben  como meu irmo.
      - Ele  um homem tremendamente simptico.
      Michael assentiu silenciosamente, pensando como poucas vezes vira Ben 
no ltimo ano. Nunca tinha tempo. Nunca dava um jeito de arrumar tempo. Nem 
mesmo sabia o que estava acontecendo na vida de Ben. Havia muitos meses que 
no se dava ao trabalho de arrumar tempo para descobrir. Comeou de repente 
a sentir-se culpado, por estar sentado ao lado da jovem e imerso em seus 
prprios pensamentos. Mas muita coisa mudara para ele ao longo do ltimo ano. 
Ele prprio mudara.
      - Est muito longe daqui, Mr. Hillyard. S espero que seja em algum 
lugar agradvel.
      Michael deu de ombros.
      - A primavera faz estranhas coisas comigo.  como se me obrigasse a 
parar a cada ano para fazer um bom suprimento.  justamente o que estou 
fazendo hoje.
      -  uma boa idia. Por alguma razo, sempre fao isso tambm em 
setembro. Acho que a noo do "ano escolar" me marcou para sempre. A 
maioria das outras pessoas prefere revigorar-se para enfrentar o resto do ano 
em janeiro. Mas acho que a primavera faz mais sentido.  na primavera que 
tudo comea novamente. Por que ento no deveramos comear nossas vidas 
novamente a cada primavera?
      Trocaram um sorriso e Michael olhou para o pequeno lago, sereno, 
ocupado por uns poucos patos, que pareciam felizes da vida. No havia qualquer 
outra pessoa  vista.
      - O que estava fazendo nesta mesma poca no ano passado, Mr. 
Hillyard?
      Era uma pergunta inocente, mas penetrou em Michael como uma faca 
afiada. Um ano atrs, naquele dia. . .
      - Nada muito diferente do que estou fazendo agora. - Ele franziu a 
testa, olhou para o relgio e levantou-se. - Infelizmente, tenho uma reunio 
dentro de 10 minutos.  melhor eu voltar para o escritrio. Foi um prazer 
conversar com voc.
      Michael mal sorriu ao se afastar. A jovem continuou sentada onde 
estava, imaginando o que teria dito de errado. Tinha de perguntar a Ben qual 
era o problema de Michael. No era possvel aproximar-se a menos de mil 
quilmetros dele.
      
    

Captulo 14
      
      Para surpresa de Michael, Wendy havia sido convocada para a mesma 
reunio, 10 minutos depois. Iam discutir o projeto preliminar para o Centro 
Mdico de So Francisco e a parte de desingn interior seria um fator 
importante. Uma parcela considervel da arte local seria aproveitada para 
realar o projeto bsico. Ben iria encarregar-se de encontrar essa arte 
pessoalmente, mas Wendy ficaria incumbida da coordenao na frente interna. 
E o faria numa escala maior que a habitual, j que Ben passaria muito tempo em 
So Francisco. Ainda faltava muito para a apresentao do projeto definitivo, 
mas j era tempo de comear a elaborar os planos, enquadrar os problemas e 
esmiuar os detalhes.
      Foi uma reunio demorada, absorvente, interessante, dirigida em grande 
parte por Marion, com a ajuda de George Calloway. Mas Michael teve uma 
participao quase igual. Aquele projeto era dele, como a me quisera desde o 
incio. Todas as grandes firmas de arquitetura do pas haviam tentado obter 
aquele contrato e Marion tencionava agora utiliz-lo para projetar 
definitivamente o nome e reputao de Michael.
      J era quase seis horas quando a reunio terminou. Wendy estava 
esgotada. Apresentara suas idias de maneira segura, resistira a Marion 
quando no havia outro jeito, seus argumentos haviam impressionado Michael. 
Ben estava orgulhoso dela e apertou-lhe afetuosamente o ombro, ao se 
retirarem.
      - Bom trabalho, menina. Saiu-se muito bem.
      Ele foi chamado por sua secretria nesse momento e continuou sozinha 
pelo corredor. Ficou bastante surpresa Michael tambm a deteve.
      - Fiquei bastante impressionado com o seu trabalho, Wendy. Tenho 
certeza de que vamos realizar juntos um grande trabalho em So Francisco.
      - Tambm tenho. - Ela estava radiante com o elogio, ainda mais porque 
partira de Michael. - Eu... Michael, eu... lamento muito se disse alguma coisa que 
o deixou ofendido esta tarde. No tencionava realmente intrometer-me em sua 
vida e se foi uma pergunta imprpria lamento profundamente...
      Michael sentiu algum remorso pelo constrangimento dela e levantou a 
mo para impedi-la de continuar, ao mesmo tempo que lhe sorria gentilmente.
      - Fui um tanto grosseiro li peo desculpas. Acho que a febre da 
primavera me deixa meio doido, alm de sonhador. Posso compensar 
convidando-a para jantar esta noite?
      Ele ficou to surpreso quanto ela no instante mesmo em que as palavras 
saram de sua boca. Jantar? Ele no jantava com uma mulher h um ano! Mas 
ela era uma jovem simptica, estava fazendo um bom trabalho e suas intenes 
eram boas. E estava a fita-lo naquele momento com as faces coradas e 
visivelmente embaraada.
      - Eu... no precisa...
      - Sei que no preciso, mas gostaria - E desta vez Michael estava falando 
srio. - No tem algum outro compromisso?
      - No. E tambm adoraria.
      timo. Irei busca-la em seu apartamento dentro de uma hora.Ele anotou 
o endereo nas costas de seu bloco e sorriu enquanto Wendy retornava 
apressadamente  sala dela. Era um absurdo fazer aquilo, mas por que no?
      Michael chegou pontualmente no apartamento dela, uma hora depois, e 
gostou do que viu. Era um prdio pequeno e bem cuidado, com uma porta preta 
reluzente e uma grande aldrava de lato. Tinha quatro apartamentos e o de 
Wendy era o menor, mas ela se gabava de possuir um pequeno jardim nos 
fundos. O apartamento dela era uma maravilhosa mistura de antigo e novo, o 
antigo autntico e o moderno vlido. Era dominado por cores suaves, i1uminao 
indireta, muitas flores e velas. Wendy parecia ter grande predileo por 
prataria antiga, que polira  perfeio de espelho. Ele olhou ao redor com 
satisfao e sentou-se para saborear os hors' d'oeuvres que ela preparara. 
Tomaram Bloody Marys e trocaram comentrios sobre os diversos projetos em 
que trabalhavam. Uma hora voou numa conversa descontrada. Michael detestou 
ter de interromp-la a fim de sarem para jantar, mas fizera reservas num 
restaurante Francs das proximidades e jamais guardavam as mesas dos 
retardatrios por mais de cinco minutos.
      - Vamos ter de correr, se quisermos chegar a tempo. Ou ser que 
realmente nos importamos com isso?
      Michael ficou surpreso ao ouvi-la formular seus prprios pensamentos e 
no sabia direito o que significava o brilho malicioso nos olhos dela. Fazia tanto 
tempo que no se encontrava com uma mulher que ficou com receio de 
interpretar erroneamente e tomar a iniciativa errada.
      - Em que exatamente est pensando, Miss Townsend? Ser que o 
pensamento  to abominvel quanto a expresso em seu rosto?
      - Pior ainda.. Estava pensando que podamos providenciar alguma coisa 
para fazermos um piquenique, enquanto contemplamos os barcos no East River.
      - A idia parece maravilhosa. Por acaso tem manteiga de amendoim?
      - Claro que no! - Ela parecia ofendida. - Fao o meu prprio pat,                      
Mr. Hillyard. E tenho po preto.
      Ela parecia bastante orgulhosa de si mesma e Michael ficou 
devidamente impressionado.
      - Confesso que eu estava pensando mais em termos de manteiga de 
amendoim e gelia. Ou cachorros-quentes.
      - Jamais!
      Com um sorriso, Wendy desapareceu na cozinha. Em 10 minutos, ela 
havia reunido o piquenique perfeito para duas pessoas.
      Havia uma sobra de rattatouille, o pat prometido, um po preto, uma 
poro considervel de Brie, trs pras maduras, algumas uvas e uma garrafa 
de vinho.
      - Acha que  suficiente?
      Ela parecia preocupada e Michael no pde conter uma risada. 
      - Est falando srio? Nunca comi to bem desde que tinha 12 anos. Vivo 
basicamente de sanduches de sobra de rosbife e do que minha secretria me 
alimenta, quando no estou olhando. Provavelmente comida para cachorro. 
Nunca notei.
      -  de admirar que no esteja morrendo de inanio. Michael no estava 
morrendo  mngua, mas certamente estava muito magro. - Podemos partir?
      Wendy olhou ao redor da sala e pegou um xale bege, enquanto Michael 
recolhia a cesta do piquenique. E saram. Percorreram a p os poucos 
quarteires que os separavam do East River, encontraram um banco e ali 
acomodaram-se legremente para contemplarem os barcos que passavam. Era 
uma noite quente e agradvel, o cu cheio de estrelas e o rio bastante povoado 
por rebocadores, iates e at mesmo barcos  vela, que passavam de vez 
enquanto num passeio noturno. Michael e Wendy no eram os nicos atingidos 
pela febre da primavera.
      -  o seu primeiro emprego, Wendy?
      Michael estava com a boca cheia de pat e parecia mais jovem que em 
qualquier outra ocasio do ltimo ano. Ela assentiu, com expresso feliz.
      - , sim. E tambm o primeiro a que me candidatei. Fiquei muito 
contente em obt-lo. Fui trabalhar com vocs assim que sa da Parsons.
      - Isso  timo.  tambm o meu primeiro emprego.
      Michael estava morrendo de vontade de indagar o que ela achava de sua 
me, mas no se atreveu. No teria sido justo. Alm do mais, se a moa tinha 
um mnimo de bom senso no podia deixar de detestar Marion. Afinal, Marion 
Hillyard era um verdadeiro monstro em questes de trabalho, o que Michael 
sabia perfeitamente.
      - E tudo indicava que vai ter bastante sucesso e ir longe que na firma, 
Michael..
      Ela estava novamente a provoc-lo e Michael riu.
      - O que pretende fazer depois disso? Casar-se e ter filhos 
       - No sei, mas  possvel. De qualquer forma, no penso nisso por longo 
tempo. Quero primeiro consolidar uma carreira. Sempre posso ter filhos 
depois, na casa dos 30 anos.
      -Puxa, como as coisas mudaram. Antigamente, todas as garotas viviam 
ansiosas por se casarem.
      Michael sorriu para sua nova amiga.
       - Algumas garotas ainda esto ansiosas por se casarem. Ela retribuiu o 
sorriso e. pegou um pedao de Brie. Fora um piguenique maravilhoso. 
      - E voc, quer-se casar?
      Ela ficou observando Michael com a maior curiosidade, enquanto ele 
sacudia a cabea, contemplando os barcos.
      - Nunca?
      Ele virou a cabea para fita-la. Lentamente, sacudiu outra vez a cabea. 
Havia uma espcie de splica nos olhos de Michael. Wendy no sabia se devia ou 
no insistir na pergunta. Decidiu interrogar Michael a respeito.
      - Devo perguntar por qu ou devo parar por aqui?
      - Talvez j no tenha mais importncia. H um ano inteiro que estou 
fugindo disso. Cheguei mesmo a fugir de voc hoje, na hora do almoo. No 
posso continuar a fugir para sempre.
      Michael fez uma pausa, baixou os olhos para suas mos, depois tornou a  
fita-la.        .
      - Eu ia me casar no ano passado.. No caminho, Ben Avery... minha... minha 
noiva e eu... sofremos um acidente. O outro motorista morreu e tambm... Ela 
tambm morreu.
      Michael no chorou, mas teve a sensao de que tudo por dentro lhe 
fora arrancado. Wendy olhava para ele fixamente, os olhos arregalados, 
horrorizados.
      - Oh, Michael, que coisa horrvel! Parece um pesadelo.
      - E foi mesmo. Passei dois dias em estado de coma e quando sa ela j 
tinha morrido. Eu. .. eu... - Michael quase que no podia pronunciar as palavras, 
mas tinha de faze-lo agora tinha de contar a algum. Jamais contara nem 
mesmo a Ben. 
      Voltei ao apartamento dela quando sa do hospital, duas semanas depois. 
Mas j estava vazio. Algum chamara a Goodwill e 05 quadros dela... haviam 
sido roubados por duas enfermeiras do hospital. Ela era pintora.
      Os dois ficaram sentados em silncio por longo tempo. Depois, Michael 
voltou a falar, como se desejasse ele prprio compreender melhor.
      - No restou nada. Acho que nem de mim. .
      Quando ele levantou a cabea, deparou com lgrimas escorrendo pelas 
faces de Wendy.
              - Lamento muito, Michael.
              Ele assentiu e, pela primeira vez em um ano, tambm chorou. As 
lgrimas deslizavam lentamente por seu rosto quando a abraou.
      

Capitulo 15
      
      - Michael, o que acha daquela mulher que est dirigindo o escritrio de 
Kansas City e...
      Wendy olhou para ele, acomodado em uma cadeira de lona        em seu 
jardim.  Michael no estava ouvindo.
      - Michael. . .
      Os dois estavam sentados em trajes de banho, ao sol quente de Nova 
York. Wendy sabia que ele tambm no estava prestando ateno  edio 
dominical do jornal.
      - Michael...
      - Ahn? O que foi?
      - Eu lhe estava fazendo uma pergunta sobre aquela mulher do escritrio 
de Kansas City. - Mas Wendy sabia que j o tinha perdido e fitou-o com 
expresso irritada. - Quer outro Bloody Mary?
      - Hem? Quero, sim... Acho que vou voltar para o escritrio daqui a pouco.
      Ele olhou alm dela, para um ponto qualquer acima de seu ombro.
      - Maravilhoso.
      - Como assim?
      Michael estava agora observando-a atentamente e no sabia direito o 
que significava a expresso no rosto dela. Se se esforasse um pouco, poderia 
entender prontamente. Mas nunca tentava.
       - Nada, nada...
      - O centro mdico de So Francisco vai-me exigir o mximo de trabalho 
pelos prximos dois anos.  um dos maiores projetos j realizados no pas.
      - E se no fosse isso, seria alguma outra coisa. No precisa arrumar 
desculpas. Est tudo bem.
      - Ento no procure dar a impresso de que estou batendo o relgio de 
ponto toda vez que apareo aqui.
      Michael empurrou o jornal com o p e fitou-a com expresso furiosa. Ela 
no se conteve mais.
      - Pare com isso, Michael! S apareceu aqui ontem depois de meia-noite e 
meia. Tnhamos um jantar marcado com os Thompson e voc s me telefonou s 
9h45min. Eu deveria ter sado com os Thompsons mesmo sem voc.
      - Ento por que no saiu? No precisa ficar sentada aqui  minha espera.
      -  verdade, no preciso. Mas acontece que estou, apaixonada por voc. 
E o pior  que nem ao menos tenta ter alguma considerao. O que h com 
voc? Tem medo de estar em outro lugar que no seja em sua mesa de 
trabalho? Tem medo de que algum possa tomar o seu lugar? Ou est com 
medo de tambm se apaixonar por mim? Ser que isso seria to horrvel assim?
      - No seja ridcula. Sabe como meu trabalho  absorvente. E sabe disso 
melhor que qualquer outra pessoa.
      - Claro que conheo o seu trabalho... e  justamente por isso que sei que 
metade das horas que a ele dedica no tem a menor razo de ser. Usa o seu 
trabalho como um lugar para se esconder, um meio de vida. Usa-o para me 
evitar. E ,evitar a si mesmo.
      E tambm a Nancy. Mas Wendy no acrescentou esse comentrio.
      - Isso  ridculo;
      Michael levantou-se e andou pelo jardim estreito e bem cuidado, as lajes 
de pedra bastante quentes sob seus ps. Era setembro, mas ainda fazia calor 
em Nova York. Depois das primeiras semanas felizes de romance, ele e Wendy 
haviam passado um vero, difcil. Michael passara a maior parte do tempo 
trabalhando, mas haviam conseguido pelo menos um fim de semana em Long, 
Beach.
      -Alm do mais, o que est esperando de mim? Pensei que tivssemos 
deixado isso bem claro desde o incio. Eu lhe disse expressamente que no 
queria...
      - Voc me disse que no, queria envolver-se demais, que tinha medo, de 
ficar ainda mais magoado. No, tinha certeza se queria casar-se algum dia. 
Nunca me disse que tinha medo de estar vivo, que tinha medo de gostar, que 
tinha medo de ser um ser humano. Passa mais tempo com seu ditafone do que 
comigo. Michael. E provavelmente trata melhor ao ditafone.
      - E da?
      Wendy sentiu um calafrio, subir pela espinha enquanto, observava o 
rosto dele. Michael realmente no se importava. E ela estava louca para ficar 
com ele. Havia algo, em Michael, uma beleza estranha, uma fora intensa, uma 
tristeza profunda, que a atraa como um m. E mais do que isso, ela podia 
sentir como era grande angstia dele, a carncia. Queria atingi-lo bem fundo, 
mostrar-lhe que era amado. Mas Michael no se importava. Ela no era Nancy. 
E ambos sabiam disso.
      Wendy levantou-se em silncio, e saiu do jardim, entrando no 
apartamento a fim de que ele no visse as lgrimas brilhando em seus olhos. Na 
cozinha,  serviu-se de outro Bloody Mary e ficou parada ali por um momento, os 
olhos fechados, o corpo tremendo, desejando poder alcan-lo, finalmente 
encontra-lo. Mas estava comeando a pensar que isso jamais seria possvel. 
Michael nunca mais se abriria para qualquer pessoa.
      Ela tomou todo o drinque em goles grandes e ps o copo vazio em cima 
da pia, enquanto sentia as mos de Michael flutuarem gentilmente sobre sua 
pele bronzeada. Wendy passava todo os fins de semana no jardim, bronzeando-
se sozinha. Michael nada disse naquele momento, continuando parado, logo 
atrs dela. Wendy podia sentir o calor do corpo dele. Queria-o, 
desesperadamente, mas estava cansada de Michael saber disso e poder t-la 
sempre que desejava. J estava na hora de ela comear a tornar as coisas um 
pouco mais difceis para ele.
      - Eu a quero, Wendy.
      Todo o corpo dela ansiava por aquelas palavras, mas no iria entregar-se. 
Permaneceu de costas para ele, odiando a suavidade das mos dele a 
acariciarem suas costas e as ndegas, dando a volta para frente e subindo para 
os seios.
      - Como, voc disse antes: e da?
      - Sabe que no posso agentar esse tipo de presso. A voz de Michael 
era to suave quanto a pele de Wendy.
       - No,  presso Michael.  amor. E o mais triste  que voc no 
conhece a diferena. Era assim tambm com ela?
      Wendy sentiu as mos dele pararem de repente, os braos ficarem 
rgidos. Mas ela no podia deter-se agora. Queria feri-lo fundo, tambm.
      - Tambm tinha medo de am-la? Agora no, precisa amar ningum e 
pode passar o resto de sua vida escondendo-se por trs da tragdia do quanto 
sente saudade dela. Isso resolve todos os seus problemas, no  mesmo?
      Ela virou-se lentamente para fit-lo, e descobriu que os olhos dele 
transbordavam de dio.
      - Como pode dizer uma coisa dessas? Como se atreve?
      Por um momento Michael pareceu a Wendy como a me dele, quase to 
implacvel, quase to cruel. Mas no o bastante. Ningum podia igualar Marion.
      - Como tem coragem de distorcer dessa maneira as coisas que lhe 
contei?
      - No estou distorcendo coisa alguma, apenas perguntando. Se estou 
enganada, lamento muito. Mas estou comeando a duvidar da possibilidade de 
estar enganada.
      Wendy encostou-se na pia, olhando, para ele. Michael agarrou-a 
subitamente pelos ombro,s e puxou-a para si.
      - Michael...
      Mas ele no, disse nada, apenas comprimiu a boca contra a dela, ao 
mesmo, tempo, em que arrancava a parte de cima do biquni. Depois, puxou com 
toda fora a parte de baixo, que no mesmo instante saiu em sua mo. Os fechos 
dourados nos lados haviam quebrado. A esta altura, Wendy j estava 
alcanando o cho da cozinha, nos braos dele, odiando mais a si mesmo do que 
o odiava, por saber no fundo do corao que era justamente o que estava 
querendo. Pelo menos Michael estava vivo, pelo menos estava fazendo amor com 
ela, qualquer que fosse o motivo, o que quer que custasse. Mas custava muito e 
Wendy sabia disso. Estava custando uma parte de sua alma.
      E dez minutos depois ainda estavam deitados no cho da cozinha, 
ofegantes e cobertos de suor. Wendy podia ouvir o tique-taque do relgio da 
cozinha no silncio. Michael no disse nada. Apenas olhava para o jardim, 
parecendo estranhamente triste.
      - Voc est bem?
      Michael  que deveria estar fazendo essa pergunta, mas foi ela quem a 
formulou. Todo o caso era uma loucura total e Wendy sabia disso, mas nada 
podia fazer para se conter. s vezes, ela se perguntava o que aconteceria 
quando acabasse. Talvez ele mandasse Ben Avery despedi-la. Ela quase que 
esperava por isso.
      - Michael...        
      - Hum? Eu... eu sinto muito, Wendy. H ocasies em que me comporto 
como um asno incomparvel.
      Havia lgrimas brilhando nos olhos dele.
      - No tenho certeza se posso discordar dessa declarao. 
      Wendy fitou-o com um sorriso triste e depois beijou-o na ponta do 
queixo. - Mas eu o amo, apesar de tudo.
      - Pode conseguir alguma coisa melhor, Wendy. - Pela primeira vez em 
meses, Michael contemplou-a e parecia estar realmente vendo-a. - H ocasies 
em que odeio a mim mesmo pelo que lhe estou fazendo. Mas eu...
      Michael no conseguiu continuar e Wendy ps um dedo sobre os lbios 
dele.
      - Eu sei.
      Ele assentiu silenciosamente e levantou-se, enquanto Wendy continuava 
a fita-lo do cho da cozinha.
      - Michael...
      - O que ?
      O rosto dele estava agora mais suave do que meia hora antes. No final 
das contas, Wendy fizera algo por ele.
      - Ainda sente saudade dela durante todo o tempo? Michael esperou por 
um longo momento antes de assentir, com expresso angustiada nos olhos. E 
depois, sem dizer mais nada, ele foi para o quarto, a fim de se vestir. Wendy 
levantou-se lentamente. No se preocupou com o biquni arrebentado. Afinal, j 
lhe servira bastante durante todo o vero e os pequenos fechos dourados 
provavelmente no poderiam ser consertados. Sentou-se, nua, num dos bancos. 
do bar que separava a cozinha da sala, pensando no que vira nos olhos de 
Michael. Quando ele voltou  cozinha, alguns momentos depois, encontrou-a 
ainda sentada ali, imersa em seus pensamentos. Wendy levantou a cabea e no 
instante seguinte ficou pesarosa, ao v-lo usando jeans e uma camisa branca 
apertada no pescoo. Michael segurava sua pasta numa das mos e uma suter 
na outra. A pasta revelou a Wendy que ele iria mesmo para o escritrio, apesar 
de tudo, apesar de ser um domingo..O suter servia para indicar que ele ficaria 
no escritrio at tarde.Nenhuma das duas coisas era uma boa notcia para 
Wendy.
      - Vai voltar mais tarde?        
      Wendy odiou a si mesma pela pergunta. Estava pedindo... suplicando. E o 
pior  que Michael estava sacudindo a cabea negativamente.
      - Provavelmente vou trabalhar at duas ou trs horas da madrugada e 
depois irei para o meu apartamento. De qualquer forma terei de estar l pela 
manh a fim de me vestir.
      O momento de suavidade de minutos antes havia desaparecido. Era 
novamente o mesmo Michael de antes, sempre fugindo. Wendy j o havia 
perdido nos 10 ou 15 minutos que haviam transcorrido desde que tinham feito 
amor. Era uma situao sem esperana, mas ela detestava ter de renunciar  
luta. Aquele tipo de rejeio s servia para faz-la querer tentar ainda mais 
arduamente, dar ainda mais de si.
      - Ento at amanh, no escritrio. 
      Ela se esforou em no parecer desolada, tentou at mesmo sorrir 
enquanto o acompanhava at a porta. Mas sentiu-se satisfeita quando Michael 
deixou-a rapidamente, roando os lbios por sua testa e partindo sem olhar 
para trs, porque ela j estava chorando ao fechar a porta. Michael Hillyard 
era uma causa perdida.
      
      
      
      
      
    

Captulo 16
      
      Os campos passavam velozmente por eles, enquanto Peter calcava at o 
fundo o acelerador do Porsche preto. Era uma sensao deliciosa, quase como 
voar. E no havia mais ningum na estrada. Agora, saam para um passeio quase 
todos os domingos. Peter pegava-a por volta das 11 horas e seguiam para o sul, 
to longe quanto queriam. Acabavam parando em algum lugar para almoar e 
depois passeavam por algum tempo de mos dadas, rindo das histrias do 
passado que ambos contavam. Finalmente voltavam para casa. Era um ritual que 
Nancy passara a adorar. E, de maneira estranha, estava comeando tambm a 
am-lo. Peter era agora uma pessoa muito especial em sua vida. Estava-lhe 
devolvendo todos os seus sonhos, assim como lhe proporcionava alguns novos.
      Naquele dia haviam parado perto de Santa Cruz, em um pequeno 
restaurante  beira da estrada, decorado como uma estalagem francesa. 
Haviam almoado quiche e salada nioise, junto com vinho branco bastante 
seco. Nancy estava comeando a se acostumar a refeies como aquela. Era 
algo muito longe da Nova Inglaterra, feiras rurais e contas azuis. Peter 
Gregson era um homem de considervel sofisticao. O que era uma das coisas 
que Nancy gostava nele. Fazia com que ela se sentisse maravilhosamente 
frvola, mesmo com as ataduras e os chapus esquisitos. Mas j se podia agora 
ver mais um pouco de seu rosto. Toda a parte inferior do rosto estava acabada. 
Somente a rea em torno dos olhos ainda estava coberta por ataduras e 
esparadrapos, mas os culos ocultavam a maior parte. A testa tambm estava 
em grande parte coberta. Contudo, pelo que se podia ver, chegava-se  
concluso  de que Peter Gregson no apenas realizara um milagre, como 
tambm fizera um trabalho primoroso. A prpria Nancy estava consciente 
disso e o simples fato de saber como comeava a parecer proporcionava-lhe 
uma sensao de confiana cada vez maior. Usava agora os chapus em ngulos 
mais garbosos e passara a comprar roupas mais vistosas, de um corte mais 
sofisticado do que antes. Emagrecera mais trs quilos e parecia comprida e 
esguia, como um lindo gato da selva. E usava constantemente a sua nova voz. 
Estava gostando cada vez mais da nova pessoa em que se estava 
transformando.
      - Quer saber de uma coisa, Peter? Estive pensando em mudar meu nome.
      Nancy fez tal declarao com um sorriso tmido, ao tomar um gole de 
vinho. Por algum motivo, a idia parecera menos absurda ao conversar a 
respeito com Faye. Agora, arrependeu-se no mesmo instante por ter abordado 
o assunto. Mas Peter prontamente deixou-a  vontade.
      - Isso no me surpreende. Voc  agora uma moa inteiramente nova, 
Nancy. Por que no um novo nome? J lhe ocorreu algum nome especial?
      Peter fitou-a afetuosamente, enquanto acendia um Don Diego da 
Dunhill's. Nancy passara a gostar do aroma deles, especialmente depois de uma 
boa refeio. Peter a estava introduzindo s melhores coisas da vida. Era uma 
maneira deliciosa de amadurecer.
      - E ento, quem  a minha nova amiga? Como ela se chama?
      - Ainda no tenho certeza, mas estou pensando muito em adotar  nome 
de Marie Adamson. O que acha?
      Peter pensou por um momento e depois assentiu.
      - Nada mau... para dizer a verdade, gosto bastante. Muito mesmo. Como 
lhe ocorreu?        
      - O nome de solteira de minha me e o nome de minha freira predileta.
      - Mas que, combinao extica!
      Ambos riram e Nancy recostou-se na cadeira com um sorriso satisfeito. 
Marie Adamson. Ela gostava muito de seu novo nome.
      Observando-a atravs do vu de..fumaa azul, Peter indagou:
      - E quando est pensando em mudar o nome?
      - No sei. Ainda no decidi.
      - Por que no comea a us-lo imediatamente? Experimente para ver se 
lhe agrada. Poderia, por exemplo, usa-lo em seu trabalho.
      Peter parecia excitado com a idia. Sempre se mostrava excitado 
quando conversava a respeito do trabalho dela ou de seu prprio. E para 
surpresa e prazer de Nancy, encarava o trabalho dela,  mesma luz que o dele, 
como se fossem igualmente importantes.  Aprendera a respeitar 
profundamente o talento de Nancy.
      - Falando srio, Nancy, por que no comea logo?
      - A assinar Marie Adamson nos trabalhos que lhe dou? Nancy achava 
divertida a maneira sria com que ele encarava tudo o que ela fazia. Peter e 
Faye eram as nicas pessoas que conheciam o seu trabalho.
      -Pode alargar um pouco seus horizontes.
      No era um assunto novo entre os dois. Nancy levantou a mo, e sacudiu 
a cabea firmemente, sorrindo.
      - No comece novamente.
      - Vou continuar a insistir at que seja um pouco mais sensata no assunto, 
Nancy. No pode ficar-se escondendo para sempre.  uma artista, quer 
trabalhe com tintas ou com filmes.  um crime esconder seu trabalho da 
maneira como est fazendo. Tem de realizar uma exposio.
      - No. Nancy tomou outro gole de vinho e contemplou a vista. - J tive 
todas as exposies que desejava.
      - Isso  timo... eu a recupero inteiramente para que se esconda num 
apartamento pelo resto da vida, tirando fotografias para mim.
      - um destino to terrvel assim?
      - Para mim, no. - Ele sorriu gentilmente e segurou-lhe a mo. - Mas para 
voc, , sim. Tem talento demais, no deve ser avara com ele. No o esconda. 
No faa isso a si mesma. Por que no faz uma exposio com o nome de Marie 
Adamson? Poderia assim manter o anonimato. Se no gostar da exposio ou do 
que lhe acarretar, risque o nome de Marie Adamson e volte a tirar fotografias 
para mim. Mas pelo menos faa uma tentativa. At mesmo Greta Garbo foi um 
sucesso antes de se tornar uma reclusa. D a si mesma pelo menos uma chance.
      Havia um tom de splica na voz de Peter que a atraiu. E Peter tinha 
razo ao alegar o anonimato de seu novo nome. Talvez isso fizesse toda a 
diferena. Mas Nancy ainda sentia que haviam passado por aquilo mil vezes 
antes, sem que houvesse qualquer concluso. Algo nela resistia  idia de se 
tornar novamente uma artista profissional. Fazia com que se sentisse 
vulnervel. Fazia-a... pensar em Michael.
      - Vou pensar a respeito.
      Era a resposta mais positiva que Peter j obtivera em relao a tal 
assunto, o que o deixou satisfeito. 
      - Espero que acabe se decidindo favoravelmente. .. Marie.
      Peter fitou-a com um sorriso radiante e ela no pde deixar        de rir.        
      -  uma sensao estranha ter um novo nome.
      - Por qu? Tem um novo rosto. Tambm estranha isso? 
      - No. Ou pelo menos no mais. Graas a Faye e a voc consegui 
acostumar-me.
      A maioria das mulheres daria o brao direito para se acostumar quele 
rosto e ela sabia disso.
      - Devo comear a cham-la de Marie?
      Peter estava apenas provocando, at ver uma nova luz nos olhos dela. 
Era um brilho travesso, maravilhoso, de vida a borbulhar.
      - Para ser franca... deve. Acho que vou fazer a experincia.
      - Certo, Marie. Se eu cometer um deslize, pode dar-me um piso no p.
      - No h problema. Em vez disso, vou acert-lo na cabea com a minha 
cmara.
      Peter pediu a conta e trocaram um sorriso prolongado e terno. Depois, 
passaram pela pequena cidade  beira do mar, espiando as lojas, embrenhando-
se pelas vielas estreitas, entrando em galerias quando encontravam alguma 
coisa que lhes parecesse interessante. E por toda parte onde iam Fred corria 
logo atrs deles, igualmente acostumado ao ritual do domingo. Ele sempre 
esperava no carro enquanto os dois almoavam e os acompanhava nos passeios a 
seguir.
      - Cansada?
      Peter fitou-a atentamente, depois que j estavam passeando h uma 
hora. Embora ela estivesse gradativamente aumentando a sua resistncia, 
Peter sabia, mais que qualquer outra pessoa, como se cansava facilmente. Nos 
dezessete meses que haviam transcorrido desde o acidente, Nancy fora 
submetida a quatorze operaes. Mais outro ano se passaria antes que ela 
voltasse a ser como antes. Mas quem no a conhecesse bem, no iria suspeitar 
de suas fadigas ocasionais. Nancy sempre parecia bastante animada, mas uma 
hora de passeio ainda lhe exigia muito esforo.
      - J quer voltar? .
      - Por mais que eu deteste admitir, quero, sim.
      Ela assentiu tristemente, enquanto Peter lhe pegava a mo. - Daqui a um 
ano, Marie, vai conseguir vencer-me em qualquer corrida.
      Ela riu, tanto da idia como da maneira fcil com que ele usou seu novo 
nome.
      - Aceitarei isso como um desafio.
      - Infelizmente, creio que vai ganhar. Possui uma grande vantagem do seu 
lado.
      - Qual ?
      - A juventude.
      - O que voc tambm tem.
      Ela falou fervorosamente, provocando uma risada de Peter, que sacudiu 
lentamente a cabea bonita.
      - Espero que me encare sempre atravs de olhos to generosos, minha 
cara.
      Mas quando ele virou a cabea, havia uma sombra de tristeza a lhe 
toldar os olhos. Ela apenas vislumbrou, mas j conhecia o problema. No havia 
como negar a diferena de idade entre os dois. No importava o quanto se 
gostassem, quo ntimos se houvessem tornado, no se podia negar a diferena, 
de vinte e trs anos que os separava. Mas Nancy descobrira que no se 
importava com isso, at mesmo gostava. J o dissera antes a Peter e algumas 
vezes ele chegara a acreditar. Tudo dependia do nimo em que estivesse no 
momento. Mas ele jamais admitia o quanto isso o perturbava. Nancy era a 
primeira moa que o fizera querer ser jovem novamente, livrar-se de uma 
dcada ou talvez duas em sua idade. Haviam sido dcadas que ele apreciara 
intensamente, mas que descobria agora serem um fardo incmodo diante da 
juventude dela.
      - Nancy...
      O novo nome havia sido subitamente esquecido, enquanto ele a fitava 
com extrema seriedade, uma indagao em seus olhos. 
      - O que ?
      - Voc... ainda sente saudades dele?
      Havia tanta angstia nos olhos de Peter ao fazer a pergunta que ela 
sentiu vontade de abra-lo e dizer-lhe que estava tudo bem. Mas tambm no 
podia mentir para ele. Ficou surpresa ao descobrir que a pergunta lhe trouxe 
lgrimas aos olhos, enquanto assentia e dava de ombros.
      - s vezes. Nem sempre.
      Era uma resposta sincera.
      - Ainda o ama?
      Nancy fitou-o firmemente nos olhos, antes de responder:
      - No sei. Lembro-me dele como era, de ns como ramos. Mas nada 
disso continua a ser real. No sou mais a mesma pessoa e ele tambm no pode 
ser. O acidente deve ter deixado nele uma marca profunda. Talvez, se 
voltssemos a nos encontrar, acabssemos por descobrir que nada mais restou 
do que tnhamos juntos.  algo muito difcil de dizer. A gente fica apenas com 
sonhos do passado. H ocasies em que eu gostaria de tornar a encontr-lo s 
para deixar tudo para trs. Mas eu acabei chegando  concluso... de que nunca 
mais voltarei a v-lo.
      Ela falou com dificuldade, mas tambm incisivamente. Fez uma pausa, 
antes de arrematar:
      - E por isso tenho simplesmente de esquecer os sonhos. - O que no se 
consegue facilmente. A angstia nos olhos de Peter era agora ainda maior. De 
repente, Nancy comeou a se perguntar se ele no teria passado por alguma 
experincia similar. Talvez fosse por isso que ele sempre compreendera o que 
ela sentia.
      - Peter, por que nunca se casou? - Os dois estavam agora caminhando 
lentamente pela praia, com Fred em seus calcanhares, inteiramente esquecido. 
- Ou no devo perguntar?
      - No, pode perguntar. Acho que foi por muitas razes aparentemente 
sensatas. Sou egocntrico demais. Sempre andei muito ocupado com meu 
trabalho, que me absorveu totalmente a vida. Tudo isso e mais alguma coisa: 
sempre estou em movimento, no sou o tipo de homem de se acomodar.
      - No sei por que, no acredito nessas alegaes.
      Nancy fitou-o atentamente e ele sorriu.
      - Tambm no acredito. Mas h um pouco de verdade em todas as 
alegaes. - Peter fez uma pausa que parecia interminvel e depois suspirou. - 
H outras razes tambm. H doze anos, apaixonei-me por algum. Era uma 
paciente quando nos conhecemos e senti-me profundamente atrado. Mas evitei 
qualquer envolvimento pessoal. Ela nunca soube o que eu sentia at... at muito 
mais tarde. E parecamos fadados a estar nos encontrando constantemente. Em 
cada festa, jantar, em todas as reunies sociais ou profissionais.  que o 
marido dela tambm era mdico. Pois ela era casada. Resisti  "tentao", como 
se poderia dizer, durante um ano. E depois no consegui mais. Ns nos 
apaixonamos e passamos a nos encontrar em segredo. Foi maravilhoso.Falamos 
em nos casar, fugir juntos, ter um filho. Mas nunca o fizemos. Queramos 
simplesmente que tudo continuasse como estava. E foi o que aconteceu, por 
doze anos. No posso compreender como conseguimos manter nosso 
relacionamento por tanto tempo, mas imagino que  assim mesmo que as coisas 
acontecem. Vo simplesmente continuando e continuando at que um dia a 
gente acorda e descobre que j se passaram dez anos. Ou onze ou doze anos. 
Continuamos a. encontrar motivos para no nos casarmos, para que ela no se 
divorciasse... por causa do marido'dela, minha carreira, sua famlia. Havia 
sempre motivos. Talvez preferssemos da maneira como era. No sei direito. 
Peter jamais admitira aquilo antes e Nancy ficou a observ-lo atentamente 
enquanto ele falava. Peter olhava para o horizonte e parecia estar a mil 
quilmetros de distncia dali, mesmo enquanto falava com ela.        
      - Por que no pararam de se ver? Ou... Talvez tivessem. Nancy corou 
quando o pensamento lhe ocorreu. Talvez estivesse se intrometendo. Era 
possvel que houvesse muita coisa na vida, de Peter que ela no conhecia e no 
tinha o direito de inquirir. Nunca pensara nisso antes.
      - Desculpe. Eu no deveria ter perguntado.         
      - No diga bobagem. - Os olhos e pensamentos de Peter voltaram a se 
concentrar nela, com a gentileza habitual. - No h nada que no possa me 
perguntar. No, ela morreu. H quatro anos, de cncer. Passei a maior parte do 
tempo a seu lado, exceto no ltimo dia. Acho... acho que Richard j sabia de 
tudo, ao final. Mas no tinha mais qualquer importncia. Ambos a tnhamos 
perdido. Tenho a impresso de que ele estava grato pelo o fato de ela no t-lo 
deixado anos antes. Ns a choramos juntos. Era uma mulher extraordinria... 
muito parecida com voc.
      Havia lgrimas nos olhos dele quando olhou para Nancy. Ela sentiu que as 
lgrimas tambm, afloravam a seus prprios olhos. Sem pensar, Nancy levantou 
a mo e gentilmente removeu as lgrimas do rosto dele. Depois, sem retirar a 
mo de seu rosto, inclinou-se e beijou-o suavemente, nos lbios. Ficaram 
parados ali por longo momento, em silncio, os olhos fechados. E depois ela 
sentiu que os braos de Peter a enlaavam. Foi invadida por uma sensao de 
paz como h mais de um ano no sentia. Peter beijou-a com a paixo acumulada 
de quatro anos. Ele tivera outras mulheres depois que Lvia morrera, mas no 
amara a nenhuma. At conhecer Nancy.
      - Sabe que eu a amo?
      Peter deu um passo para trs e fitou-a com um sorriso que ela nunca 
vira antes. F-la sentir-se ao mesmo tempo feliz e triste porque no tinha 
certeza se j estava preparada para lhe dar tudo o que estava recebendo. Ela o 
amava, mas no... no da maneira como os olhos de Peter diziam que ele a 
amava.
      - Eu tambm o amo, Peter.  minha maneira peculiar. - O que  
suficiente, por enquanto.
      Livia tambm lhe dissera a mesma coisa, no incio. Havia ocasies em que 
era assustador como as duas se pareciam.
      - Faye ajudou-me muito quando ela morreu. Foi por isso que pensei que 
Faye poderia tambm ajud-la.
      Faye o ajudara tambm por outros meios, mas isso no importava, no 
agora.
      - E tinha toda razo, Peter. Ela tem sido maravilhosa. Os dois tm sido. 
Nancy pegou a mo dele e comearam a subir pela praia. 
      - Peter... eu... eu no sei como dizer isso, mas... no quero mago-la. Eu o 
amo, mas ainda estou presa ao meu passado. Tenho de me libertar, pouco a 
pouco, passo a passo. Pode demorar ainda algum tempo.
      - No estou com pressa. Sou um homem de extrema pacincia.
      - O que  timo, pois quero que esteja a meu lado quando eu estiver 
preparada.
      - Pode estar certa de que ir me ver a seu lado. No se preocupe com 
isso.
      E a maneira como ele falou fez com que Nancy se sentisse feliz e 
satisfeita. Perguntou se no seria possvel que o amasse mais do que imaginava. 
E enquanto caminhavam pela praia ocorreu-lhe um pensamento sbito. 
Assustou-a e ao mesmo tempo excitou-a. Mas ela sabia que queria faz-lo. 
Peter percebeu o brilho nos olhos dela quando o fitou, ao voltarem para o 
carro.
      - E o que exatamente tem escondido na manga?
      - No importa.
      - Oh, o que vai ser agora? - Algumas semanas antes, ela lhe telefonara 
ao amanhecer, para dizer que ele tinha de se levantar para contemplar o 
maravilhoso nascer do sol. - Nancy... no, Marie. Daqui por diante,  Marie e 
apenas Marie. Mas diga-me uma coisa: Marie  to extravagante quanto Nancy?
      - Mas ainda. Ela tem todos os tipos de novas idias.
      -Oh, no! Por favor, me poupe! - Mas Peter no dava a impresso de que 
queria mesmo ser poupado. Jamais. - No quer dar alguma pista do que est 
pensando? S uma pequena indicao?
      Mas ela se limitou a sacudir a cabea e rir, enquanto Fred pulava em seu 
colo e Peter ligava o motor.
      - Pois eu tambm tenho uma idia para voc. O trabalho em seu rosto 
ser feito no fim do ano. O que me diz de comear o novo ano com uma 
exposio de arfe fotogrfica de Marie Adamson? Concordaria com essa idia?
      - Pode ser
      Ela estava na verdade comeando a gostar da idia. Algo acontecera 
naquela tarde que a fazia sentir-se brava novamente. Talvez fosse por ter 
contado a Peter como se sentia em relao a Michael, por ter ouvido falar da 
mulher que ele amara... por         estar nos braos dele, sendo de novo beijada 
por um homem.
      Vou pensar nessa exposio.
      - Pensar, no, tem de prometer. Na verdade... - Peter tirou a chave da 
ignio, meteu-a debaixo do seu corpo no assento e virou-se para ela, sorrindo. 
- No vou lev-la para casa at concordar com a exposio. E espero que seja 
uma dama para no lutar comigo a fim de pegar a chave.
      - Est bem. Voc venceu. - Ela afagou o plo de Fred e soltou uma 
risada. - Eu desisto. Farei a exposio.
      - To fcil assim?
      Peter estava surpreso.
      - To fcil assim. Mas como vou poder aparecer pessoalmente na 
exposio?
      - Deixe isso comigo. Negcio fechado?
      - Fechadssimo
      Ela confiava nele com seu trabalho, assim como confiara com seu rosto e 
sua vida.
      - Garanto que no vai-se arrepender, querida. Gentilmente, Peter pegou 
o rosto dela entre as mos, beijou-a e depois tornou a ligar o carro. Fora um 
dia maravilhoso.
      Voltaram para casa lentamente pela costa. Foi com pesar que Peter 
parou o carro diante do prdio dela, s seis horas. Detestava ver aquele dia 
terminar, mas queria que ela descansasse.
       - Muito bem, minha jovem, tenha um sono tranqilo esta noite. Quero 
v-la amanh bem cedo no consultrio, alegre e viosa.
      Ele iria remover mais ataduras no dia seguinte e mais duas operaes 
estavam marcadas para os prximos dois meses. Em dezembro a cirurgia j 
estaria encerrada e ela seria "descoberta" em janeiro.
      - No quer subir?
      Ela no tinha realmente certeza se queria que ele subisse e ficou 
aliviada quando Peter disse que no.
      - Vamos jantar em algum dia desta semana. At l, j terei notcias para 
lhe dar a respeito da exposio.
      - No ficarei desapontada se no tiver.
      Peter sorriu e ela e Fred saltaram do carro. Nancy acenou ao se 
encaminhar para o prdio. Mas j estava pensando em outra coisa. Pensara a 
respeito na praia, ao se encaminharem para o carro, sabia agora que era algo 
que tinha de fazer. Algo que queria fazer. Foi diretamente para o armrio, sem 
tirar o casaco, remexeu atrs das roupas at encontrar. Tirou e ficou olhando 
por longo momento, antes de abrir. Estava coberto de poeira e ela sentia medo 
de abrir, mas tinha de faz-lo. Lentamente, puxou o zper e o portflio preto 
abriu-se a seus ps, revelando esboos, alguns quadros pequenos, trabalhos por 
terminar. O que estava procurando encontrava-se no alto da pilha. Sentou-se 
no cho e ficou contemplando o trabalho, pensativa. Tencionara d-lo a Michael 
como presente de casamento, um ano e meio antes. A paisagem com o menino 
escondido na rvore. Ficou sentada no cho, olhando para o quadro, as lgrimas 
escorrendo lentamente por suas faces. Levara dezoito meses para enfrentar 
novamente aquele trabalho. Mas tinha conseguido faze-lo agora e ia terminar o 
quadro. Para Peter.
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 17
      
      Era um dia frio, mas agradvel. Marie baixou a aba do chapu, levantou a 
gola do casaco vermelho de l e percorreu rapidamente os ltimos quarteires 
at o consultrio de Faye Allison, Fred estava a seu lado, como sempre, a 
coleira e a correia exatamente do mesmo tom de vermelho do casaco. Nancy 
sorriu para o cachorro, ao virarem a ltima esquina. Ela estava bastante 
animada, com uma disposio que nem mesmo o nevoeiro conseguia arrefecer. 
Subiu correndo os degraus do consultrio de Faye e entrou.
      - Ei, cheguei!
      A voz ressoou pela casa simptica e aconchegante e um momento depois 
houve uma pronta resposta l de cima. Marie tirou o casaco. Estava usando um 
vestido branco simples, de l, com o broche de ouro que Peter lhe dera alguns 
meses antes. Quase que distraidamente, ela se contemplou no espelho e ajeitou 
o chapu para um ngulo mais gracioso, sorrindo pelo que via. Os culos haviam 
finalmente desaparecido e podia contemplar olhos ao se ver no espelho. 
Somente uns poucos esparadrapos estreitos ainda permaneciam em seu rosto, 
no alto da testa. E esses tambm desapareceriam, dentro de poucas semanas. 
Estaria tudo acabado. O trabalho chegaria ao fim.
      - Est satisfeita com o que v, Nancy?
      Ela percebeu subitamente que Faye estava parada logo atrs, com um 
sorriso afetuoso no rosto. Assentiu.
      - Acho que estou. Agora, j estou at acostumada comigo mesma. Mas 
voc no est!
      Havia malcia em seus olhos quando se virou e olhou brejeiramente, para 
a amiga.
      - Como assim?
      - Continua a me chamar de "Nancy".  Marie agora, est lembrada? 
Oficialmente.
      - Desculpe. - Faye sacudiu a cabea e levou-a para a sala aconchegante 
onde sempre conversavam. - Estou sempre me esquecendo.
      - Exatamente. - Mas Marie no parecia aborrecida ao acomodar-se em 
sua poltrona predileta. - Acho que  muito difcil romper com os velhos hbitos.
      O rosto dela se tornou sombrio ao pronunciar tais palavras e Faye 
esperou pelo resto dos pensamentos.
       - Estive pensando muito nisso ultimamente. Mas acho que finalmente 
consegui super-lo.
      Ela falou baixo, olhando para o fogo, com expresso pensativa. 
      - A Michael? - Marie limitou-se a assentir e depois finalmente virou a 
cabea, com expresso de intensa seriedade. - o que a leva a pensar que 
consegui super-lo, Marie?
      - Acho que tomei essa deciso. No tenho muita opo. A verdade, Faye; 
 que j se passaram quase dois anos desde o acidente. Para ser mais exata, 
dezenove meses. E Michael ainda no me encontrou. No disse  me que fosse 
para o inferno, que ele tinha de ficar a meu lado e nada mais importava. Em vez 
disso, ele simplesmente me deixou de lado. - Os olhos dela procuraram os de 
Faye e neles se fixaram. - Ele me largou. E agora tenho de larg-lo tambm.
      - No  fcil. Esperou muito dele e por muito tempo. 
      - Por tempo demais. E ele me abandonou.
      - E como isso a faz sentir-se em relao a si mesma? 
      - Acho que bem. Estou furiosa com ele e no comigo. 
      - No est mais zangada consigo mesma pelo acordo que fez com a me 
dele?
      Faye estava pressionando numa rea delicada e sabia disso, mas era um 
problema que no podia ser ignorado.
      - No tive alternativa.
      A voz de Marie era dura e fria.
      - Mas no censura a si mesma? 
      - Por que deveria faz-lo? Acha que Michael censura a si mesmo por 
ter-me abandonado? Por nunca ter-se dado ao trabalho de me procurar depois 
do acidente? Pensa que isso por acaso o faz passar as noites sem dormir?
      - Ainda faz voc passar as noites sem dormir, Nancy?  isso o que me 
interessa.
       - Marie, de uma vez por todas! E no, no faz. Decidi esquecer os 
sonhos. Tenho vivido com esse absurdo em mim por tempo demais.
      Ela parecia convincente, mas Faye ainda no tinha certeza absoluta de 
como a moa realmente se sentia.
      - E o que vai fazer agora?
      O que tomaria o lugar de Michael? Ou quem? Peter?
      - Agora vou trabalhar. Primeiro, vou tirar umas frias no sudoeste, 
durante os feriados de Natal. H algumas paisagens deslumbrantes, por l e 
quero fotograf-las. J fiz meus planos. Arizona, Novo Mxico. Posso at pegar 
um avio e passar uns dois dias no Mxico.
      Marie parecia satisfeita ao falar, mas ainda havia alguma dureza em seu 
rosto, mascarando uma tristeza. Acabara de sofrer outra perda, ao renunciar 
finalmente de modo completo  Michael. Levara muito tempo para chegar a 
esse ponto.
      - Vou passar cerca de trs semanas viajando. Com isso, terei resolvido o 
problema dos feriados de fim de ano.
      - E depois?        
      - Trabalho, trabalho e mais trabalho. Isso  tudo o que me preocupa no 
momento. Peter j providenciou a exposio para mim. Vai ser em janeiro. E  
melhor voc comparecer! 
      Faye sorriu.
      - Acha mesmo que eu perderia sua exposio por alguma coisa deste 
mundo?
      

      - Espero que no. J escolhi para a exposio alguns trabalhos que amo 
de verdade. Ainda no viu a maior parte. Nem Peter. Espero que ele tambm 
goste.
      - Peter vai gostar. Ele adora tudo o que voc faz. O que me leva a uma 
indagao, Nan... desculpe, Marie. E Peter?  Como se sente em relao a ele?
      Marie suspirou, tornou a olhar para o fogo.
      - Sinto uma poro de coisas diferentes em relao a Peter.
      - Voc o ama?        
      - De certa forma.
      - Ele pode algum dia substituir Michael em sua vida?
      - Talvez. Estou sempre tentando deixa-lo ocupar o lugar de Michael, mas 
algo sempre me impede. No estou ainda preparada. No sei, Faye... eu me sinto 
culpada por no ter dado mais a Peter. Ele faz tanto por mim... E... sei o quanto 
se preocupa comigo.
      - Ele  um homem muito paciente.
      - Talvez paciente demais. Tenho medo de mago-lo - Ela fitou 
novamente Faye nos olhos. Seus prprios conturbados. -Eu gosto muito dele. 
      - Ento simplesmente ter de conferir o que acontece. Talvez se sinta 
mais livre agora que decidiu deixar Michael sair de sua vida. - Faye percebeu 
que os msculos em torno da boca de Marie se contraram, quando ela ouviu tais 
palavras. - Marie? No vai renunciar s pessoas, no  mesmo? No vai 
renunciar ao amor?
      - Claro que no. Porque iria faze-lo?
      Mas a resposta foi apressada demais e excessivamente volvel.
      - No deve jamais fazer uma coisa dessas: Michael lhe falhou quando 
mais precisava dele,  verdade. Mas no se esquea de que ele  apenas um 
homem, no todos os homens.   algo que precisa sempre ter em mente. H 
algum neste mundo para voc. Talvez seja Peter, talvez seja algum outro 
homem.  unia moa muito bonita e est com 23 anos. Tem uma vida inteira pela 
frente.
      -  o que Peter tambm diz. - Mas Marie no dava a impresso de que 
acreditava nisso. E quando olhou novamente para Faye, foi com um sorriso 
nervoso, que procurava disfarar ao mesmo tempo o medo e o pesar. - Tomei 
tambm outra deciso.
       - Qual foi?
      - Em relao a ns. Acho que j consegui fazer o que precisava, Faye. 
Falei tudo o que queria por longo tempo. Agora, estou pronta a sair daqui,             
empenhar-me a fundo e vencer o mundo. 
      - Por que no simplesmente desfruta-lo?
      Havia alguma coisa na jovem que ainda preocupava Faye. Ela renunciara a 
alguma coisa. Havia algo em que ela no mais acreditava. Fora trada e, em 
certo sentido, estava desistindo. Estava disposta a lutar por seu trabalho, mas 
no por si mesma.
      - Voc recebeu um presente maravilhoso, Marie. O presente da beleza. 
No queira escond-lo por trs de uma cmara.
      Mas Marie a estava fitando com expresso dura e implacvel.
      - No foi um presente, Faye. Paguei por isso com tudo o que eu tinha.
      As duas trocaram votos de Feliz Natal quando Marie foi embora. Mas 
ainda havia um eco falso nas palavras, um vazio que ainda perturbava Faye, 
quando Marie Adamson ajeitou o chapu branco e deixou a casa com um aceno 
jovial para a sua amiga de dois anos e caminhando para nova vida, deixando para 
trs tudo o que outrora amara.
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 18
      
      Ao deixar o consultrio de Faye, Marie pegou um txi e seguiu direto 
para a Union Square. J fizera a reserva e tudo o de que precisava agora era 
passar na loja e pagar a passagem. Seria a primeira viagem que faria em anos, a 
primeira desde o fim de semana que passara com Michael nas Bermudas. Fora 
na Pscoa e... Ela forou o pensamento a deixar sua mente, enquanto o txi 
descia pela Post Street, no trfego intenso do centro da cidade. Fred estava 
sentado em seu colo, olhando para os carros que passavam e virando a cabea 
de vez em quando para fitar a dona. Podia sentir algo diferente. Havia uma 
vivacidade em Marie que at mesmo o cachorrinho podia perceber. Ela tirou um 
cigarro da bolsa e acendeu-o.
      - Est bom. aqui, moa?
      O motorista havia parado na esquina da Post com a Powell, perto do 
Saint Francis Hotel. Marie apressou-se em assentir.         
      - Est, sim
      Ela pagou a corrida, abriu a porta do txi e deixou Fred pular para a 
calada. Seguiu-o rapidamente, deixou o cigarro cair no cho e apagou-o com o 
p. A loja ficava a poucos passos de distncia e um momento depois ela estava 
l dentro. Para variar, no havia fila. Mas tambm ainda era cedo. Afinal, seus 
encontros com Faye eram sempre s 8h45min. Eram... tinham sido... Ela 
compreendeu mais uma vez que tudo acabara agora. Estava livre. No mais iria 
consultar uma psiquiatra. O pensamento deixou-a um pouco assustada. Sentia-
se tanto liberta como solitria, assim como comemorar e chorar ao mesmo 
tempo.
      - Em que posso servi-la? - A moa por trs do balco fitou-a com um 
sorriso, que Marie retribuiu. - Veio pegar passagens?
      - Exatamente. Fiz reserva na semana passada. Adamson. . . isto , 
McAllister.
      Era estranho usar novamente seu nome antigo. H dois meses que no o 
fazia. Mas at mesmo a viagem era simblica. Legalmente, seu nome s mudaria 
a 1. de janeiro. Ao voltar, no seria mais Nancy McAIlister, mas sim Marie 
Adamson. Para sempre. Mas quando partisse, ainda seria Nancy. Era quase 
como uma viagem de npcias, em que ela iria sozinha. Era o passo final no 
processo interminvel que se prolongara por quase dois anos. Marie Adamson ia 
finalmente nascer. Oficialmente. E Nancy McAllister poderia ser esquecida 
para sempre. Michael a esquecera; agora, ela poderia tambm esquecer-se a si 
mesma. No restava ningum para lembrar. Peter providenciara tudo. Ningum 
que a conhecera antes poderia reconhec-la agora. O rosto delicado e 
perfeitamente delineado era o de algum que outras mulheres sonhavam ser, 
mas no o de uma pessoa que ela tivesse conhecido ao longo dos ltimos 24 
anos. No era mais uma estranha, mas tambm no era Nancy McAllister. E a 
voz tambm era diferente, mais suave, mais profunda, mais controlada. Era 
uma voz sutil, com tons sensuais. Ela gostava da maneira como as pessoas a es-
cutavam agora, como se tivesse mais a dizer depois que passara a ter uma 
maneira diferente de falar. As mos eram graciosas e delicadas, os movimentos 
mais suaves e geis, depois das aulas de bal que Peter finalmente lhe 
permitira tomar, depois que o trabalho dele ficara bastante adiantado. O ioga 
acrescentara algo mais ao todo. E tudo contribua para rematar a imagem de 
Marie Adamson.
      - O preo  cento e noventa e seis dlares.
      A moa atrs do balco olhou para o computador e depois para a cliente 
de p a sua frente. No conseguia tirar os olhos dela. Tinha as feies 
perfeitas, um sorriso cativante, uma graciosidade que prendia a ateno de 
todos quando se movia. Tudo naquela mulher dava vontade de perguntar: "quem 
 ela?" Marie preencheu o cheque, recebeu a passagem e saiu para o sol de de-
zembro na Union Square. Levava Fred nos braos, a fim de que ele no se 
metesse entre suas pernas enquanto andava. Sorriu para si mesma ao 
atravessar a praa. Era um dia maravilhoso e ela tinha uma vida maravilhosa. Ia 
viajar durante os feriados de fim de ano, chegara ao fim daquelas operaes 
interminveis, estava comeando uma vida nova, uma carreira nova. Tinha um 
apartamento que amava, um homem a quem amava. No podia pedir muito mais. 
Entrou numa loja com um sorriso no rosto e passos vigorosos, decidida a 
comprar algo bonito para si mesma. Um presente de Natal para si. Ou talvez 
algo para a viagem. Vagueou de andar para andar da loja de departamentos, 
experimentando chapus, pulseiras, charpes, casacos, bolsas, um par de botas 
e um par de sapatos dourados. Finalmente se decidiu por uma suter branca de 
casimira, que a fez ficar parecendo com Branca de Neve, por sua pele sedosa e 
os cabelos pretos. A idia divertiu-a. E sabia que Peter iria gostar. A suter 
moldava seu corpo de forma bastante atraente. At mesmo seu corpo mudara 
ao longo do ltimo ano, com o bal e o jogo. Parecia ter-se tornado mais rijo e 
flexvel, fazendo-a parecer comprida e esguia, maravilhosamente esbelta.
      Marie desceu novamente para o andar principal, vendo os artigos em 
exposio, observando as pessoas. Parou novamente a fim de comprar uma 
caixa de bombons para Faye. Era um presente festivo apropriado para o ltimo 
dia de tratamento. Escreveu apenas no carto: "'Obrigada. Com amor, Marie." 
O que mais poderia dizer? Obrigada por ajudar-me a esquecer Michael? Obri-
gada por me ajudar a sobreviver? Obrigada... Enquanto se entregava a tais 
pensamentos, parou abruptamente. Parecia ter visto um fantasma. Quando a 
vendedora lhe devolveu o carto de crdito, ela continuou a olhar fixamente. 
Ben Avery estava parado a poucos passos de distncia, olhando algumas malas 
de mulher bastante caras. Marie permaneceu no mesmo lugar pelo que lhe 
pareceu uma eternidade. Depois, chegou mais perto. Tinha de v-lo, toc-lo, 
ouvir o que ele estava dizendo. Por um momento angustioso, perguntou-se se ele 
a reconheceria. Rezou para que tal acontecesse, mas no instante seguinte 
compreendeu que era impossvel e forou-se a ficar contente por isso. Assim, 
poderia observ-lo, ficar perto dele, por tanto tempo quanto desejasse. 
Perguntou-se se Ben teria visto Michael recentemente, se acabara aceitando o 
emprego na firma. Aproximou-se, do lugar em que estava Ben e fingiu examinar 
algumas pastas de camura. Os olhos dela no se afastavam do rosto de Ben. 
De repente, ele se virou para fit-la, exibindo seu sorriso jovial de sempre. 
Mas no houve qualquer brilho de reconhecimento. Em vez disso, ele a 
contemplou com admirao e depois estendeu a mo para, Fred.
      - Oi, companheiro.
      A voz era to familiar que Marie sentiu-se quase a desfalecer.
      Continuou parada onde estava sentindo o calor da mo de Ben a afagar o 
cachorro. Nunca teria imaginado que o simples fato de ver um amigo de Michael 
a deixaria assim. Mas era o primeiro vnculo que tinha com ele desde... Ela 
piscou os olhos rapidamente, para conter as lgrimas, depois olhou para as 
malas que Ben estivera examinando. Sem pensar, Marie levou a mo  corrente 
que Ben lhe dera no dia em que deveria casar-se e que ainda usava no pescoo.
      - Comprando presentes de Natal?
      Ela se sentiu meio tola ao puxar conversa daquela maneira, mas queria 
falar um pouco com Ben. Perguntou-se novamente se ele no iria reconhec-la, 
desta vez pela voz. Mas at mesmo ela sabia como sua voz soava diferente 
agora. E ele a presenteou novamente com o mesmo sorriso impassvel que dois 
estranhos costumam trocar.
      - Isso mesmo.  para uma jovem, mas no consigo decidir o que comprar.
      - Como  ela?
      - Sensacional.
      Marie no pde deixar de rir. Era o mesmo Ben de sempre.
      Ela sentiu vontade de perguntar-lhe se desta vez era a srio, mas sabia 
que no podia
      - Ela tem os cabelos vermelhos e ... mais ou menos de sua altura.
      Ele estava novamente contemplando Marie, os olhos percorrendo o corpo 
dela quase sofregamente. Marie no sabia se devia rir ou ficar perturbada. 
Aquela era uma atitude tpica de Ben.
      - Tem certeza de que ela est querendo uma mala?
      Parecia um presente inteiramente inspido para .Marie. Ela estava 
esperando ganhar algum presente mais cativante de Peter. Talvez uma nova 
lente.
      - Vamos fazer uma viagem juntos e por isso eu pensei... E a viagem  uma 
espcie de surpresa. Por isso, pensei em esconder as passagens na mala.
      Cerca de 500 dlares numa mala importada para esconder algumas 
passagens? Mas que extravagncia, Benjamin Avery! Os ltimos dois anos 
deviam ter sido muito bons para ele.
      - Ela  uma moa de sorte.
      - No. Eu  que sou um cara de sorte.
       - Por acaso  uma lua-de-mel?
      Marie ficou embaraada por sua bisbilhotice, mas era maravilhoso 
receber todas aquelas notcias dele. E talvez... talvez Ben pudesse... Ela 
manteve o sorriso frio, simptico e impessoal, enquanto ele sacudia a cabea.
      - No.  apenas uma viagem de negcios. Mas ela ainda no sabe disso. E 
ento, qual  sua opinio? Levo a mala de camura marrom ou aquela verde 
escura?
      - A de camura-marrom, com a listra vermelha. Acho que  maravilhosa.
      - Tambm acho.
      Ben concordou alegremente com a escolha de Marie e fez sinal para a 
vendedora. Comprou trs malas da mesma coleo e pediu que fossem enviadas 
de avio para Nova York. O que significa que era l que ele estava morando. O 
que deu o que pensar a Marie.
      - Obrigado pela ajuda, Miss...
      - Adamson. Gostei muito de nossa conversa e peo desculpas se fiz 
perguntas demais.  que os feriados de fim de ano sempre produzem um 
estranho efeito em mim.
      - Em mim tambm. Mas isso  compreensvel, por que  uma das pocas 
mais agradveis do ano. At mesmo em Nova York, o que j  dizer muito.
      - Mora em Nova York?
      - Quando estou em casa. Viajo constantemente, em funo de meu 
trabalho.
      O que ainda no dizia a Marie se ele estava trabalhando para Michael. 
Mas ela sabia que no podia perguntar. E subitamente, isso a deixou angustiada, 
estar parada ali, to perto de Ben, querendo saber de algum que no mais 
existia para ela... ou no deveria existir. Ben contemplou-a novamente, como se 
houvesse alguma coisa nela que o perturbava. Por um momento, Marie sentiu o 
corao parar. Mas o sorriso dele mostrava que no tinha a menor idia de 
quem ela era. Marie puxou um pouco o chapu para certificar-se de que ele no 
poderia ver o ltimo esparadrapo que ainda tinha no rosto. Apertou Fred um 
pouco mais nos braos, enquanto Ben continuava a fita-la.
      - Sei que  uma loucura perguntar isso, mas. .. posso convid-la para 
tomar um drinque em algum lugar? Meu avio vai partir dentro de algumas 
horas, mas podemos dar um pulo at o St. Francis, se...
      Marie retribuiu o sorriso, mas j estava sacudindo a cabea.
       - Infelizmente, tambm tenho de pegar um avio. De qualquer forma, 
obrigada pelo convite, Mr. Avery.
      E nesse momento o sorriso de Ben dissipou-se lentamente. - Como soube 
o meu nome?
      - Ouvi a vendedora dz-lo.
      Ela deu a resposta prontamente e Ben deu de ombros, passando a fit-la 
com pesar. Era uma jovem extraordinariamente bonita. E no importava o 
quanto ele passara a amar Wendy nos trs meses em que mantinham um 
romance, ainda podia tomar um drinque com uma moa bonita. Era uma pena que 
ela tambm estivesse deixando a cidade. E depois um pensamento ocorreu-lhe.
      - Para onde est indo, Miss Adamson?
      - Santa F, Novo Mxico.
      Ben pareceu ficar desapontado como um colegial, e ela riu da expresso 
dele.
      -  uma pena. Eu estava torcendo para que fosse tambm para Nova 
York. Poderamos pelo menos desfrutar o vo juntos.
      - Tenho certeza de que a jovem que vai ganhar as malas h de apreciar 
uma viagem em sua companhia.
      Os olhos dela eram de censura, mas sem exagero. Os dois ri.ram desta 
vez.
      - Touch. Talvez na prxima vez possamos voar juntos. - Vem a So 
Francisco com freqncia?
      Marie estava intrigada.
      - No, mas passarei a vir. - E depois, olhando para as malas e sorrindo, 
Ben acrescentou: - Ns passaremos a vir. Minha firma est iniciando um grande 
projeto aqui. Provavelmente passarei mais tempo em So Francisco do que em 
Nova York.
      - Ento  possvel que voltemos a nos encontrar.
      Mas a voz dela soava quase triste. No final das contas, era apenas Ben. 
No importava com que freqncia o visse, ele jamais poderia ser Michael. A 
vendedora interrompeu seus devaneios e Marie compreendeu que j estava na 
hora de ir embora. Ficou olhando para Ben, enquanto ele preenchia o cheque no 
valor indicado pela vendedora. Depois, silenciosamente, apertou o brao dele. 
Ben virou a cabea, surpreso, e Marie sussurou, a voz quase inaudvel
      - Feliz Natal.
      E no instante seguinte afastou-se do lugar em que tinha ficado a 
conversar por quase meia hora. Ben olhou ao redor depois que acabou de 
preencher o cheque e ficou surpreso ao constatar que a jovem havia 
desaparecido. Ela se afastara abruptamente. Ben ainda procurou pela loja 
repleta dos fregueses de Natal, mas no a viu em parte alguma. Marie sara por 
uma porta lateral e naquele momento fazia sinal para um txi. Sentia-se 
cansada e deprimida. Fora uma longa manh.
      Ela deu ao motorista o endereo do veterinrio, deixou Fred l e voltou 
no mesmo txi para seu prdio de apartamentos. J tinha arrumado a mala. 
Tudo o que precisava fazer era peg-la e seguir para o aeroporto. Sentia-se um 
pouco cruel ao deixar Fred para trs, mas desta vez no o queria realmente em 
sua companhia. Ia parar em muitos lugares nas trs semanas. Era uma viagem 
que precisava fazer sozinha. Seus ltimos momentos como Nancy McAllister, o 
fim de uma vida ,antiga, o incio de uma vida nova. Ela deu uma ltima olhada 
pelo apartamento antes de partir, como se esperasse nunca mais tornar a v-lo 
da mesma maneira. Ao fechar a porta, lentamente, sussurrou uma nica palavra. 
Disse-a para si mesma, para Ben e Michael, para todas as pessoas que tinha 
outrora amado e conhecido... adeus. Havia lgrimas em seus olhos quando 
desceu rapidamente a escada, com a sacola da cmara pendurada no ombro e 
apertando com fora a ala da mala.
      
    
    

Captulo 19
      
      Ela no permitiu que Peter fosse recebe-la no aeroporto. Assim como 
partira sozinha, queria agora voltar sozinha. Houve algo mgico na viagem. 
Havia sido um perodo, de paz e de trabalho rduo. No conversava com quase 
ningum., limitando-se a observar, a mergulhar nos prprios pensamentos. Mas 
 medida que os dias passavam, os pensamentos iam-se tornando menos tensos 
do que no dia em que deixara So Francisco. Ver Ben Avery novamente fora um 
golpe. Revivera recordaes demais. Mas agora estava tudo acabado. E ela 
sabia disso. Podia conviver com as recordaes. Sua nova vida comeara.
      O dia de Natal perdeu-se entre muitos outros, enquanto ela tirava 
fotografias na neve, em torno de Taos. Sentiu-se tentada a esquiar, mas no o 
fez. Prometera a Peter evitar o risco de um acidente ou sol em demasia. E 
cumprira a promessa. Assim como Peter tambm o fizera. Marie o avisara da 
data em que voltaria, mas pedira-lhe que no fosse esper-la no aeroporto. E 
Peter no fora. Ela correu os olhos pelo aeroporto, aliviada. Estava sozinha 
entre um exrcito de estranhos. Era confortador estar perdida na multido. 
Fazia-a sentir-se invisvel e segura. Passara muito tempo aprendendo a ser 
invisvel no ltimo ano e meio. Coberta por ataduras na maior parte do tempo, 
pensava que era muito importante no ser vista. Agora, atraa mais ateno do 
que na poca em que estava envolta por ataduras. A maneira como se movia, o 
chapu preto de aba larga que comprara na viagem para ocultar as ltimas 
ataduras na testa, a cala Levis preta e o casaco de pele de carneiro, tudo 
contribua para aumentar sua visibilidade, simplesmente porque era difcil 
ocultar o tipo de aparncia que ela possua. Mas Marie ainda no estava 
consciente de como era atraente.
      Pegou um txi ao sair do terminal, deu o endereo ao motorista e 
recostou-se no assento, com um suspiro. Estava cansada. Eram quase 11 horas e 
levantara-se s cinco horas daquela manh para tirar fotografias. Olhou para o 
relgio e prometeu que estaria na cama por volta de meio-dia. Tinha de estar. 
Amanh seria outro grande dia. Ficara fora at o ltimo momento. s nove 
horas da manh seguinte, Peter removeria a ltima atadura. Ningum mais 
percebia que ela ainda estava usando uma atadura. Mas Marie sabia. E agora 
at mesmo isso iria desaparecer. Iria passar a manh sozinha, depois de sair do 
consultrio de Peter, em seguida voltariam a encontrar-se para um almoo de 
comemorao. No haveria mais operaes, pontos, ataduras e esparadrapos. 
Era agora como qualquer outra pessoa. At mesmo seu novo nome tornara-se 
legal. Marie Adamson nascera.
      O motorista deixou-a na frente do prdio e ela subiu lentamente a 
escada, como se estivesse esperando encontrar um apartamento diferente do 
que deixara. Mas era o mesmo e Marie ficou um tanto surpresa por 
experimentar uma sensao de anticlmax. E depois riu de si mesma. O que 
estava querendo? Dissera a Peter que no devia ficar a sua espera. Por acaso 
esperava uma banda toda uniformizada escondida no quarto? Peter debaixo da 
cama? Esperava alguma coisa, no sabia direito o qu. Tirou as roupas e deitou-
se na cama, pensando no que viera encontrar. Tinha muita coisa na mente. Como 
seria a sua vida agora que o trabalho de Peter em seu rosto terminava? E se ela 
nunca mais tornasse a v-lo? Mas isso era absurdo e Marie o sabia. Ele  que 
providenciara a exposio dos trabalhos dela, que seria inaugurada no dia 
seguinte  "revelao" final do rosto de Marie. Ele gostava dela como pessoa, 
no apenas como um trabalho de reconstruo. E Marie sabia disso. Mas sentia-
se estranhamente insegura, deitada em seu quarto, no escuro, querendo a 
presena de algum que lhe dissesse que estava tudo bem, que no estava 
sozinha, que conseguiria seguir em frente como Marie Adamson.
      - Oh, diabo! Que importncia tem se estou sozinha?
      Ela se levantou bruscamente e foi contemplar-se no espelho, ao dizer as 
palavras. Irritada, pegou a cmara e quase a acariciou. Era tudo o que 
precisava. Estava simplesmente cansada da viagem. Era uma estupidez 
preocupar-se com a possibilidade de se sentir solitria, com o futuro com 
Peter. Com um suspiro, Marie voltou para a cama. Tinha coisas melhores em que 
pensar como o seu trabalho.
      Marie acordou por volta de seis horas da manh seguinte. Vestiu-se e 
saiu de casa s sete e meia. Ao chegar ao consultrio de Peter, s nove horas, 
j estivera no mercado de legumes e frutas e no mercado de flores, para tirar 
fotografias. E acrescentara mais algumas fotos  sua coleo de Chinatown. E 
finalmente fora buscar Fred no veterinrio.
      - Ei, mas como voc parece animada esta manh... e linda tambm! 
Adorei o casaco!
      Peter contemplou com admirao o casaco feito de pele de coiote que 
Marie comprara a um preo nfimo numa reserva do Novo Mxico. Ela estava 
ainda de jeans, com uma suter preta de gola roul e botas. E usara o chapu 
preto de aba larga at chegar ao consultrio. Agora, Marie segurou o chapu 
nas mos por um momento e sorriu de um jeito que Peter nunca vira antes. 
Depois ela equilibrou o chapu sobre a cesta de papel por uma frao de 
segundo, antes de empurr-lo at o fundo, amassando-o completamente.
      - Esta, Dr. Gregson, foi a ltima vez e nunca mais usarei um chapu.
      Ele assentiu. Podia compreender como aquele gesto era importante.
      - Nunca mais ter de usar.
      - Graas a voc.
      Marie sentia vontade de beij-lo, mas seus olhos diziam tudo o que 
Peter precisava saber. E enquanto o fitava, ela descobriu que sentira saudade 
dele durante a viagem. Peter era agora uma pessoa diferente para ela. No 
mais continuaria a ser seu mdico, depois daquela manh. Seria um amigo e 
qualquer coisa a mais que Marie lhe permitisse. Ainda no haviam resolvido isso, 
apesar das muitas vezes com que Peter lhe dissera que a amava. Marie ainda 
no dera o ltimo passo e Peter nunca a pressionara.
      - Senti muita saudade de voc, Peter.
      Ela tocou no brao dele gentilmente, ao sentar-se na cadeira que tanto 
conhecia. Fechou os olhos e ficou esperando.
      Peter contemplou-a por um momento, parado na frente dela. Depois, 
sentou-se na cadeira giratria que sempre ocupava.
      - Est com pressa esta manh.
      - Depois de 20 meses, tambm no estaria?
      - Eu compreendo, querida, eu compreendo...
      Marie ouviu o barulho dos instrumentos delicados na pequena bandeja de 
metal e sentiu o esparadrapo sendo lentamente arrancado de sua testa e linha 
dos cabelos. A cada milmetro de pele que era libertada, ela se sentia muito 
mais livre, at que finalmente percebeu que tudo se desprendia.
      - Pode abrir os olhos agora, Marie. E d uma olhada no espelho. Ela 
fizera a mesma coisa mil vezes. A princpio, apenas para ler um pequeno 
vislumbre, uma mera promessa, para que em seguida pedaos cada vez maiores 
do quebra-cabeas se fossem enquadrando em seus lugares. Porm jamais vira 
o rosto de Marie Adamson livre de esparadrapo, ataduras, pontos ou qualquer 
outro lembrete do que estava sendo feito. No via o seu rosto inteiramente 
desobstrudo desde que havia sido o rosto de Nancy McAllister, quase dois 
anos antes.
      - Vamos, d uma olhada.
      Era absurdo. Ela estava quase que com medo de olhar. Mas, 
silenciosamente, levantou-se e caminhou lentamente at o espelho. Parou ali, 
com um sorriso amplo, dois filetes de lgrimas brilhando nas faces. Peter 
estava de p atrs dela, a alguma distncia. Queria deix-la sozinha. Aquele 
momento era dela.
      - Oh, Peter, est lindo! Ele riu suavemente.
      - No  "est lindo" e sim voc est linda, sua tolinha.  agora voc.
      Marie s podia assentir. Depois, virou-se para fita-lo. No era tanto o 
fato dos ltimos esparadrapos terem sido removidos de sua testa, pois no 
representara uma mudana to grande em seu rosto, mas sim porque estava 
tudo acabado. Ela era agora inteiramente Marie.
      - Oh, Peter...
      Sem dizer mais nada, Marie foi aconchegar-se nos braos dele e 
apertou-o com fora. Ficaram assim, no consultrio dele, por longo tempo. 
Depois, Peter desvencilhou-se do abrao e gentilmente enxugou as lgrimas 
dela.
      - Est vendo, Peter? Posso at ficar molhada e no me derreto.
      - E pode tambm tomar sol, embora no excessivamente. E pode fazer 
tudo o que quiser pelo resto da vida. Qual  a primeira coisa da agenda?
      - Trabalho.
      Marie soltou uma risada e sentou-se na pequena cadeira giratria que 
ele abandonara. Erguendo as pernas at o queixo deu impulso para ficar 
rodando.
      - Oh, Deus, isso  tudo o que estou precisando agora! Ela vai quebrar a 
perna no meu consultrio!
      - Mesmo que eu quebre, querido, de qualquer maneira sairei andando 
daqui. Tenho uma vida nova para comemorar esta manh. .
      - Fico contente em saber disso.
      E aparentemente Fred tambm estava contente. Comeou a pular, 
abanando o rabo, como se tivesse compreendido o que sua dona dissera. Ambos 
riram e Peter abaixou-se para afagar a cabea do cachorro.
      - Nosso almoo ainda est de p?
      Havia uma expresso de ansiedade nos olhos dele e Marie ficou 
comovida. Compreendia o que ele estava sentindo tambm. Abandono. 
Ansiedade. Ser que ela ainda iria quer-lo em sua vida, quando no mais 
precisasse dele? Peter parecia-lhe extremamente vulnervel, parado ali. Marie 
estendeu-lhe a mo.
      - Claro que vamos almoar juntos, seu tolo. Peter... Os olhos de Marie 
estavam fixados nos dele. - Sempre haver tempo na minha vida para voc. 
Sempre. Espero que saiba disso. Voc  a nica razo pela qual tenho uma vida.
      - No. Algum mais  responsvel por isso.
      Marion Hillyard. Mas Peter sabia o quanto ela detestava ou vir o nome 
daquela mulher e por isso absteve-se de pronunci-lo. Jamais havia 
compreendido por que Marie reagia daquela maneira, mas fazia-lhe a vontade 
na questo.
      - Estou contente por me encontrar em condies de ajudar. E sempre 
estarei pronto para ajudar, se precisar de mim...para... para outras coisas.
      - timo. Ento no se esquea  de que vai ter de me alimentar ao meio-
dia e meia. - A conversa j tinha sido sria por tempo suficiente. Marie 
levantou-se e vestiu o casaco de pele de coiote. - Onde vamos nos encontrar?
      Peter sugeriu um novo restaurante na zona do porto, de onde poderiam 
contemplar rebocadores, barcas e petroleiros cruzando a baa, alm das colinas 
de Berkeley alm.
      - Est bom assim?
      - Est timo. Sou capaz de passar toda a manh por l, tirando 
fotografias.
      - Eu ficaria desapontado se decidisse fazer qualquer outra coisa.
      Peter abriu a porta da sala de exame com uma mesura e Marie piscou-
lhe um olho ao sair. Mas ela no foi diretamente para a rea do porto como 
dissera que faria. Em vez disso, foi para o centro, a fim de fazer compras. 
Subitamente, sentira o desejo de comprar algo fabuloso para usar no almoo 
com Peter. Era o dia mais especial de sua vida e queria desfrut-lo plenamente. 
No txi, verificou o talo de cheques e sentiu-se feliz por ter conseguido 
ganhar algum dinheiro antes do Natal, com seu trabalho. Isso lhe permitiria ser 
extravagante para si mesma e ainda comprar alguma coisa para Peter. 
Encontrou um vestido bege de casimira que se moldava em seu corpo de 
maneira espetacular, sob o casaco de pele. Parou em um cabeleireiro e ajeitou 
os cabelos. Era a primeira vez em anos que usava os cabelos penteados para 
trs, revelando todo o seu rosto. Comprou brincos de ouro grandes e um cordo 
bege de cetim com uma concha de ouro pendurada. Com mais os sapatos e uma 
bolsa, de camura e beges, alm do perfume que mais gostava, e estava pronta 
para o almoo com o Dr. Peter Gregson ou com qualquer outra pessoa. Era uma 
mulher que teria paralisado o corao de qualquer homem.
      Sua ltima parada foi na Shreve's, onde encontrou, como se fosse algum 
plano pr-estabelecido, exatamente o que estava procurando, mas no 
imaginava que poderia descobrir. Era uma pequena medalha de ouro, feita para 
berloque de corrente de relgio. Marie sabia que Peter possua um relgio de 
bolso de que gostava muito e usava ocasionalmente. Ela mandaria gravar a data 
mais tarde, mas por enquanto isso seria suficiente. Mandou embrulhar para 
presente, pegou um txi e chegou no restaurante no instante mesmo em que 
Peter estava sentando. Ela teve a sensao de que poderia explodir de alegria 
ao observar o rosto dele contemplando-a enquanto se aproximava. Havia 
diversos outros homens no restaurante que tambm a contemplavam com 
admirao, mas nenhum com a ternura de Peter Gregson.
      -  mesmo voc?
      - Cinderela ao seu dispor. Aprova?
      - Se aprovo? Estou atordoado. O que fez esta manh? Andou fazendo 
compras?
      - Exatamente. Este  um dia muito especial.
      Marie fazia coisas com os sentimentos dele que Peter pensara que 
fossem impossveis. Ele sentiu vontade de beij-la ali mesmo no restaurante. 
Em vez disso, apertou-lhe a mo com fora e sorriu, um sorriso prolongado e 
feliz.
      - Estou imensamente contente por v-la feliz, querida.
      - E pode estar certo de que me sinto mesmo muito feliz.
      Mas no  apenas por causa do rosto. H tambm a exposio amanh e... 
e meu trabalho, minha vida... e... voc.
      Ela pronunciou a ltima palavra suavemente.
      Aquele momento significava tanto para Peter que ele tinha ele atenuar a 
solenidade.
      - Eu s entro depois de todas essas coisas, hem? E onde Fred se inclui?
      Ambos riram e Peter pediu Bloody Marys. Depois, pensou melhor e 
mudou o pedido para champanhe.
      - Champanhe? Santo Deus!
      - Por que no? E fechei o consultrio pelo resto da tarde. Estou to livre 
quanto  possvel... a menos,  claro... - Peter nem mesmo pensara antes em tal 
possibilidade. - ... que voc tenha outros planos.
      - Para fazer o que, pelo amor de Deus?
      - Trabalhar?
      Peter sentiu-se acanhado s de fazer a pergunta.
      - No seja bobo. Vamos divertir-nos bastante hoje.
      Ele riu ao ouvir a resposta.
      - O que, por exemplo? Diga o que mais gostaria de fazer. Marie pensou 
um pouco, mas no conseguiu encontrar qualquer boa idia. Depois, porm, 
fitou-o com um sorriso brejeiro         e disse:
      - Vamos  praia.
      - Em janeiro
      - Claro. Afinal de contas, estamos na Califrnia e no em Varmont. 
Podemos ir de carro at Stinson e darmos um passeio pela praia.
      - Est certo. No resta a menor dvida de que voc  uma pessoa fcil 
de satisfazer.        .        .
      Mas os passeios pela praia com Peter haviam-se tornado algo muito 
especial para Marie e ela queria um lugar bastante especial para entregar-lhe o 
presente. S que no tinha certeza se conseguiria resistir at l. Mas o fez. 
Esperou at o final da tarde, quando estavam passeando de mos dadas pela 
praia varrida pelo vento. O casaco de pele protegia Marie da brisa constante 
que passara a soprar com a chegada do nevoeiro.
      - Tenho uma coisa para voc, Peter.
      Ele a fitou com uma expresso de surpresa quando ela parou de andar. 
Parecia no estar entendendo direito, at que ela lhe estendeu a caixa pequena.
      - Mandarei gravar depois, se no se incomodar....
      - Marie, isso  demais. No deveria...eu no queria...Peter estava 
comovido e constrangido ao abrir a caixinha. Ficou deliciado ao ver o lindo 
berloque. Passou o brao pelos ombros dela, apertando firmemente.
      - Por que fez uma coisa dessas? - murmurou ele, em tom suave de 
censura.
      - Porque voc  um imprestvel que nunca fez nada por mim.
      Peter sorriu da expresso maliciosa nos olhos dela e desta vez abraou-
a, para um beijo longo e terno, que dizia tudo o que sentia. E desta vez tambm 
Marie beijou-o como nunca o fizera antes, com todo o seu corpo, assim como 
com o corao. O que  o fez desej-la com intensidade que mal podia controlar.
      -  melhor tomar cuidado, minha jovem, ou vou violent-la aqui na praia.
      Marie abriu o casaco com um sorriso provocante e riu.
      - E da?
      Peter apenas riu e tornou a abra-la. Marie era uma mulher 
extraordinria e valera a pena esperar por ela. Ele podia agora deixar que seus 
sentimentos aflorassem, pois Marie no era mais sua paciente.
      - Marie... querida...
      Ela o silenciou com um beijo demorado e faminto. Peter desvencilhou-se 
por um momento, perguntando-se se no estaria vendo na reao dela 
simplesmente o que estava querendo. Mas havia uma corrente de desejo 
intenso entre os dois, a tal ponto que ele sabia que no estava imaginando.
      - Vamos. .. talvez seja melhor voltarmos.
      Marie assentiu e seguiu-o de volta ao carro. Mas a expresso dela no 
era to sombria quanto a de Peter - E quando chegaram ao apartamento dela, 
Marie virou-se para Peter com um sorriso.
      - Tenho mais uma coisa para voc, Peter. Gostaria que subisse, se tiver 
tempo.
      - Tem certeza de que  isso o que quer?
      - Absoluta.
      Ela subiu a escada na frente dele, em silncio. Ao abrir aporta do 
apartamento, no acendeu a luz. Atravessou a sala de estar, virou o cavalete 
junto  janela e depois acendeu a luz. O que Peter viu foi a paisagem com o 
menino sentado na rvore, parcialmente oculto pela folhagem. Marie acabara o 
quadro para ele antes de partir de frias, mas o estava reservando para aquele 
dia, se no mesmo para aquele momento - Peter fitou-o como se no estivesse 
compreendendo.
      -  para voc, Peter. Comecei-o h muito tempo. E acabei-o para voc.
      - Oh, querida...
      Peter aproximou-se do quadro com os olhos brilhando e uma expresso 
gentil no rosto, como se no pudesse acreditar no que Marie fizera por ele. 
Fora um dia repleto de emoes e surpresas. Para os dois..
      - No posso aceitar. J tenho uma boa parte do seu trabalho. Se ficar 
dando tudo para mim, no ter coisa alguma para a exposio.
      - Voc tem fotografias, Peter - Isso  diferente.  um sinal do meu 
renascimento.  a primeira vez que voltei a pintar. E esse quadro... 
representava muito para mim. Quero que fique com ele. Por favor. Havia 
lgrimas nos olhos dela agora. Peter foi abra-la.  
      - um quadro maravilhoso. Muito obrigado. No sei direito o que dizer. 
Voc tem sido maravilhosa para mim.
      - No precisa dizer nada.
      Marie beijou-o de uma maneira que dizia tudo e desta vez Peter teve 
certeza. No precisava perguntar. Simplesmente levou-a para o quarto e, 
trmulo de desejo, tirou-lhe as roupas.  luz suave do crepsculo, com a 
msica das buzinas de nevoeiro soando  distncia, eles se amaram.
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 20
      
      - Pode levantar o zper, querido?
      Ela lhe virou as costas graciosas e Peter beijou-a no ombro. 
      - Eu preferia baixar o zper ao invs de levantar.
      - Ora, Peter, no temos tempo para isso agora.
      Marie fitou-o afetuosamente e ambos riram. Peter estava vestindo 
smoking e Marie usava um lindo vestido preto decotado, com mangas largas e 
justo na cintura, de um tecido que permitia divisar sua silhueta, embora nada 
mais alm. Era um vestido espetacular e Peter estava devidamente 
impressionado.
      - Detesto dizer-lhe isso, meu amor, mas ningum vai olhar para o seu 
trabalho. Todos a estaro contemplando.
      -  mesmo?
      Peter riu diante da incredulidade bvia dela e ajeitou a gravata que 
usava sobre a camisa azul-clara. Juntos, formavam um casal extremamente 
atraente.
      - Penduraram tudo da maneira como voc queria? Ainda no tive tempo 
de perguntar.
      Quando Peter acordara, s oito horas daquela manh, Marie j tinha 
sado. Mas ao final da tarde, ele chegara ao apartamento dela e uma hora na 
cama mostrara a ambos que mal tinham comeado a saciar a fome de um pelo 
outro. Depois, haviam partilhado meia hora no banho, comentando um para o 
outro o que tinham feito durante o dia. Era quase como se vivessem daquela 
maneira h anos.
      Marie sorriu enquanto o observava terminar de se arrumar.
      - Penduraram, sim. Tudo foi ajeitado exatamente como eu queria. Graas 
a voc. Tenho a impresso de que voc lhes disse que tomassem todo cuidado 
"ou ento". Voc ou Jacques. - O dono da galeria era um dos mais antigos e 
ntimos amigos de Peter. - Eu me sinto totalmente mimada. A prpria artiste.
      -  assim mesmo que deve sentir-se. Seu trabalho vai ser muito 
importante, querida. Vai ver s.
      E Marie realmente viu. As crticas nos jornais do dia seguintes foram 
espetaculares. Estavam sentados no apartamento dela, tomando o caf da 
manh, sorrindo enquanto liam.
      - Eu no disse? - Peter parecia ainda mais satisfeito consigo mesmo do 
que com Marie. - Voc  uma estrela.
      - Ficou doido, Peter?
      Marie sentou-se no colo dele, amarrotando o jornal. Tinha no rosto um 
sorriso de felicidade.
      - Espere mais um pouco. Todo agente de fotgrafo do pas estar lhe 
telefonando para voc na prxima semana.
      - Acho que perdeu o juzo, querido.
      Mas Peter no se enganara. J na segunda-feira Marie estava 
recebendo telefonemas de Los Angeles e Chicago. Ela no podia aceitar as 
ofertas, mas estava-se divertindo intensamente com tudo. E cada telefonema 
que recebia deixava-a ainda mais satisfeita. At o telefonema de Ben Avery. 
Foi na tarde de quinta-feira, quando ela estava revelando alguns filmes. Ouviu o 
telefone tocar, enxugou as mos e foi atender na cozinha. Pensava que fosse 
Peter. Ele dissera que telefonaria para informar a que horas poderiam 
encontrar-se naquela noite. Peter tinha alguma reunio marcada para o final da 
tarde. Mas Marie tinha trabalho suficiente em seu laboratrio para mant-la 
ocupada at o encontro com Peter. Recebera uma verdadeira avalanche de 
encomendas como conseqncia da exposio.
      - Al?
      - Miss Adamson? 
      - Ela mesma. 
      Marie no reconheceu a voz e o sorriso que estava exibindo para Peter 
rapidamente se desvaneceu.
      - No sei se j nos conhecemos ou no, mas encontrei uma certa Miss 
Adamson na ltima vez em que estive aqui. Na loja de departamentos 
LMafnim's. Eu estava fazendo algumas com pras de Natal... comprei umas malas 
e...        Ben sentia-se um idiota rematado e Marie no disse nada, pelo que 
pareceu uma eternidade. .
      Ento era. Ben. Oh, diabo! Como ele a descobrira? E por que se dera ao 
trabalho de procur-la?
      - Eu. .. era a mesma pessoa?
      Marie sentiu-se tentada a dizer que no. Mas por que mentir? 
      - Creio que pode ter sido.
      - timo. Assim, pelo menos j nos conhecemos. Estou telefonando 
porque acabei de ver o seu trabalho na Galeria Montpelier, na Post Street. 
Fiquei bastante impressionado, assim como minha colega, Miss Townsend.
      Marie ficou subitamente curiosa. Seria a moa para quem ele comprara 
as malas? Mas ela sentia que no podia perguntar. Em vez disso, soltou um 
suspiro e sentou-se
      - Fico satisfeita que tenha gostado, Mr. Avery. 
      - Est lembrada do meu nome!
      Oh, Deus!
      - Tenho excelente memria para nomes.
      - O que  muita sorte minha. Minha memria  como uma peneira e pode 
estar certa de que no meu negcio isso  uma tremenda desvantagem. De 
qualquer forma, eu gostaria muito de nos encontrarmos, para discutirmos o seu 
trabalho.
      - Em que sentido?
      Que diabo havia para discutir?
      - Estamos fazendo um centro mdico aqui em So Francisco, Miss 
Adamson.  um projeto de grandes propores e gostaramos de aproveitar o 
seu trabalho em todos os prdios com o tema bsico da decorao. No 
sabemos ainda direito como, mas temos certeza de que queremos as suas fotos. 
E gostaramos de discutir o assunto consigo. Pode ser a grande tarefa de sua 
carreira.
      Ben falava com um tremendo orgulho e estava obviamente esperando por 
uma exclamao de espanto no outro lado da linha, um grito de entusiasmo, 
qualquer coisa enfim... menos o que ouviu.
      - Entendo. E qual a firma que est representando? .
      Ela esperou, prendendo a respirao. Mas j sabia a resposta, antes 
mesmo que Ben falasse:
      - Cotter-Hillyard, de Nova York.
      - No, obrigada, Mr. Avery. No  minha seara.
      - Por que no? - Ben parecia desconsertado. - No estou 
compreendendo.
      - No quero entrar em detalhes, Mr. A very, mas posso assegurar-lhe de 
que no estou interessada.
              - Podemos encontrar-nos para discutir o assunto?        .
      - No.
      - Mas j falei com... eu...
      - A resposta  no. Obrigada por seu telefonema.
      E depois, sem dizer mais nada, Marie reps o fone no gancho o voltou 
at a porta de seu laboratrio improvisado. No ia trabalhar para eles. Era 
tudo o que precisaria agora. No podia mais ouvir falar de Michael Hillyard. Ele 
no a quisera como esposa, ela no o queria como seu patro. Ou como qualquer 
outra coisa.
      O telefone voltou a tocar antes que ela fechasse a porta do laboratrio. 
Sabia que s podia ser Ben novamente, mas queria resolver o problema de uma 
vez por todas. Voltou  cozinha, pegou o fone e quase gritou:
      - A resposta  no! J lhe disse isso!
      Mos a voz do outro lado da linha era a de Peter e no a de Ben.
       - Mas o que eu fiz?
      Peter estava meio rindo, meio aturdido. Marie sentiu que relaxava ao 
ouvir a voz dele.
      - Oh, querido, desculpe!  que acabei do receber um telefonema que me 
deixou irritada.
      - Uma decorrncia da exposio?
      - Mais ou menos.        I
      - A galeria no deveria estar fornecendo o seu telefone para malucos. 
Por que eles no se limitam a anotar os recados?
      Peter parecia contrariado.
      - Acho que vou sugerir isso a Jacques.
      Peter ficou transtornado ao pensar em algum maluco procurando Marie.
      - Voc est bem?
      - Estou, sim.
      Mas ela parecia abalada e Peter podia perfeitamente. perceb-lo.
      - Estarei a dentro de uma hora. No atenda ao telefone at eu chegar. 
Cuidarei de tudo, se algum telefonar depois disso. 
              - Obrigada, meu amor.
      Os dois trocaram mais algumas palavras e depois desligaram. Marie 
descobriu-se dominada por um sentimento de culpa por no ter contado a 
verdade a Peter. Ben Avery no era nenhum maluco, apenas trabalhava para 
Michael Hillyard. Mas ela no queria revelar a Peter que fora justamente isso 
que a deixara transtornada. Ele no precisava saber como ela ainda ficava aba-
lada com qualquer coisa que tivesse relao com Michael. De qualquer forma, 
estava melhorando a cada dia. Felizmente, Ben no voltou a telefonar naquela 
noite. Mas voltou a surpreende-la no dia seguinte, quando ela se aprontava para 
comear a trabalhar .
      - Oi, Miss Adamson. Sou eu, Ben Avery, novamente.
      - Pensei que j tivesse deixado tudo isso acertado ontem  noite. No 
estou interessada.
      - Mas nem mesmo sabe qual  o trabalho em que no est interessada! 
Por que no almoa com minha colega e comigo, para podermos discutir o 
assunto? Isso no pode prejudica-la em nada, no  mesmo?
      Claro que pode, Ben! E como pode!
      - Lamento muito, mas estou ocupada e no posso aceitar o trabalho.
      Marie no estava cedendo um palmo sequer. Sentado em seu quarto no 
hotel, Ben virou os olhos para Wendy. No havia qualquer esperana. E ele no 
podia compreender por qu. Que diabo ela tinha contra a Cotter-Hillyard? No 
fazia o menor sentido.
      - E no podemos nos encontrar amanh?
      - Escute, Ben... Mr. Avery ... eu no quero aceitar a misso. No estou 
interessada. E no quero discutir o assunto com voc nem com sua colega nem 
com qualquer outra pessoa. Estou sendo bem clara?
      - Infelizmente, sim. Mas acho que est cometendo um tremendo erro 
profissional. Se tivesse um agente, tenho certeza de que ele lhe diria 
justamente isso.
      - Mas acontece que no tenho um agente. Portanto, no tenho de ouvir 
qualquer pessoa que no a mim mesma.
      -  exatamente esse o seu engano, Miss Adamson. Mas continuaremos 
em contato.
      -  muita gentileza sua interessar-se por meu trabalho, mas pode estar 
certo de que a insistncia de nada adiantar.
      - Est bem, est bem. Mas vou-lhe deixar um carto. Se mudar de idia, 
pode me telefonar. Aqui ou em Nova York. Ficarei no Saint Francis at o final 
do ms e depois voltarei ao meu escritrio em Nova York. H bastante tempo 
para discutirmos o assunto.
      Talvez para voc, mas no para mim, pensou Marie. So dois anos tarde 
demais.
      - Infelizmente, no concordo com a sua opinio.
      E, novamente, Marie desligou. Desta vez, ao voltar para o laboratrio ela 
deixou o fone fora do gancho.
      
      
    

Captulo 21
      
      Era uma noite gelada de fevereiro quando Ben Avery, aconchegado em 
seu casaco como uma tartaruga, correu da sada do metr at seu escritrio na 
Park Avenue. Estaria nevando antes do final do dia, algo que Ben podia sentir no 
ar. Estava to escuro que parecia que a luz do dia mal conseguira emergir. 
Ainda no eram oito horas da manh. Mas ele tinha muito trabalho a fazer. Era 
o seu primeiro dia no escritrio desde que voltara da Califrnia e a grande 
reunio com Marion estava marcada para as 10h30min daquela manh. De modo 
geral, ele s tinha praticamente boas notcias para Marion. 
      J havia vrias pessoas no saguo do prdio e o elevador estava quase 
cheio quando ele subiu. Mesmo quela hora, o mundo dos negcios j estava em 
atividade. Depois do ritmo mais lento de So Francisco e at mesmo de Los 
Angeles, era um choque estar de volta ao prprio centro das atividades 
incessantes. Em Meca, as pessoas comeavam cedo. Mas pelo menos parecia no 
haver ningum mais trabalhando no andar de Ben, pois no notou atividade 
alguma enquanto percorria o corredor comprido e atapetado, revestido de 
madeira, at a sala que Marion lhe dera quando ingressara na firma. Era menor 
e no to bonita quanto a sala de Michael, mas era muito bem decorada. Marion 
no poupava despesas nas salas da Cotter-Hillyard.
      Ben olhou para o relgio enquanto tirava o casaco. Depois, esfregou as 
mos; para esquent-las um pouco. No havia a menor possibilidade de 
acostumar-se aos ventos gelados e ao frio mido de Nova York. Havia invernos 
em que se perguntava se algum dia voltaria a se sentir quente e por que 
suportava tudo aquilo se havia cidades como So Francisco, em que as pessoas 
viviam num mundo de sonho temperado, durante o ano inteiro. At mesmo a sua 
sala parecia gelada. Mas ele no tinha tempo a perder. Esvaziou o contedo da 
pasta em cima da mesa e comeou a separar os documentos e relatrios. Tudo 
transcorrera esplendidamente, com uma nica exceo, de importncia menor. 
E talvez ainda pudesse fazer algo para remedi-la. Ele olhou novamente para o 
relgio depois de algum tempo e ficou pensativo. Depois, resolveu tentar. Seria 
um grande golpe se pudesse entrar na reunio com aquela ltima boa notcia.
      Ben trouxera algumas amostras do trabalho de Marie Adamson. Tivera 
de compr-las na galeria. Mas no tivera a menor dvida de que o investimento 
valera a pena. Assim que Marion e Michael dessem uma olhada no trabalho dela, 
verificassem a qualidade extraordinria, a prpria Marion provavelmente 
entraria em cena e persuadiria a jovem a aceitar o contrato. Ele sorriu ao 
pensar nisso, sem saber que a possibilidade provocaria um calafrio na espinha 
de Marie.
      Ele discou o nmero e ficou esperando. Era uma loucura o que estava 
fazendo. Eram 5h15min da manh em So Francisco, mas talvez, se a pegasse 
meio adormecida...
      -Al?
      Ela parecia meio tonta de sono ao atender o telefone.
      - Ahn... Miss... Miss Adamson, lamento profundamente telefonar a esta 
hora. Aqui  Ben Avery, de Nova York. Vou ter uma reunio esta manh com a 
diretora da nossa firma e desejo mais que qualquer outra coisa, comunicar que 
vai trabalhar conosco no centro mdico. E pensei que...
      Mas Ben j sabia, a esta altura, que cometera um tremendo erro. Podia 
senti-lo no silncio que o subjugou no outro lado da linha. Um momento depois, 
Marie Adamson comeou a falar:
      - s cinco horas da manh? Telefonou para falar-me de sua reunio 
com... pelo amor de Deus, mas que loucura  essa? J no lhe disse que no? 
Que diabo terei de fazer agora? Arrumar um telefone que no conste do 
catlogo?
      Enquanto a escutava, Ben fechou os olhos, e parte por constrangimento, 
em parte por algo mais. A voz. Era estranha. No sabia por que, mas parecia-lhe 
familiar. E no soava como a voz de Marie Adamson. Era uma voz mais alta, mais 
jovem, diferente o bastante para despertar-lhe uma recordao que o 
perturbou. Com quem ela parecia? Mas Ben no conseguiu se lembrar.
      - Ser que no entendeu meu recado?
      As palavras furiosas trouxeram-no de volta ao presente e  realidade de 
que estava de fato falando com Marie Adamson, a qual estava longe de se 
mostrar satisfeita com o seu telefonema.
      - Lamento muito. Sei que foi um absurdo telefonar a esta hora, mas 
tinha a esperana de que...
      - J lhe dei a resposta: no. No quero escutar, discutir, pensar ou 
voltar a falar consigo a respeito de seu centro mdico. E agora me deixe em 
paz!
      E com isso Marie desligou. Ben ficou imvel, com o telefone mudo na 
mo, sorrindo envergonhado.
      - Muito bem, pessoal, estraguei tudo.
      Ele pronunciou tais palavras para si mesmo. Ou pelo menos foi o que 
pensou. No tinha visto Michael encostado tranqilamente na porta aberta.
      - Seja bem-vindo de volta ao lar, Ben. O que voc estragou?
      Michael no parecia particularmente preocupado. Ao contrrio, parecia 
bastante satisfeito por ver o amigo. Entrou na sala e foi acomodar-se numa das 
confortveis poltronas de couro
      -  um prazer v-lo de volta, Ben.        .
      - E eu sinto o maior prazer em voltar. Mas faz um frio tremendo nesta 
cidade. Depois de So Francisco,  capaz de eu nunca mais me ajustar.
      - Pois daqui por diante. Vamos tomar cuidado de mant-lo na rota 
sulista,  delicado. - Michael sorriu para o amigo, antes de acrescentar: - E o 
que era o telefonema que acabou de dar?
      - O nico cabelo em minha sopa nesta viagem. - Bem passou a mo pelos 
cabelos, num gesto de irritao, e recostou-se  na cadeira - Tudo transcorreu 
absolutamente como queramos. Sua me vai ficar extasiada com os relatrios. 
S houve uma exceo. Admito que se trata de um problema menor, mas eu 
queria que tudo fosse perfeito.
      Devo comear a me preocupar?
      - No. Estou apenas contrariado. Encontrei uma artista, uma jovem que 
 uma fotgrafa maravilhosa. Ela possui de fato um talento espetacular, no  
apenas uma garota com uma Browie.  sensacional. Vi a exposio que ela est 
realizando neste momento em So Francisco e pensei encontrat-la para a 
decorao do saguo de todos os prdios. Era a base fotogrfica com que 
todos concordamos na ltima reunio, antes de eu partir.
      E o que aconteceu?
      - E ela me disse que no estava interessada, nem mesmo em discutir o 
trabalho.
      Ben estava desolado ao dar a informao.
      - Por qu?  comercial demais para ela?
      Michael parecia no estar impressionado..
      - Nem mesmo sei por qu. Ela simplesmente ficou furiosa logo na 
primeira vez em que telefonei. Simplesmente no faz o menor sentido.
      Mas Michael estava sorrindo, com expresso divertida.
      - Claro que faz sentido, meu ingnuo amigo. Ela est-se resguardando 
para conseguir mais dinheiro. Sabe quem somos e  por isso calcula que, se 
bancar a difcil, pode arrancar-nos um contrato vultoso. Ela e mesmo to boa 
assim?
      - A melhor que existe. Trouxe algumas amostras de seu trabalho. Tenho 
certeza de que voc vai adorar.
      - Neste caso,  possvel que ela consiga o que est querendo, Mostre-me 
as amostras depois. Primeiro, h algo que preciso pergunta-lhe
      Michael parecia momentaneamente srio. Era um assunto que h 
semanas estava pensando em levantar.
      - Algum problema?
      Ben havia percebido imediatamente o nimo do amigo.
      - No. Para dizer a verdade, eu me sinto um idiota s de perguntar. 
Mostra como tenho estado por fora das coisas. Mas... h alguma coisa entre 
voc e Wendy?
      Ben esquadrinhou o rosto dele por um momento, antes do responder. 
Michael parecia curioso, mas no magoado.  claro que Ben soubera do caso de 
Wendy com Michael. Mas no era segredo que Michael jamais gostara 
realmente dela. Mesmo assim, Ben achara um tanto estranho ficar com o 
refugo do amigo. Era a primeira vez que isso acontecia e desde o incio no 
tinha a menor idia de como Michael reagiria, ao descobrir. E a verdade era 
que ele e Wendy estavam apaixonados. Haviam passado um ms sensacional 
juntos, na viagem de negcios  Califrnia. Zombeteiramente, Wendy 
classificara a viagem de lua-de-mel.
      - E ento, Avery, o que est havendo? Ainda no respondeu a minha 
pergunta.
      Mas agora havia um pequeno sorriso contraindo os lbios de Michael. Ele 
j sabia qual era a resposta.
      - Eu me sinto um idiota por no ter-lhe contado antes. Mas a resposta  
sim. Isso o incomoda, Michael?
      - Por que deveria? Sinto-me um tanto constrangido por admitir. .. ora, 
que no me tenho mantido muito a par das coisas. Tenho certeza de que Wendy 
lhe contou como fui maravilhosa mente atencioso e gentil.
      Ele parecia amargurado ao pronunciar as ltimas palavras, mas o tom 
com que Ben lhe respondeu foi extremamente gentil.
      - Wendy nunca disse nada, exceto que pensava que voc no era um 
homem muito feliz. Isso no chega a ser exatamente um choque para ns dois, 
no  mesmo, companheiro? - Michael assentiu, em silncio. - No me intrometi 
em seu caso com ela, Michael. Quero que tenha certeza disso. Vocs dois j 
tinham deixado de se encontrar h algum tempo. E se quer saber a verdade, 
sempre tive uma queda por Wendy.
      - Desconfiei disso quando a contratou. Wendy  uma moa sensacional. 
Melhor do que eu merecia. - Michael sorriu novamente. - E provavelmente 
melhor tambm do que voc merece. Ei, espere um instante! - Havia agora um 
brilho de pura malcia em seus olhos. - Por acaso a coisa  sria?
      Ben sorriu tambm para o amigo e depois assentiu.
      - Acho que sim.
       mesmo? Est pensando em casar-se?
      Michael estava aturdido. Onde estivera? Por que no havia notado coisa 
alguma?  claro que Ben passara um ms fora, mas mesmo assim... A verdade  
que ele no prestava a menor ateno as coisas assim h dois anos.
      - Essa no! Vai mesmo casar-se, Avery? Tem certeza?
      No falei que j est acertado. Mas estamos pensando a respeito. E eu 
diria que todas as probabilidades so a favor. Tem alguma objeo?
      Mas ambos sabiam que ele estava apenas brincando. O momento de 
constrangimento j havia passado.
      - No tenho absolutamente qualquer objeo. - Michael continuou 
sentado, sacudindo a cabea e sorrindo. - Tenho a impresso de que perdi uma 
pgina aqui e ali. Ou ser que vocs foram excepcionalmente discretos?
      - De jeito nenhum.  que voc tem andado excepcionalmente ocupado. 
S pensa em trabalhar, jamais em se divertir. Isso o deixar rico e famoso, 
mas totalmente fora de contato com as fofocas do escritrio.
      Ben estava agora zombando apenas parcialmente de Michael e sabia 
disso,
      - Poderia ter-me contado tudo, Ben.
      - Tem razo e sinto muito. Mas quando chegar o momento da grande 
notcia, eu lhe direi. Por falar nisso, no quer ser meu...
      Ben parou de falar abruptamente. Teve vontade de morder a lngua pelo 
que comeara a perguntar. Ia ser o padrinho de casamento de Michael na noite 
do acidente e agora quase pedira ao amigo que fosse o seu padrinho.
      - No tem importncia. H bastante tempo para se pensar nessas coisas.
      Michael levantou-se, assentiu e foi apertar a mo do amigo. Mas havia 
novamente algo sombrio oculto em seus olhos. Ele sabia perfeitamente o que 
Ben estivera prestes a perguntar.
      - Parabns, meu caro. - O sorriso era genuno, assim como a angstia. - E 
no se preocupe com a fotgrafa de So Francisco. Se ela  realmente to boa 
quanto voc diz, vamos oferecer-lhe um contrato vultoso e um bom negcio de 
tal forma que ela no poder deixar de ceder. Ela est simplesmente bancando 
li difcil para arrancar-nos mais dinheiro...
      - Espero que voc esteja certo.
      - Confie em mim, pois estou mesmo certo.
      Michael retirou-se, enquanto Ben ficava pensando no que haviam 
conversado. Sentia-se melhor agora que Michael sabia. Lamentava apenas., sua 
falta de tato. Mesmo depois de todo aquele tempo, qualquer referncia a 
Nancy causava exploses de agonia nos olhos do amigo. Odiava a si mesmo por 
ter provocado tal situao, mas parecera uma pergunta bastante natural para 
fazer e no pensara duas vezes. Sacudiu a cabea, pesaroso, depois voltou a se 
concentrar no trabalho em sua casa. Tinha apenas uma hora antes da grande 
reunio com Marion. Teve a impresso de que se haviam passado apenas alguns 
momentos quando Wendy bateu na porta aberta e chamou-o com um sorriso.
      - Vamos embora, Ben. Temos de estar na sala de Marion dentro de cinco 
minutos.
      - J? - Ele levantou os olhos nervosamente do trabalho e sorriu ao 
contempl-la. Wendy era tudo o que sempre desejara - Antes que eu me 
esquea, contei a Michael esta manh.
      Ele parecia bastante satisfeito consigo mesmo.
      - Contou o qu?
      A mente de Wendy estava totalmente concentrada no centro mdico de 
So Francisco e na reunio com Marion. As reunies com a grande deusa branca 
da arquitetura sempre a deixavam apavorada.
      - Contei a nosso respeito, sua tola. E tenho a impresso de...que ele at 
ficou satisfeito.
      - Fico contente por isso.
      Wendy na verdade no se importava, mas sabia que isso significava 
muito para Ben. Ela no mais se importava absolutamente com Michael, de um 
jeito ou de outro. Ele fora cruel e insensvel, totalmente ausente de todos os 
momentos que haviam passado juntos. Era quase como se nada jamais tivesse 
acontecido  com os dois.
      - Est pronto para a reunio?
      - Mais ou menos. Tentei conversar novamente com a tal         Adamson 
esta manh. Ela me mandou para o inferno.
      - O que  uma pena.
      Conversaram a respeito enquanto seguiam pelo corredor at o elevador 
particular que dava acesso  torre de marfim de Marion, na cobertura do 
prdio. Tudo ali era da cor de areia, at mesmo o elevador, totalmente 
atapetado, cho, teto e paredes. Era como viajar para cima em um tero 
silencioso, luxuoso. Chegaram finalmente ao andar que alojava o gabinete de 
Marion, com uma vista espetacular. Wendy podia sentir as palmas das mos 
ficarem midas de suor na pasta que estava levando. Marion Hillyard sempre a 
fazia sentir-se assim, no importava o quo simptica se mostrasse.  que 
Wendy j vira o que havia por baixo de todo o controle e charme de Marion.
      - Est nervosa?
      Ben fez a pergunta num sussurro, enquanto dobravam o corredor e se 
aproximavam da porta de vidro e cromo que dava para a saa de reunies de 
Marion.
      - Pode apostar que sim.        .
      Ambos riram um do outro e depois ocuparam seus lugares na sala 
comprida, repleta de plantas. Havia um Mary Cassatt numa parede, um Picasso 
no perodo inicial em outra e  frente dele estendia-se toda Nova York, uma 
vista espetacular, que sempre deixava Wendy estonteada, toda vez que 
sentava ali, no 65 andar. Era como decolar num avio, exceto pelo silncio. 
Marion parecia estar sempre cercada pelo silncio.
      Havia vinte e duas pessoas sentadas ao longo da mesa de reunies de 
tampo de vidro fum, quando Marion finalmente entrou na sala, flanqueada por 
George, Michael e sua secretria Ruth. Ruth carregava diversas pastas e 
George e Michael estavam conversando. Pouco a pouco, George vinha 
entregando o comando da firma a Michael e estava surpreso ao descobrir como 
isso o aliviava. Somente Marion parecia interessada no grupo e correu os olhos 
pelos rostos, para certificar-se de que estavam todos presentes. Parecia ter 
naquele dia a mesma cor de areia da decorao, mas Wendy presumiu que fosse 
.simplesmente a palidez tpica de Nova York. Ficara to acostumada a ver 
rostos bronzeados na Califrnia que era um pequeno choque retornar a Nova 
York e compreender como todos estavam plidos em pleno inverno da costa do 
Atlntico.
      Mas Marion parecia to elegante quanto sempre, num vestido que devia 
ser Givenchy ou Dior, bem simples, de l preta, contrastando com as quatro 
fieiras de prolas grandes e perfeitamente iguais. O verniz das unhas era 
escuro e ela parecia estar usando pouca maquilagem. At mesmo Michael estava 
achando Marion extremamente plida, provavelmente por estar trabalhando 
demais naquele projeto e em dez outros ao mesmo tempo. A me fazia questo 
de envolver-se em todos os trabalhos da firma. Ela era assim e estava acabado. 
E Michael parecia estar seguindo em suas pegadas. Marion admirava a 
dedicao total do filho ao trabalho, nos ltimos dois anos. Era assim que os 
imprios bem sucedidos se mantinham saudveis, recebendo o sangue daqueles 
que o acalentavam. Os guardies sagrados. Os que cuidavam do Santo Graal.
       Marion foi a primeira a falar. Pegou a primeira pasta na frente de Ruth 
e comeou a interrogar os participantes da reunio, departamento por 
departamento, discutindo os vrios problemas que haviam surgido desde a 
ltima reunio, verificando as solues. Tudo transcorreu sem problemas, at 
que ela chegou a Ben. Marion ficou imensamente satisfeita com o que ele e 
Wendy haviam alcanado em So Francisco, os resultados de suas, reunies, 
todos os novos desenvolvimentos. Marion foi conferindo as informaes com 
uma lista que tinha a sua frente, olhando de vez em quando para Michael, com 
extrema satisfao. O trabalho de So Francisco ia aos poucos adquirindo uma 
forma esplendida
      - S tivemos um problema.
      Ben falou um pouco baixo demais e todos os olhos prontamente se 
fixaram nele.
      -  mesmo? E qual foi?
      - Uma jovem fotgrafa. Vimos o trabalho dela e gostamos muito. 
Queramos discutir a possibilidade de contrat-la para o trabalho de arte do 
saguo de todos os prdios do centro. Mas ela no quis nem mesmo conversar 
conosco.
      - O que isso significa?
      Marion estava visivelmente contrariada.
      - Apenas isso. Quando soube por que eu estava telefonando, ela quase 
bateu o telefone na minha cara.
      Marion alteou as sobrancelhas, inquisitivamente.
      - Ela sabia quem voc representava?
      Como se isso pudesse mudar tudo. .. Michael disfarou um sorriso, assim 
como Ben. Marion tinha um orgulho to grande da firma que estava convencida 
de que todos desejavam trabalhar com eles.
      - Sabia. Mas receio que isso no a fez mudar de idia. Se houve alguma 
mudana, foi aparentemente a de deixa-la ainda mais irritada.
      - Irritada?
      Pela primeira vez naquela manh havia um pouco de cor no rosto de 
Marion, embora sua expresso fosse sombria. Quem essa tola jovem pensava 
que era, recusando-se a trabalhar para a Cotter-Hillyard?
      - Talvez irritada seja a palavra errada. Talvez fosse mais apropriado 
dizer que isso a apavorou.
      No era bem isso, mas atendia  necessidade do momento. Para 
apaziguar Marion. As duas manchas vermelhas nas faces dela comearam a se 
desvanecer, para alvio de todos, especialmente de Ben.
      - Vale a pena insistir nela?
      - Acho que sim. E, trouxemos algumas amostras de seu trabalho para 
apresentar. Creio que todos vo concordar comigo.
      - Como conseguiu as amostras do trabalho, dela se a jovem nem mesmo 
quis discutir com voc a possibilidade de trabalhar para ns?
      - Compramos as fotos na galeria que est expondo os trabalhos dela. Foi 
uma extravagncia, mas se houver algum problema, terei a maior satisfao em 
comprar pessoalmente, da firma. Ela trabalha excepcionalmente. Wendy foi at 
uma mesa perto da parede dos fundos e voltou com um portflio de tamanho 
considervel, do qual tirou trs fotografias a cores excepcionais, que Marie 
tirara em So.Francisco. Uma delas era uma cena no parque, uma composio 
bastante simples. Mostrava um velho sentado num banco, contemplando 
algumas crianas a brincarem. A foto poderia ter sido sentimental, mas no o 
era. Transmitia uma imensa compaixo. A segunda era uma cena a beira do cais, 
a vitalidade da multido no conseguindo ofuscar o sorridente vendedor de 
camares que aparecia em primeiro plano. E finalmente havia uma vista tre-
meluzindo ao crepsculo, a cidade como turistas e habitantes adoravam ver. 
Ben no disse nada. Simplesmente arrumou as fotografias de ps e depois 
recuou. Estavam ampliadas e assim todos podiam ver como o trabalho era 
excepcional. At mesmo Marion ficou em silncio por longo tempo, antes de 
finalmente assentir.
      - Voc tem razo. Vale a pena insistir para que ela trabalhe conosco.
      - Fico contente que tenha concordado. - Michael?
      Marion virou-se para o filho, mas ele parecia inteiramente, absorvido em 
seus pensamentos, enquanto contemplava as fotografias. Havia algo de 
obcecante e familiar na qualidade daquela arte, na natureza dos temas. Michael 
no sabia direito o que era, mas imediatamente deixou-o pensativo e ele se 
empenhou em livrar-se de tal nimo. No sabia explicar por que as fotografias 
o perturbavam daquela maneira, mas no podia deixar de concordar tambm 
que se tratava de um trabalho extraordinrio e iria contribuir favoravelmente 
para qualquer prdio que levasse a assinatura da Cotter-.Hillyard.
      - Gosta das fotografias tanto quanto eu, Michael? - insistiu Marion. Ele 
olhou para me e assentiu, silenciosamente, com uma expresso sombria. 
Marion no perdeu tempo. - Ben, o que temos de fazer para contrat-la?
      - Eu gostaria de saber.
      - Dinheiro,  claro. Que tipo de mulher  ela? Chegou a encontr-la 
pessoalmente?
      - Por mais estranho que possa parecer, conheci-a na vez anterior em que 
estive em So Francisco.  uma jovem de beleza impressionante. De uma 
maneira. quase irreal. Eu diria que  quase perfeita demais. Tudo o que se pode 
fazer  ficar a contempl-la.  equilibrada, simptica... quando quer ser... e 
obviamente talentosa. Era pintora antes de comear a dedicar-se  fotografia. 
As roupas pareciam dispendiosas e por isso imagino que no est exatamente 
passando fome. Na verdade, o dono da galeria comentou que ela tem uma 
espcie de patrocinador. Um homem mais velho. Se no me engano, ele falou 
que era mdico, um cirurgio plstico famoso. De qualquer forma, ela no 
precisa do dinheiro. E isso  realmente tudo o que sei.
      - Ento talvez a resposta no seja o dinheiro. - Mas subitamente Marion 
parecia to pensativa quanto o filho. Ocorrera-lhe um pensamento absurdo, 
irracional. Seria uma coincidncia horrivel, mas se fosse mesmo... - "Qual  a 
idade dessa moa?
      -  difcil dizer. Ela estava usando um chapu grande na primeira vez 
que a encontrei, ocultando parcialmente o rosto. Mas eu diria que tem... no sei 
direito, talvez seus 24 ou 25 anos. No mximo 26. Por qu?
      Ben no conseguia absolutamente entender o motivo daquela pergunta.
      - Estava apenas curiosa. Tenho certeza de que voc e Wendy fizeram o 
melhor que era possvel, Ben.  bem possvel que loja inteiramente intil 
qualquer esforo de contratar essa jovem. Mas eu gostaria de tentar. Deixe-
me todas as informaes e entrarei em contato com ela pessoalmente. Tenho 
mesmo de ir a So. Francisco, no decorrer das prximas semanas. Talvez ela se 
sinta mais constrangida Por repelir uma velha do que um rapaz. Ben sorriu ao 
ouvir a referncia a "velha". Marion Hillyard podia parecer qualquer coisa 
menos uma velha. Talvez uma mulher vigorosa de meia-idade, um verdadeiro 
dnamo, mas jamais seria uma vov encarquilhada. Mas o sorriso dele tornou-se 
sombrio ao observar o rosto de Marion. Ela estava-se tornando mais plida a 
cada momento e ele subitamente se perguntou se Marion no estaria doente. 
Mas Marion no lhe deu tempo nem a qualquer outra pessoa de indagar qualquer 
coisa. Levantou-se, manifestou sua satisfao pela reunio, pegou as 
informaes de que precisava com Ben e agradeceu o comparecimento de 
todos. Quando ela se retirou, a reunio estava encerrada. A parta margeada de 
lato da sala de Marion fechou-se silenciosamente atrs de Ruth um momento 
depois, enquanto os outros encaminhavam-se lentamente para o elevador, 
comentando os progressos do trabalha em So. Francisco.. Todos pareciam 
satisfeito.s e aliviadas pelo fato de Marion tambm estar. Geralmente, sempre 
havia algum que lhe provocava a fria. Mas naquele dia ela se mostrara 
excepcionalmente suave e Ben descobriu-se novamente a imaginar que talvez 
Marion estivesse doente. Ele foi um dos ltimos a deixar a sala de reunies, 
depois que Wendy j descera. Abruptamente, Ruth saiu correndo da sala de 
Marion e fez sinal para Michael. Ela parecia terrivelmente assustada.
      - Mr. Hillyard! Sua me... est...
      Mas foi George quem reagiu primeiro, correndo literalmente para a sala 
de Marion, com um Michael aterrado e Ben em seus calcanhares. E assim que 
entraram na sala, foi George novamente quem sabia o que fazer. Sabia onde 
estavam as plulas, que deu prontamente a Marion, com um copo com gua, 
amparando-a, com a ajuda de Michael, da cadeira na mesa at o sof. Marion 
tinha uma palidez entre cinza e esverdeada e parecia encontrar a maior 
dificuldade para respirar. Por um momento de terror, Michael descobriu-se a 
pensar que a me estava morrendo.. As lgrimas afloraram a seus olhos. Ele 
correu para a telefone a fim de chamar o Dr. Wickfield, mas Marion acenou 
debilmente do sof e falou num sussurro quase inaudvel:
      - No, Michael, no chame Wick. Acontece... a todo instante.
      Michael olhou imediatamente para George. Aquilo era novidade para ele, 
mas no. devia ser para George. Se fosse, George no saberia onde encontrar 
as plulas, o que fazer. Oh, Deus! At que ponto se tornara totalmente alheio ao 
mundo ao seu redor nos ltimos meses? Olhando para a me, plida e trmula 
no sof, Michael se perguntou qual seria a gravidade da doena dela. Sabia que 
Marion procurava freqentemente o Dr. Wickfield, mas sempre imaginara que 
fosse para certificar-se de que estava em  boas condies fsicas, no porque 
tivesse algum problema mais grave. E o problema dela certamente parecia ser 
grave. Um olhar para o pequeno vidro de plulas que George deixara em cima da 
mesa confirmou os temores de Michael. As plulas eram de nitroglicerina, o 
tratamento habitual de problemas cardacos.
      - Mame... - Michael sentou-se numa cadeira ao lado dela e segurou-lhe a 
mo... - Isso acontece com freqncia?
      Ele estava quase to plido quanto Marion, mas ela abriu os olhos e 
sorriu-lhe, depois para George. Era evidente que George  sabia de tudo.
      - No se preocupe com isso - A Voz ainda era suave, mas um pouco mais 
forte agora. - Estou bem.
      - Sei que no est bem. E quero saber mais sobre o que voc tem
      Parado ali perto. Ben ficou achando que estava a se intrometendo onde 
no devia , mas tambm no queria retirar-se. Estava aturdido demais pelo que 
presenciara. A grande Marion Hillyard, no final das contas, era humana. E 
parecia terrivelmente vulnervel e frgil, deitada ali, no vestido preto elegante 
e carssimo, que contribua para faz-la parecer ainda mais plida. Ela estava 
que nem papel enquanto conversava com o filho, mas os olhos estavam mais 
vivos que um momento antes.
      - Mame... Michael pretendia obviamente insistir no assunto, mas Marion 
no o deixou continuar:
      - Est tudo bem, querido, est tudo bem...
      Ela procurou respirar um pouco mais fundo e lentamente sentou-se no 
sof, voltando a pr os ps no cho e fitando diretamente os olhos do filho 
nico.
      -  o meu corao. Sabe que h anos, tenho problemas. 
      - Mas nunca foi srio.
      - Pois agora . - Marion falou como se isso no tivesse qualquer 
importncia. - Posso viver para me tornar uma velha implicante. Como posso 
tambm no chegar at l. Somente o tempo poder dizer. Enquanto isso, as 
plulas ajudam-me a continuar e vou seguindo em frente. Isso  tudo o que h 
para se dizer.
      - H quanto tempo isso vem acontecendo?
      - H algum tempo. Wick comeou a se preocupar h cerca de dois anos, 
mas o problema agravou-se bastante este ano.
      - Pois ento eu quero que voc pare de trabalhar. - Michael parecia um 
garoto obstinado, olhando para a me com uma expresso preocupada. - 
Imediatamente.
      Ela se limitou a rir para o filho e depois sorriu para George. Mas desta 
vez o rosto do seu aliado indicava que ele tambm estava extremamente 
preocupado.
      - No h a menor possibilidade, querido. Continuarei aqui, at no 
agentar mais. H muito o que fazer. Alm do mais, eu acabaria enlouquecendo 
se ficasse em casa. O que iria fazer durante o dia inteiro? Assistir a filmes 
horrveis na televiso e ler revistas de cinema?
      - Parece perfeito para voc. - Todos riram. - Ou ento. .. - Michael olhou 
atentamente para a me e depois para George, antes de acrescentar: - Vocs 
podiam aposentar-se e casar-se, comeando a se divertirem um pouco, para 
variar.
      Era a primeira vez que Michael reconhecia abertamente as atenes que 
George dispensara a Marion ao longo dos ltimos vinte anos. George ficou 
vermelho, mas no parecia contrariado.
      - Michael! - A me parecia quase ser novamente a mesma Marion de 
sempre. - Voc est constrangendo George.
      
      Mas, estranhamente, ela tambm no parecia chocada ou assim com a 
idia.
      Seja como for, a minha aposentadoria est fora de questo. Sou jovem 
demais para isso, quer esteja ou no doente. Acho que ainda vai ter de me 
aturar por muito tempo.
      Michael j sabia que perdera a batalha. Mas s ia ceder de.pois de opor 
o mximo de resistncia.
      Neste caso, pelo menos seja um pouco sensata e pare de viajar. No 
precisa ir a So Francisco. Posso cuidar de tudo pessoalmente. No queira 
fazer tudo por si mesma. Fique em casa e cuide um pouco mais de si mesma.
      Marion limitou-se a rir e levantou-se, caminhando at sua mesa. Parecia 
abalada, cansada e plida ao sentar-se na cadeira, enquanto todos a 
observavam com profunda preocupao.
      - Eu gostaria que vocs se retirassem e parassem de parecer to 
sentimentais. Todos vocs. Tenho muito trabalho a fazer. O  que, 
aparentemente, no acontece tambm com vocs.
      - Vou lev-la para casa, mame. Pelo menos por hoje. Michael parecia 
beligerante enquanto a fitava, mas Marion sacudiu a cabea firmemente.
      - No vou, Michael. E agora trate de sair daqui ou mandarei George 
expuls-lo. - George achou graa da idia. - Posso ir embora mais cedo, mas no 
vou sair agora. Assim sendo, agradeo a sua preocupao e tudo o mais. Ruth!
      Ela apontou para a porta, que a secretria obedientemente abriu. Um 
por um, impotentes, todos sairam. Marion era mais forte que todos eles e sabia 
disso..
      - Marion...
      George parou na porta, com uma expresso preocupada nos olhos.
      - Pois no?
      O rosto de Marion suavizou-se ao fit-lo e ele sorriu.
      - No quer ir para casa agora?
      - Daqui a pouco.
      Ele assentiu.
      - Voltarei dentro de meia hora.
      Marion sorriu, mas mal pde esperar que a porta se fechasse atrs dele. 
No havia em sua mente a menor dvida sobre o motivo que causara o ataque. 
No podia mais ficar excitada com coisa alguma. Estava realmente se tornando 
um transtorno terrvel. Ela olhou para o relgio, enquanto discava o nmero que 
Ben lhe fornecera. Escutou o telefone tocar trs ou quatro vezes. No sabia 
por que tinha tanta certeza. Desde o momento em que Ben comeara a 
descrever Marie Adamson.. Tentaria encontrar-se com a moa quando fosse a 
So Francisco. Talvez ento pudesse ter certeza absoluta. Ou talvez no. 
Talvez as mudanas tivessem sido grandes demais. Perguntou-se se realmente 
saberia. E nesse momento a moa atendeu o telefone. Marion respirou fundo, 
fechou os olhos e falou suavemente. Ningum poderia imaginar, ao ouvi-la, que 
sofrera um ataque apenas meia hora antes. Como sempre, Marion Hillyard 
estava no controle total de si mesma.
      - Miss Adamson? Aqui  Marion Hillyard, de Nova York. A conversa foi 
breve, fria e constrangida. Ao desligar, Marion no sabia nada mais que antes. 
Mas iria saber. Dentro de trs semanas exatamente. Haviam marcado um 
encontro para as quatro horas da tarde de tera-feira, dentro trs semanas. 
Marion anotou em sua agenda, depois recostou-se na cadeira e fechou os olhos. 
O encontro poderia nada revelar-lhe, mas por outro lado... havia algumas coisas 
que ela tinha de dizer. S esperava viver por mais trs semanas.
      
      
    

Captulo 22
      
      O relgio parecia bater interminavelmente, na sala de estar da sute do 
Fairmont. A vista da baa e do Condado de Marin alm era espetacular, mas 
Marion Hillyard no estava interessada em paisagens. Estava pensando na moa. 
O que teria acontecido com ela? Como seria a sua aparncia agora? Ser que 
Gregson realmente operara as maravilhas que prometera dois anos antes? Bem 
Avery vira uma estranha ao se encontrar com Marie Adamson. Mas ser que 
Michael poderia ainda reconhec-la? E ser que ela agora estava agora 
apaixonada por outro homem ou ento, como Michael, tornara-se amargurada e 
afastada do mundo? Marion pensou novamente no filho, enquanto esperava pela 
estranha que poderia ser na realidade a moa que Michael outrora amara. E se 
no fosse? Podia ser qualquer pessoa, uma fotgrafa de So Francisco que 
atrara a ateno de Ben Avery. Talvez a teoria dela estivesse errada. Talvez...
      Marion cruzou e descruzou as pernas, depois pegou novamente a bolsa 
para tirar outro cigarro. A cigarreira era nova. George lhe dera de presente de 
Natal. Uma cigarreira de ouro, com as suas iniciais gravadas com safiras 
maravilhosas. Marion acendeu o cigarro com o isqueiro que combinava com a 
cigarreira, deu uma tragada profunda e depois recostou-se na poltrona por um 
momento, os olhos fechados. Estava exausta. Fora um longo vo pela manh e 
deveria ter proporcionado a si mesmo um dia de descanso, antes de encontrar-
se com a jovem. Mas estava ansiosa demais para adiar o encontro por mais um 
dia. Tinha de saber de qualquer maneira.
      Ela olhou novamente para o relgio em cima da cornija da lareira. Eram 
16h15min. Ou seja, 19h15min em Nova York, Michael ainda devia estar 
trabalhando. Avery j teria sado para namorar aquela jovem do departamento 
de design de interiores. Marion contraiu os lbios ao pensar neles. Avery no 
era um rapaz compenetrado, como Michael. Mas tambm... Ela suspirou. Mas 
tambm Avery no era infeliz como Michael. Ser que ela cometera um erro? 
Teria feito uma loucura dois anos antes? Teria exigido demais da moa? No. 
Provavelmente no. Era a moa errada para Michael. .E com o tempo, talvez ele 
encontrasse outra. No havia razo para que isso no acontecesse. Michael 
certamente possua tudo o que era necessrio: aparncia, dinheiro, posio. Ia 
ser o presidente de uma das principais firmas da Amrica. Era um homem de 
poder e talento, simpatia e charme.
      O rosto, de Marion abrandou-se novamente, enquanto pensava no filho. 
Como Michael era bom e forte... e como era solitrio. Ela tambm podia 
perceb-lo. Ele chegava at mesmo a manter certa distncia da prpria me. 
Era como se uma parte dele jamais houvesse voltado ao convvio das outras 
pessoas. Pelo menos as bebedeiras e os perodos de isolamento haviam cessado, 
mas apenas para serem substitudos por uma determinao sombria e 
angustiada, que transparecia visivelmente nos olhos de Michael. Como um 
homem que se empenhara por tempo demais a vencer o deserto, determinado a 
consegui-lo, mas no mais sabendo por qu. E, no entanto, Michael tinha tudo 
para ser feliz, todos os motivos para desfrutar a vida. Mas jamais tirava tempo 
para desfrutar qualquer coisa. Marion nem mesmo tinha certeza se o filho 
gostava do trabalho, pelo menos da maneira como ela gostava. Ou da maneira 
como o pai e o av de Michael haviam gostado. Ela voltou a pensar no marido, 
com profunda ternura. Depois, lentamente, seus pensamentos se deslocaram 
para George. Como George fora maravilhoso com ela nos ltimos anos. Teria 
sido impossvel continuar em seu trabalho sem a ajuda de George. Ele removia 
os fardos dos ombros dela to freqentemente quanto era possivel, deixando-
lhe apenas as decises importantes, o trabalho criativo. E a glria. Marion sabia 
quantas vezes George fizera isso por ela. Era um homem de grande fora e, ao 
mesmo tempo, de profunda humildade. Ela se perguntou por que no prestara 
maior ateno a todas as virtudes de George uma dzia de anos antes. Mas 
nunca houvera tempo. Para George ou para qualquer outro. No desde a morte 
do pai de Michael. Talvez, no final das contas o filho no fosse to diferente 
dela.
      Marion estava sorrindo para si mesma quando a campainha da porta da 
sute interrompeu-lhe os pensamentos. Ela teve um sobressalto, como se 
houvesse esquecido por um momento onde estava. Eram 16h25min. A moa 
estava 25 minutos atrasada. Mas, secretamente, Marion sentia-se satisfeita 
por ter podido passar esse tempo sozinha.
      Ela ajeitou o rosto numa mscara distinta e caminhou calmamente at a 
porta. O vestido de seda azul-marinho e as quatro fileiras de prolas caam 
nela  perfeio, assim como as unhas impecveis, a maquilagem discreta que a 
fazia parecer mais com 45 anos do que beirando os 60 anos. Ainda seria uma 
bela mulher dentro de 20 anos, se vivesse at l. Nada podia vencer Marion 
Hillyard, nem mesmo o tempo. Ela deu os parabns a si mesma por isso 
enquanto abria a porta para a jovem elegante com o portflio de artista nas 
mos.
      - Miss Adamson?
      - Exatamente. - Marie assentiu com um pequeno sorriso tenso. - Sra. 
Hil1yard?
      Mas ela sabia. No vira Marion naquela noite de maio porque seus olhos 
estavam vendados, mas a conhecia bastante das fotografias no apartamento de 
Michael. Teria reconhecido a me dele at num beco escuro em Tquio. Aquela 
era a mulher que atormentara seus sonhos por dois anos. Aquela era a mulher 
que quisera outrora como sua me e amiga. Mas isso no mais acontecia.
      - Como tem passado? - Marion estendeu a mo fria e firme. Apertaram-
se as mos cerimoniosamente, ainda na porta, antes que Marion fizesse um 
gesto na direo do interior da sute.
      -No quer entrar?
      - Obrigada.
      As duas mulheres se fitaram com interesse e cautela. Marion sentou-se 
numa cadeira perto da mesa. Mandara providenciar ch e refrescos para a sua 
convidada. Parecia muito trabalho para uma jovem que j lhe custara quase 
meio milho de dlares. Se  que se tratava da mesma moa. Ela a fitou 
atentamente, mas nada conseguiu descobrir. No havia qualquer semelhana 
com nenhuma das fotografias que vira ao longo dos anos. Aquela no era a 
mesma moa. Ou pelo menos no parecia ser. Mas Marion recostou-se para 
observ-la e escutar. Jamais esqueceria aquela voz entrecortada e abalada da 
ocasio em que tinham. feito o acordo.         
      - O que posso oferecer-lhe pra beber? Ch? Soda! Ou podemos pedir um 
drinque, se preferir.
      - No, obrigada, Sra. Hillyard. Prefiro apenas...
      Mas a voz de Marie se desvaneceu, enquanto as duas se fitavam, o 
pretexto do encontro quase esquecido, a mulher mais velha avaliando a mais 
moa, observando-lhe os movimentos, a textura e jeito dos cabelos, tomando a 
contemplar novamente a impresso global. Era uma jovem extremamente 
bonita, em roupas visivelmente dispendiosas. Marion descobriu-se a perguntar 
a si mesma se o dinheiro que fornecia para a moa sobreviver no estaria sendo 
gasto em trajes assim. O vestido de l era obviamente de Paris, a bolsa de 
camura e os sapatos eram de Gucci, a capa bege era simples, revestida com 
uma pele escura que Marion julgou ser de gamb americano.
      - Est usando um casaco muito bonito, que deve ser mais do que 
suficiente para esta cidade. Invejo imensamente o clima ameno de So 
Francisco. Quando parti, Nova York estava sob meio metro de neve. - Marion 
exibiu um sorriso cativante para a jovem, antes de acrescentar: - Conhece 
Nova York?
      Era uma pergunta com segundas intenes e Marie sabia disso. Mas 
podia responder com toda sinceridade. Vivera na Nova Inglaterra, mas passara 
muito pouco tempo em Nov.a York. Se tivesse casado com Michael, teria ido 
viver em Nova York. Mas isso no acontecera. O rosto impassvel e a voz um 
pouco mais dura, ela respondeu:
      - No conheo muito bem. No sou realmente uma pessoa que aprecie a 
cidade grande. No tenho o traquejo de cidade grande.
      Ela era agora pura Marie, no havia o menor vestgio de Nancy
      -  difcil de acreditar, pois me parece to elegante quanto a melhor 
mulher de cidade grande.
      Marion tornou a sorrir, mas era o sorriso de uma barracuda 
contemplando um tenro barrigudinho.
      - Obrigada.
      Sem dizer mais nada, Marie pegou o portflio, ps em seu colo, enquanto 
Marion observava, e puxou o zper. Sorridente, entregou Marion um grosso 
livro preto, com cpias de seus trabalhos. O livro era grande e difcil de 
manejar, a mulher mais velha pareceu titubear ao peg-lo. Foi s nesse 
momento que Marie notou como as mos dela tremiam. O tempo no fora 
generoso com Marion  Hillyard, no final das contas. Seria possvel que algumas 
de suas preces mais horrendas houvessem sido atendidas? Ela ficou 
observando a mulher atentamente, mas Marion pareceu recuperar o controle, 
enquanto virava as pginas, em silncio. S depois de um tempo  que ela 
comentou:
      - Posso entender por que Ben Avery ficou to ansioso em contrat-la 
para o nosso centro. Seu trabalho  extraordinrio. Deve ter uma experincia 
de muitos anos.
      Para variar, era uma pergunta inocente. Marie sacudiu a cabea.
      - No. A fotografia  uma atividade nova para mim. Eu era pintora antes.
        -  isso mesmo. Ben tinha-me falado.
      Contudo, Marion parecia surpresa. Esquecera-se na verdade de que 
podia estar falando com Nancy McAllister, de to absorvida que ficara ao 
contemplar os trabalhos.
      -  to boa assim em pintura?
      - Eu pensava que era.
      Marie sorriu para a mulher. Uma transformao quase fantstica 
estava-se processando. Ela sentia que estava observando Marion Hillyard 
atravs de um espelho de truque: podia ver Marion claramente, mas a pessoa 
que Marion via era na verdade uma outra. Marie pensou que era a nica a 
conhecer o segredo.
      - E agora gosto da fotografia tanto quanto gostava antes da pintura.
      - Por que mudou? - indagou Marion, levantando a cabea, intrigada.
      - Porque tudo na minha vida mudou, ,abruptamente, a tal ponto que me 
tornei uma pessoa nova. A pintura era parte da vida antiga, do meu outro eu. 
Doa demais lev-la para a nova vida.
      Marion quase estremeceu, ao ouvir essas palavras.
      - Entendo. Seja como for, pelo que estou vendo, o mundo no sofreu uma 
perda.  uma fotgrafa maravilhosa. Quem a iniciou na carreira? 
Indubitavelmente, s pode ter sido um dos grandes fotgrafos locais. H 
muitos por aqui.
      Mas Marie limitou-se a sacudir a cabea, sorrindo. Era muito estranho. 
Fora at ali para odiar aquela mulher, mas agora descobriu que no podia. No 
de todo.  verdade que no gostava dela, mas tambm no podia odi-la. Marion 
parecia extremamente cansada e frgil por trs da atitude arrogante e das 
prolas. Usava uma mscara morturia cuidadosamente oculta sob a 
maquilagem. Mas por baixo do verniz podia-se perfeitamente perceber, que as 
tristezas do outono estavam  espreita, com o inverno, j se avizinhando. Marie 
forou a mente a se concentrar na pergunta da mulher, tentando recordar qual 
era. Ah, sim...
      - No foi, no. Para dizer a verdade, foi um amigo quem me iniciou. Meu 
mdico, para ser mais exata. Ele foi o responsvel pela minha carreira de 
fotgrafa.  um homem que conhece todo mundo nesta cidade.
      - Peter Gregson.
      As palavras saram suavemente dos lbios de Marion, como num sonho, 
dando a impresso de que ela no tivera a menor inteno de pronunci-las. As 
duas ficaram to chocadas que passaram algum tempo em silncio, finalmente 
rompido por Marie:
      - Conhece-o?
      Por que a mulher dissera aquilo? Ser que ela sabia? Mas no era 
possvel. Ser que Peter... No, ele jamais faria uma coisa dessas.
      - Eu... conheo... - Marion hesitou por um longo momento e depois fitou a 
moa nos olhos. - Conheo-o, sim, Nancy. Ele fez um excelente trabalho em 
voc.
      Era um tiro no escuro. Mas Marion no podia deixar de dize-lo, mesmo 
que assim bancasse a tola. Precisava saber de qualquer maneira.
      - Deve haver algum mal-entendido. Meu nome  Marie. . . E no instante 
seguinte, como uma boneca de trapos, ela desmoronou. Havia lgrimas em seus 
olhos quando se levantou e foi at a janela, ficando de costas para a sala.
      - Como soube?
      A voz estava abalada e zangada. A mesma voz de dois anos atrs. Marion 
recostou-se na cadeira, cansada mas aliviada. De certa forma, confortava-a 
saber que acertara. No fizera aquela viagem difcil a troco de nada. Marie 
insistiu:
      - Algum lhe contou?
      - No. Simplesmente adivinhei. Nem mesmo sei por qu. Mas tive o 
pressentimento logo na primeira vez em que Ben men.cionou seu nome. Os 
detalhes se ajustavam.
      Oh, diabo! Marie tinha vontade de perguntar  mulher como estava 
Michael. Queria... Ser que aquilo nunca sairia de sua vida? Ser que eles nunca 
iriam embora?
      - Por que veio at aqui? Para reafirmar o nosso acordo. Marie virou-se 
bruscamente a fim de olhar para a mulher que tanto a atormentara - Para 
certificar-se de que cumprirei minha promessa?        
      - J provou isso. - A voz de Marion era cansada e gentil, estranhamente 
velha. - No, no foi por isso. Nem mesmo sei por que, mas tinha de v-la. Falar 
com voc. Descobrir como  realmente voc.
      - Por que agora? Por que eu deveria ser to interessante depois de dois 
anos? - Subitamente, havia veneno na voz de Marie e dio em seus olhos. O dio 
que ela sonhara despejar tantos meses. - Por que agora, Sra. Hillyard? Ou 
estava apenas curiosa em dar uma olhada no trabalho de Gregson? Foi isso? 
Pois o que est achando de sua obra de quatrocentos mil dlares? Valeu a pena?
      - Por que voc mesma no responde a essa pergunta? Valeu a pena? Est 
satisfeita?
      Era o que Marion esperava. Subitamente, desesperadamente, era o que 
ela esperava. Todos haviam pago um preo muito alto pelo novo rosto dela. Fora 
um erro. De repente, Marion tinha certeza disso. Mas era tarde demais. No 
eram as mesmas pessoas. Ela podia ver isso na moa, tanto quanto podia ver em 
Michael
      Era tarde demais, muito tarde mesmo, para qualquer dos dois.Teriam de 
ir procurar seus sonhos em algum outro lugar.
      -  uma linda moa agora, Marie.
      - Obrigada. Tem razo, sei que Peter fez um bom trabalho. Mas foi 
como fazer um acordo com o demnio. Um rosto por uma vida. Com um suspiro 
entrecortado, Marie afundou numa poltrona.
      - E eu sou o demnio. - A voz de Marion tremia, enquanto ela olhava para 
a moa. - Imagino que  algo repulsivo dizer isso agora, mas na ocasio pensei 
que estivesse fazendo o que era mais certo.
      - E agora? - Marie fitou-a nos olhos. - Michael est feliz? Valeu a pena            
livrar-se de mim, Sra. Hillyard? A misso foi um sucesso?
      Oh, Deus, ela queria ferir fundo aquela mulher. Queria massacra-la,         
destru-la, com todo aquele vestido de grande dama, todas as prolas...
      - No, Marie, Michael no est feliz, assim como voc tambm no est. 
Sempre pensei que ele fosse recomear a vida. E que o mesmo aconteceria com 
voc. Mas algo me diz que isso no lhe aconteceu. No que eu tenha o direito de 
perguntar. 
      - No, no tem. E Michael? Ele no est casado?
      Marie detestou-se por isso, mas rezou para que a resposta fosse no.
      - Est, sim. - Marie soltou uma exclamao de desespero, mss conseguiu 
se controlar a tempo. - Michael est casado com o seu trabalho. Vive, come, 
dorme e respira o trabalho. Como se esperasse perder-se no trabalho para 
sempre. Quase no o vejo.
      Isso  muito bom, sua miservel! Muito bom mesmo!
      - Diria ento que estava errada? Eu o amava, sabe disso. Mais que a 
qualquer coisa na vida.
      Exceto o meu rosto. .. oh, Deus... exceto...
      - Claro que sei. Mas pensei que passaria.
      - E passou?
      - Talvez. Ele nunca a menciona.
       - E alguma vez tentou-me encontrar?
      Marion sacudiu lentamente a cabea.
      - No.
      Mas ela no explicou o motivo para isso. No contou que Michael pensava 
que ela estava morta. A mentira lhe pesou no momento mesmo em que dizia a 
palavra, observando o rosto da moa contrair-se numa mscara de dio.
      - Mas por que estou aqui? Apenas para satisfazer a sua curiosidade? 
Mostrar-lhe o meu trabalho? Por qu?
      - No tenho certeza, Nancy. Desculpe... Marie. Simplesmente tinha de 
v-la. Saber como fora para voc. Imagino que seja um tanto sentimental dizer 
isso, mas a verdade  que estou morrendo.
      Marion parecia estar sentindo um pouco de pena de si mesma, mas no 
instante seguinte ficou aborrecida por ter falado. Marie no pareceu ficar 
comovida. Ficou olhando fixamente para a mulher por longo tempo, antes de 
voltar a falar, a voz suave, hesitante:
      - Lamento saber disso, Sra. Hillyard. Mas eu morri h dois anos. E tenho 
a impresso de que a mesma coisa aconteceu com seu filho. Assim, somos dois. 
Nas suas mos, Sra. Hillyard. Para ser sincera,  muito difcil para mim sentir 
alguma simpatia por si. Creio que deveria pelo menos ser grata.. Talvez devesse 
agradecer-lhe porque os homens viram a cabea para me olhar todos os dias, ao 
invs de sarem correndo horrorizados. Talvez devesse sentir uma poro de 
coisas. Mas no sinto. No sinto nada por si agora, a no ser pena, porque 
arruinou a vida de Michael e sabe disso. Para no falar do que fez com a minha 
vida.
      Marion assentiu em silncio, sentindo todo o impacto da censura da 
jovem. Ela prpria j sabia de tudo aquilo. Secretamente, j o sabia h dois 
anos. Pelo menos em relao a Michael. No o sabia em relao  moa. Talvez 
tivesse ido procur-la justamente por isso.
      - No sei o que dizer.
       - Adeus seria timo.
      Marie pegou o casaco e o portflio e encaminhou-se para a porta da 
sute. Parou ali por um momento, a mo na maaneta, a cabea baixa, as 
lgrimas comeando a escorrer pelas faces. Virou-se lentamente e viu que 
tambm havia lgrimas no rosto de Marion: A mulher mais velha estava 
oprimida e silenciosa por sua agonia particular, mas a jovem conseguiu respirar 
fundo e murmurar:
      - Adeus, Sra. Hillyard. E transmita... transmita a Michael... o meu amor.
      Marie fechou a porta silenciosamente ao sair. Mas Marion Hillyard no 
se mexeu. Sentia o corao bater forte contra os pulmes, em pontadas de dor 
prolongadas, que pareciam dilacerar-lhe o peito. Ofegando para respirar, 
cambaleou at a campainha que chamaria uma criada. Conseguiu apert-la uma 
vez antes de desmaiar.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 23
      
      Os passos de George ecoavam pelo corredor do hospital enquanto ele 
quase corria para o quarto dela. Por que Marion insistira em ir sozinha? Por que 
sempre tinha de ser to terrivelmente independente, mesmo depois de todos 
aqueles anos? Ele bateu de leve na porta e uma enfermeira abriu-a com 
expresso inquisitiva.
      -  o quarto da Sra. Hillyard? Sou George Calloway. Ele parecia nervoso, 
cansado e velho. E era tambm assim que se sentia. J no agentava mais todo 
aquele absurdo. E era o que ia dizer a Marion assim que a visse. J o dissera a 
Michael antes de deixar Nova York.
      A enfermeira sorriu ao ouvir o nome dele.
      - , sim, Mr Calloway. Estvamos a sua espera. Marion estava no hospital 
desde as seis horas da tarde. George conseguira chegar a So Francisco por 
volta das onze horas da noite, horrio local. Agora, passavam alguns minutos de 
meia noite. Era praticamente impossvel fazer a viagem mais depressa. O 
sorriso de Marion reconhecia esse fato quando a enfermeira abriu a porta para 
deixar George entrar, ao mesmo tempo em que saa para o corredor.
      - Ol, George.
      - Ol, Marion. Como se sente?
      - Cansada, mas viverei. Pelo menos foi o que me disseram. O ataque no 
foi dos maiores.
      - Desta vez. Mas como ser na prxima?
      George parecia invencvel ao avanar pelo quarto, fitando-a com uma 
expresso furiosa. No se deteve nem mesmo para beij-Il. Tinha muito o que 
dizer.
      - Vamos deixar para nos preocupar com a prxima vez quando acontecer. 
E agora sente-se e relaxe, George. Est-me deixando nervosa. O que o est 
incomodando? Pedi  enfermeira que lhe guardasse um sanduche.
      - No posso comer.
      - Pare com isso! Nunca o vi desse jeito, George. No foi nada srio. No 
precisa ficar assim.
      - No me diga como devo estar, Marion Hillyard. Venho observando-a 
destruir-se a si mesma h tempo demais e agora no vou mais admitir.
      - Vai-me deixar? - Marion sorriu-lhe da cama. - Por que no se 
aposenta?
      Ela estava achando graa da cena, at o momento em que George virou-
se para fit-la com expresso decidida. .
      -  exatamente o que vou fazer, Marion. Aposentar-me.
      Ela percebeu que era srio. E era tudo o que lhe faltava naquele 
momento.
      - No seja ridculo.
      Mas Marion no tinha certeza se conseguiria demov-lo. Ela se sentou 
na cama, com um sorriso nervoso.
      -No estou sendo, Marion.  a primeira deciso inteligente que tomo nos 
ltimos vinte anos. E quer saber quem mais vai-se aposentar tambm? Voc, 
Marion. Ns dois vamos nos aposentar. Imediatamente. J conversei a respeito 
com Michael, a caminho do aeroporto. Ele teve a gentileza de me levar ao 
aeroporto e pediu para dizer-lhe que lamenta no poder vir tambm, mas est 
preso em Nova York neste momento. Michael acha que nossa aposentadoria  
uma excelente idia. E  o que eu tambm penso. Para ser franco, ningum est 
interessado no que voc pensa, Marion. A deciso j foi tomada.
      - Ficou doido. George? E o que pensa exatamente que vou fazer com o 
meu tempo se me aposentar? Ficar tricotando?
      - No seria uma idia das piores. Mas a primeira coisa  que vai fazer  
casar-se comigo. Depois disso, pode fazer qualquer coisa que lhe aprouver. 
Menos... - A voz de George se alteou ameaadoramente. - ... trabalhar. Est 
bem claro, Sra. Hillyard?
      - No vai ao menos me pedir para casar-me com voc? Ou simplesmente 
est-me dizendo e pronto? Ser que isso  tambm uma ordem de Michael?
      Mas Marion no estava zangada. Ao contrrio, estava comovida. E 
aliviada. J no agentava mais. J fizera o bastante, em todos os sentidos, os 
piores e os melhores. E tambm sabia disso. O encontro com Marie naquela 
tarde a levara a compreender tudo.
      - Temos a aprovao de Michael, se  que isso faz alguma diferena. - E 
um momento depois a voz de George se abrandou, enquanto se aproximava da 
cama e pegava a mo de Marion, apertando-a gentilmente. - Quer casar-se 
comigo, Marion?
      Ele estava quase que com medo de perguntar, depois de todos aqueles 
anos. Mas finalmente conversara com Michael a respeito, nos momentos 
ansiosos antes do vo. Michael dissera-lhe algo estranho a respeito de 
"celebrar o amor de vocs". George no compreendera, mas ficara grato pelo 
estmulo.
      - E ento, quer casar-se comigo?
      Ele apertou a mo de Marion um pouco mais firmemente, enquanto 
aguardava a resposta. Ela assentiu lentamente, com um sorriso cansado, mas 
afetuoso, uma expresso quase de pesar.
      - Deveramos ter pensado h muitos anos, George. Marion queria dizer 
algo mais... que no estava certa se tinha o direito... no depois...
      - Pensei nisso h muitos anos, mas nunca me passou pela cabea que voc 
pudesse aceitar.
      - Provavelmente eu no teria aceitado. Porque sou uma idiota. Oh, 
George... - Marion suspirou e tornou a recostar-se nos travesseiros. - Tenho 
feito tantas coisas estpidas na vida. . .
      O rosto dela deixou subitamente transparecer toda a agonia da tarde. 
George ficou a observ-la atentamente, aturdido pelo tormento que via no 
rosto de Marion, misturado com a fadiga.
      - No diga tamanha bobagem. No consigo lembrar-me de uma nica 
besteira que voc tenha feito em todos esses anos em que nos conhecemos. - 
Ele continuava a segurar a mo de Marion, afagando-a afetuosamente. H anos 
que queria fazer isso, exatamente daquela maneira. - No se atormente com as 
bobagens do passado.
      Mas Marion havia-se novamente sentado na cama e fitava-o nos olhos, a 
mo fria e tensa.
      - E se uma bobagem dessas, como voc chama, tiver destrudo as vidas 
de outras pessoas? Tenho o direito de esquecer isso tambm, George?
      - Ora, Marion, o que voc poderia ter feito para destruir a vida de outra 
pessoa?
      George comeou subitamente a pensar que o mdico talvez tivesse 
aplicado uma droga bem forte a Marion. Ou talvez o ltimo ataque a tivesse 
afetado mentalmente. O que ela dizia no fazia o menor sentido.
      Marion voltou a se acomodar entre os travesseiros e fechou os olhos.
      - No compreende, George.
      - E deveria?
      A voz dela era extremamente gentil, no quarto quase s escuras.
      - Talvez. Se soubesse, tenho certeza de que no estaria to ansioso em 
casar-se comigo.
      - No diga bobagem. Mas se  assim que se sente, ento acho que tenho 
o direito de saber o que a est perturbando. Qual  o problema?        
      George ainda no tinha largado a mo dela. Marion finalmente voltou a 
abrir os olhos. Fitou-o em silncio por longo tempo, antes de falar:
      - No sei se posso contar-lhe.
      - Por que no? No posso imaginar qualquer coisa que seja capaz de me 
chocar. E no posso tambm imaginar qualquer coisa a seu respeito que eu ainda 
no conhea. - H anos que no tinham segredos um para o outro. - Estou 
comeando a pensar que o ataque desta tarde deixou-a profundamente abalada.
      - A verdade que tive de enfrentar  que causou o ataque. .
      O tom de Marion era diferente de tudo o que George conhecera antes. 
Havia lgrimas nos olhos dela. George sentiu vontade de abraa-la, faz-la 
sentir-se melhor. Mas compreendia agora que Marion tinha realmente algo 
muito importante para contar-lhe. Seria possvel que ela tivesse mantido um 
romance com outro homem durante todos aqueles anos? A idia deixou-o 
abalado. Mas poderia aceitar at mesmo isso. Ele a amava. Sempre a amara. 
Esperara tempo demais por aquele romance para permitir agora  alguma coisa o 
estragasse.
      - Alguma coisa especial aconteceu esta tarde?
      George ficou a observ-la atentamente, esperando pela resposta. 
Marion voltou a fechar os olhos, as lgrimas escorrendo silenciosamente por 
suas faces. Ao final, ela assentiu e murmurou:
      - Aconteceu.
      - Entendo. Pois trate de relaxar agora. No vamos ficar excitados s 
por causa disso.
      George estava comeando a ficar preocupado com o estado dela.. Temia 
que tivesse outro ataque.
      - Vi a moa.
      - Que moa?
      Mas, afinal, de que moa Marion estava falando?
      - A moa pela qual Michael estava apaixonado. - As lgrimas cessaram 
por um momento. Marion sentou-se outra vez na cama e fitou-o. - Lembra-se da 
noite do acidente de Michael, em que ele foi a Nova York para conversar 
comigo? Voc apareceu no meu apartamento e ele foi embora. Estava furioso. 
Michael tinha ido dizer-me que pretendia casar-se com aquela moa. E eu lhe 
mostrei... o relatrio que tinha mandado preparar a respeito dela...
      A voz dela se desvaneceu por um momento, enquanto recordava a cena. 
George franziu a testa ainda mais. Era evidente que Marion estava confusa em 
decorrncia de alguma droga. Era a nica explicao. A moa a que ela estava-
se referindo havia morrido no acidente.
      - Marion, querida, no pode ter visto a moa. Pelo que me recordo, ela... 
ela... ahn... faleceu no...
      Mas Marion sacudiu a.cabea firmemente, os olhos jamais se afastando 
dos olhos de George.        
      - No, George, ela no morreu. Falei que ela morreu e Wick ficou de 
boca fechada. Mas a moa sobreviveu. Com o rosto inteiramente destrudo.  
exceo dos olhos.
      George no disse nada, embora estivesse escutando atentamente. Era 
uma Marion perturbada, uma Marion angustiada, mas no era uma Marion 
desvairada. George sabia que ela estava dizendo a verdade.
      - Fui at o quarto dela naquela noite e propus um acordo.         Ele 
continuou esperando, em silncio. Marion fechou os olhos, como se estivesse 
sentindo uma dor intensa. George apertou-lhe a mo ainda mais firmemente.
      - Voc est bem, Marion?
      Ela assentiu, tornando a abrir os olhos.
      - Estou, sim. Talvez eu me sinta melhor depois que lhe contar tudo. 
Ofereci um acordo  moa. O rosto dela em troca de Michael. H diversas 
maneiras mais bonitas de diz-lo, mas no final tudo se resume a isso. Wick 
disse que conhecia um homem no pas que podia restaurar o rosto dela. Custaria 
uma fortuna, mas o tal mdico poderia faze-lo. Propus  moa pagar o 
tratamento e tudo o mais que ela precisasse, at que todas as operaes 
acabassem. Ofereci-lhe uma vida inteiramente nova, uma vida que ela nunca 
tivera antes, desde que concordasse nunca mais procurar Michael.
      - E ela concordou? 
      - Concordou.
      - Neste caso, ela no devia am-lo tanto assim. E voc tomou uma 
atitude elogivel ao se oferecer para pagar a cirurgia. No podemos nos 
esquecer de que se os dois se amassem tanto jamais teriam aceitado um acordo 
assim.
      - No esta compreendendo, George.- O tom de Marion era agora gelado. 
Mas sua raiva estava dirigida contra si mesma e no contra George. - No fui 
honesta com nenhum dos dois. Disse a Michael que ela havia morrido. E sabia 
perfeitamente que a moa tinha certeza de que Michael jamais respeitaria o 
acordo. Foi provavelmente por isso que ela concordou. Por isso e pelo fato de 
que no tinha alternativa. Nada mais lhe restava. Exceto eu. . oferecendo-lhe 
um acordo com o demnio, como ela prpria classificou esta tarde. George, 
voc sabe muito bem que Michael jamais teria aceitado um acordo desses, se 
soubesse da verdade. Teria voltado para a moa sem a menor hesitao.
       - Ele no sofreu tanto assim. E j se recuperou.  possvel tambm que 
os dois nem mesmo continuassem a se amar agora.
      George estava procurando desesperadamente por um blsamo para as 
feridas de Marion.. Mas no podia deixar de admitir que era uma ferida 
profunda e devia ter sido muito difcil suport-la.Sabia que Marion pensara que 
estava defendendo os interesses de Michael, mas ela jogara com a vida do 
filho.
      -  verdade, Marion. Provavelmente os dois se tornaram bastante 
diferentes. Podem nem mesmo querer saber um do outro agora
      - Sei disso. - Marion recostou-se nos travesseiros, com suspiro - 
Michael est obcecado por seu trabalho. No tem amor, no tem ternura, no 
tem tempo, no tem nada. Nada lhe restou e sei disso melhor que qualquer 
outra pessoa. E ela. .. - Marion recordou dolorosamente os acontecimentos 
daquela tarde. - Ela  bonita, elegante. E amargurada e furiosa, dominada pelo 
dio. Formam um casal  encantador.
      - E voc se julga a responsvel por tudo isso?
      - Sabendo o que sabe agora, no concorda? - Contra a sua vontade, os 
olhos de Marion voltaram a se encher-se de lgrimas. Cometi um erro terrvel 
ao me intrometer entre os dois, George.
      - Talvez os danos possam ser reparados. E nesse intervalo, voc 
devolveu a vida  moa. E uma vida melhor, sob certos aspectos.
      - E ela me odeia por isso.
      - Ento  uma tola.
      Marion sacudiu a cabea.
      - No, George. Ela est certa. Eu no tinha o direito fazer o que fiz. E 
se tivesse alguma coragem, por menor que fosse, contava tudo a Michael.
      Mas apesar de seus princpios, George esperava que ela jamais chegasse 
a isso. A ira de Michael destruiria Marin. O filho nunca mais voltaria a 
respeit-la como antes.
      - No conte nada a Michael, querida. Agora, no iria adiantar coisa 
alguma.
      Marion percebeu o medo nos olhos dele e sorriu.
      - No se preocupe. No sou to corajosa assim. Mas Michael vai acabar 
descobrindo. Com o tempo. Darei um jeito para que isso acontea. Ele tem o 
direito de saber. Mas espero que ele ouo tudo por intermdio da moa, no 
momento em que ela o aceitar de volta. Talvez assim ele possa perdoar-me.
      - Acha que h alguma possibilidade da moa aceitar Michael de volta?
      - Creio que no. De qualquer forma, devo fazer o que puder.
      - Oh, Deus...
      - Fui eu que comecei tudo isso. Agora, devo aos dois alguma coisa. Talvez 
nada resulte disso tudo, mas tenho a obrigao de tentar.
      - Por acaso manteve-se em contato com a moa durante todo esse 
tempo?
      - No. Tornei a v-la e falar-lhe pela primeira vez hoje. 
      - Estou entendendo agora. E como foi que isso aconteceu?
      - Marquei um encontro. No tinha certeza se era ela mesma, mas 
desconfiava. E estava certa.
      Marion parecia satisfeita consigo mesma e George sorriu pela primeira 
vez na ltima meia hora.
      - Deve ter sido um encontro e tanto.
      George compreendia agora por que Marion tivera um novo ataque. Era de 
admirar que no a tivesse matado.
      - Poderia ter sido pior. - A voz dela era outra vez gentil, os olhos 
voltaram a se encher de lgrimas. - Poderia ter sido muito pior. Tudo o que 
realmente fez foi mostrar-me como eu estava errada, que destrura a vida 
dela, assim como a de Michael..
      - Pare com isso, Marion. No destruiu nenhum dos dois. Deu a Michael 
uma carreira pela qual qualquer homem sacrificaria a prpria vida e deu  moa 
algo que ningum mais podia ter.
      - O qu? Desespero? Angstia?
      - Se  assim que ela se sente, ento  uma ingrata. O que me diz de um 
rosto novo? Uma vida nova? Um mundo novo?
      - Desconfio que  um mundo extremamente vazio, exceto pelo trabalho 
dela. Nesse sentido, ela  muito parecida com Michael.
      - Nesse caso, talvez eles possam novamente construrem algo juntos. 
Mas, at l, o que est feito, est feito. No pode continuar a se punir para 
sempre por causa disso. Fez o que pensou que era certo na ocasio. E eles so 
jovens, querida. Ambos possuem uma vida inteira pela frente. Se a 
desperdiarem, a culpa ser deles. O que no devemos fazer  desperdiar a 
nossa. George queria dizer que "resta-nos pouco tempo", mas no o fez. 
Inclinou-se em direo a Marion, enquanto ela se estendia na cama e levantava 
os braos para ele. George apertou-a firmemente, sentindo todo o calor do 
corpo dela em seus braos.
      - Eu a amo, querida. Lamento que tenha passado por tudo isso sozinha, 
sem me contar. Deveria ter-me falado tudo h muitos anos.
      - Voc ter-me-ia odiado.
      A voz de Marion estava abafada por seus prprios soluos e pulo ombro 
de George.
      - Nunca. Nem naquela ocasio nem agora. Jamais seria capaz de qualquer 
outro sentimento que no o de am-la. E a respeito profundamente por me 
contar tudo agora. Eu jamais teria sabido.
      - Mas eu saberia, George. E tinha de descobrir o que voc pensava.
      - Acho que tudo isso foi uma agonia para todos. .Agora faa o que puder 
para remediar a situao e depois no pense mais assunto. Afaste-o de sua 
mente, do corao, da conscincia. Est acabado. E ns dois temos uma vida 
nova para comear. Temos o direito a essa vida. Voc pagou caro por tudo o que 
fez. .No tem de punir-se a si mesma por coisa alguma. Vamos casar-nos e ir 
embora, viver a nossa vida. Deixemos que eles cuidarem de suas prprias vidas. 
        - Ser que tenho realmente o direito a isso?
      Marion parecia mais jovem outra vez quando George contemplou-lhe o 
rosto.
      - Tem, meu amor, claro que tem. - E no instante seguinte ele a beijou, 
gentilmente a princpio, depois sofregamente. Ao diabo ,com Michael, a moa e 
tudo o mais. Ele queria Marion com tudo o que ela tinha de bom e de ruim, com 
seu gnio e seu excessos. - E agora voc vai-se esquecer de tudo e tratar de 
dormir. Amanh, vamos sentar-nos e planejar o casamento. Comece a pensar em 
coisas mais sensatas, como o tipo de vestido que vai encomendar e quem vai 
providenciar as flores. Entendido?
      Marion fitou-o nos olhos e riu.
      - George Callaway, eu o amo.
      - O que  timo. Mesmo que no me amasse, eu me casaria com voc de 
qualquer maneira. Nada me deteria agora. Entendido?         
      - Sim, senhor.        
      Estavam-se olhando radiantes, quando a enfermeira meteu a cabea pela 
porta. Era uma hora da madrugada. E com instrues especiais do mdico ou 
no, ele tinha de se retirar. George assentiu para indicar que compreendia deu 
um beijo de leve em Marion, apertou-lhe a mo e presenteou-a com um sorriso 
que nada poderia ofuscar, deixando o quarto relutantemente. Deitada na cama, 
Marion sentiu-se enormemente aliviada. Ele a amava de qualquer maneira. E lhe 
devolvera um pouco de sua prpria f em si mesma.
      Olhando para o relgio, Marion decidiu telefonar para Michael. Talvez 
pudesse fazer imediatamente alguma coisa para remediar a situao. Ao 
inferno com a diferena de horrio. No tinha um momento a desperdiar. 
Nenhum deles tinha. Ela pegou o telefone no quarto s escuras e discou para o 
apartamento de Michael em Nova York. O telefone tocou quatro vezes antes 
que Michael atender balbuciasse, sonolento:
      - Al?
      - Sou eu, querido
      - Mame? Voc est bem?
      Michael acendeu rapidamente a luz e fez um esforo para ficar 
inteiramente desperto.
      - Estou tima. E tenho uma coisa para lhe dizer.
      - J sei. George me falou.
      Michael bocejou e sorriu ao telefone, depois olhou para o relgio. Puxa! 
Eram cinco horas da manh em Nova York. Duas horas da madrugada em So. 
Francisco. Que diabo Marion estava fazendo acordada e onde se metera a 
enfermeira dela?
      - Voc aceitou?
      - Claro. As duas propostas. Vou at me aposentar. Isto , mais ou menos.
      Michael no pde deixar de rir ao ouvir as ltimas palavras. Era tpico 
de Marion. George ia ter o maior trabalho para cont-la. Mas ele se sentia 
satisfeito pelos dois.
      - Mas estou telefonando por outro motivo.
      Marion parecia novamente firme e profissional. Michael soltou um 
resmungo. J conhecia aquele tom.
      - No me venha tratar de negcios a essa hora! Por favor!
      - No diga bobagem. Isso no  hora para tratar de negcio. Queria 
dizer-lhe que me encontrei com a jovem.
      - Que jovem?        
      A mente de Michael estava em branco. Fora um dia extremamente 
difcil. Trs reunies, cinco encontros e a notcia de que a me sofrera outro 
ataque, sozinha em So Francisco.
      - A fotgrafa, Michael. Acorde.
      - Ah, sim... E da?
      - Ns a queremos.
      - Queremos?
      - Absolutamente. No posso insistir agora, porque George ficaria uma 
fera comigo. Mas voc pode.
      - Deve estar brincando. Tenho muito o que fazer aqui em Nova York. Ben 
pode cuidar do problema.
      - Ela j o repeliu, Michael. E  uma jovem de classe, inteligncia e 
carter. No vai querer tratar com subalternos.
      - Pois ela est-me parecendo insuportvel.
      - Era a mesma impresso que eu tinha. Preste ateno, Michael, no 
importa o que tenha de fazer, quero que a contrate de qualquer maneira. 
Lisonjeie-a, conquiste-a, pegue um avio o venha at aqui, convide-a para 
jantar. Seja o mais encantador que puder. Ela vale a pena.- Quero o seu 
trabalho no centro. Faa isso por mim.
      Marion estava engabelando o filho suavemente, o que era uma novidade. 
Ela sorriu para si mesma.
      - Ficou doida, mame, e no tenho tempo a perder com essas coisas. - 
Michael estava deitado na cama, sorrindo. No havia a menor dvida de que a 
me tinha perdido o juizo. Por que no o faz pessoalmente, mame?
      - No posso. E se voc no fizer, vou voltar ao escritrio em tempo 
integral e vai ver s o que acontece.
      Ela parecia estar falando srio e Michael teve de rir.
      - Est bem, mame. Farei o que est-me pedindo.
      - Vou exigir o cumprimento da promessa.
      - Juro que farei. Est satisfeita agora? Posso voltar a dormir?
      - Pode. Mas quero que comece a trabalhar nisso imediatamente.
      - Como  mesmo o nome dela?
      - Marie Adamson.
      - Est certo. Cuidarei disso amanh.
      - timo, querido. E... obrigada.
      - Boa noite, sua coruja doida. E por falar nisso, parabns. Posso levar a 
noiva ao altar?
      - Claro que pode. Eu jamais aceitaria outro qualquer. Boa noite, querido.
      Ambos desligaram. Em So Francisco, Marion Hillyard finalmente estava 
em paz. Talvez no funcionasse. Talvez fosse tarde demais. Os dois anos 
haviam cobrado um pesado tributo a ambos.
      Mas era tudo o que ela podia fazer agora. No, isso no era verdade. Ela 
poderia ter contado a verdade a Michael. Mas com um pequeno suspiro, antes 
de cair no sono. Marion admitiu para si mesma que ainda no estava preparada 
para assumir a santidade. Iria ajud-los um pouco. Mas no iria alm disso. No 
contaria a Michael o que fizera. Ele provavelmente acabaria descobrindo, mas 
talvez, a esta altura, j houvesse felicidade suficiente para amortecer o golpe.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 24
      
      George beijou-a ternamente na boca e a msica suave recomeou. 
Marion contratara trs msicos para tocarem no casamento, em seu 
apartamento. Havia cerca de 70 convidados e a sala do jantar fora 
transformada em pista de dana. O buf estava arrumado na biblioteca. E era 
um dia perfeito. O ltimo do ms de fevereiro, um dia claro, frio e magnfico 
em Nova York. Marion estava inteiramente recuperada do pequeno 
contratempo em So Francisco e George parecia exultante. Michael beijou a 
me nas duas faces e ela posou entre o marido e o filho para o fotgrafo do 
Times. Marion usava um vestido de renda que caa at o cho e tanto Michael 
como George estavam vestidos formalmente de cala listrada e fraque. George 
usava um cravo branco na lapela enquanto o de Michael era vermelho. A noiva 
tinha um ramo de orqudeas beges, que tinham vindo de avio da Califrnia 
especialmente para a ocasio, juntamente com as flores viosas espalhadas 
pelo apartamento. O decorador de Marion cuidara disso pessoalmente.
      - Sra. Calloway?
      Era Michael, oferecendo o brao  me para conduzi-la ao buf. Marion 
riu como uma menina ao ouvir o seu novo nome e depois sorriu para George. 
Estavam comemorando, como Nancy dissera que se devia fazer. Michael estava 
satisfeito por ambos. Mereciam aquilo. E iam agora passar dois meses na 
Europa, para descansarem. Ele no podia deixar de pensar como a me se 
mostrara sensata ao se retirar da firma. Talvez, no final das contas, Marion 
estivesse mesmo preparada para se aposentar. Ou talvez o corao finalmente 
a tivesse apavorado, depois de todo aquele tempo. Mas tanto ela como George 
haviam-se mostrado duas pessoas maravilhosas com que se trabalhar, enquanto 
transferiam todo o poder para as mos dele, Michael. Ele era agora o 
presidente da Cotter-Hillyard e no podia deixar de reconhecer que no se 
importava com a sensao que isso proporcionava. Presidente... aos 27 anos. 
Fizera a capa do Time. O que tambm fora extremamente agradvel. Ele 
imaginava que a me e George dariam a capa de People, com o casamento.
      - Est muito elegante, querido.
      A me fitou-o com uma expresso radiante, enquanto seguiam para a 
biblioteca. Estava repleta de flores e mesas com comida. E as paredes 
pareciam revestidas de criados adicionais.
      - Voc tambm est muito atraente. E o apartamento no faz por menos.
      - No est mesmo lindo?
      Marion parecia surpreendentemente jovem ao se afastar dele para falar 
com alguns convidados e dar as ltimas instrues aos criados. Estava 
inteiramente em seu elemento, to excitada como como garota. Sua me, a 
noiva. Michael sorriu para si mesmo, ao pensar nisso.
      - Est parecendo muito satisfeito consigo mesmo, Mr Hillyard
      A voz era suave e familiar. Michael virou-se e deparou com Wendy a sua 
direita. No mais se sentia constrangido ao v-Ia. Ela estava com o diamante 
solitrio que Ben lhe dera no Dia dos Namorados, ao ficarem noivos. Iam casar-
se no vero seguinte. E ele seria o padrinho.
      - Ela no est maravilhosa?
      Wendy assentiu e sorriu-lhe novamente. Por uma vez, Michael parecia 
feliz tambm. Wendy jamais conseguira entend-lo direito, mas pelo menos 
isso no mais a perturbava, agora que tinha Ben. Ben fazia-a mais feliz que 
qualquer outro jamais conseguira.
      - Mas tenho certeza de que voc estar igualmente maravilhosa no 
prximo vero. Tenho uma fraqueza por noivas.
      Parecia algo improvvel nele e Wendy voltou a sorrir. Gostava muito 
mais dele agora que partilhava a sua amizade com Ben
      - Tentando conquistar minha noiva, companheiro? - Era Ben ao lado 
deles, segurando trs taas de champanhe. - Aqui est, para vocs dois. E tem 
uma coisa que lhe quero dizer, Michael estou apaixonado por sua me.
      -  tarde demais. Eu a entreguei a outro homem esta manh. - Ben 
estalou os dedos, como se tivesse acabado de sofrer uma grande perda. Todos 
trs riram, enquanto a msica comeava a tocar na sala de jantar. - Ei, acho que 
isso  um aviso para mim. O filho tem direito  primeira dana e depois George 
me substitui. Emily Post diz...
      Ben soltou uma risada e deu-lhe um empurro na direo da porta e de 
suas obrigaes.        
      - Ele parece feliz hoje - murmurou Wendy, depois que Michael se 
afastou.
      - E acho que est mesmo, para variar. - Pensativo, Ben tomou um gole de 
champanhe e um momento depois sorriu novamente para Wendy. - Voc tambm 
parece feliz hoje.
      - Estou sempre feliz, graas a voc. Por falar nisso, voltou a procurar 
aquela fotgrafa de So Francisco? H algum tempo estou querendo perguntar-
lhe, mas nunca tenho tempo.
      Mas Ben estava sacudindo a cabea.
      - No. Michael disse que iria encarregar-se pessoalmente do problema.
      - E ele tem tempo para isso?
      Wendy parecia surpresa.
      - No. Mas provavelmente dar um jeito de arrumar. Conhece Michael. 
Ele vai a So Francisco na prxima semana, por isso e quatro mil outras razes.
      No, pensou Wendy consigo mesma, no conheo Michael. Ningum 
conhece. Exceto talvez Ben. Mas s vezes ela se perguntava se Ben realmente o 
conhecia to bem quanto ele gostava de pensar. Talvez antigamente. Mas ser 
que Ben, continuava a conhec-lo ?
      - Gostaria de danar minha cara?
      Ben largou a taa e passou o brao pela cintura dela, a fim conduzi-la  
outra sala.
      - Adoraria.
      Mas estavam danando h apenas um momento quando Michael bateu no 
ombro de Ben:
      - E a minha vez.
      -  uma ova. .Mal comeamos. Pensei que estivesse danando com sua 
me.
      - Ela me trocou por George.
      - Muita sensatez da parte dela.
      Os trs estavam-se deslocando juntos pela pista de dana e Wendy 
estava comeando a rir. Ver os dois juntos daquela maneira era como 
vislumbrar Michael e Ben de anos atrs. Era o tipo de situao em que ambos 
se mostravam exultantes. Uma dose generosa de champanhe, uma ocasio para 
comemorar e l estavam eles. - Escute, Avery, vai sumir daqui ou no? Quero 
danar com sua noiva.
      - E se eu no quiser que voc dance?
      - Ento danarei com os dois... e minha me nos expulsar. Wendy estava 
sorrindo novamente. Eram como dois garotos, dispostos a qualquer coisa para 
provocar confuso numa festa de aniversrio. Os dois estavam comeando a 
entoar uma cano sobre uma garota de Rhode lsland, o que a deixou 
preocupada.
      - Escutem vocs dois! Eu estava esperando que fosse duas vezes mais 
divertido. Em vez disso, estou tendo os dois ps pisados ao mesmo tempo. Por 
que no vamos todos comer o bolo de casamento?
      - Vamos?
      Ben e Michael. se fitaram, assentiram ao mesmo tempo e 
obsequiosamente se apossaram dos braos de Wendy, um de cada lado, 
conduzindo-a para fora da sala. Michael olhou para Ben por cima da cabea dela 
e piscou um olho.
      - Ela  bastante elegante, mas acho que  meio cambaia. Reparou na 
maneira como danava? Meus sapatos esto praticamente estragados.
      - Devia ver os meus.
      Ben falou num sussurro, por cima do ombro esquerdo dela.
      Bruscamente, Wendy meteu os cotovelos em ambos.
      - Escutem, seus palhaos, algum por acaso reparou: nos meus sapatos? 
Sem falar nos meus ps doloridos, por ter danado com dois caipiras de porre.
      - Caipiras?
      Ben fitou-a com uma expresso horrorizada e Michael comeou a rir, 
enquanto pegava os trs pratos com bolo de casamento que uma empregada 
uniformizada oferecia. Ps-se a brincar com os pratos e quase deixou cair dois.
      - No d importncia a ela. O bolo parece sensacional.Tomem aqui.
      Michael entregou os pratos a Wendy e Ben. Os trs se encostaram numa 
coluna e ficaram observando o movimento, enquanto comiam, vendo as velhas 
matronas em vestidos rendados cinzas, as moas de chiffon rosa, cascatas de 
prolas, as mais variadas pedras preciosas.
      - Puxa, j pensaram no que poderamos conseguir se os assaltssemos?
      Michael parecia fascinado pela idia.
      - Nunca tinha pensado nisso. Era o que deveramos ter feito anos atrs. 
Na escola, quando estvamos duros.
      Ambos assentiram um para o outro, enquanto Wendy os observava com 
um sorriso desconfiado.
      - No tenho certeza se poderei deixar vocs dois sozinhos quando for 
empoar o nariz.
      - No se preocupe. Ficarei de olho nele, Wendy.
      Michael piscou para ela sorridente e pegou outra taa de champanhe. 
Wendy nunca o vira daquele jeito, mas estava gostando. Ben tinha razo. No 
final das contas, Michael era humano. V-lo daquela maneira, meio tonto e 
bancando o tolo, era conhec-lo como cinco anos antes. Ou mesmo dois anos.
      -No creio que os dois consigam desvirar os olhos o suficiente para 
verem qualquer coisa, muito menos um ao outro.
              - Ora... no enche, Wendy. Estamos em grande forma. Ben pegou 
mais duas taas de champanhe, entregando uma a Michael e acenando para que 
sua noiva seguisse na direo do banheiro.
      - Ela  uma garota e tanto, Michael. Fico contente que no tenha ficado 
furioso quando lhe contei a nosso respeito.
      - Como poderia ficar furioso? Ela  a garota certa para voc. Alm do 
mais, ando muito ocupado para essas coisas.
      - Um dia desses no vai mais estar 
      - possvel. Enquanto isso, vocs podem-se mandar e casar-se. Mas eu 
tenho de ficar, para dirigir a firma.
      Mas, por uma vez, Michael no parecia sombrio ao dizer isso. Olhou por 
cima da taa de champanhe com um sorriso e depois fez um brinde ao amigo: 
      - A ns.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 25
      
      O avio pousou suavemente em So Francisco, enquanto Michael fechava 
sua pasta. Tinha mil e uma coisas a fazer no decorrer da prxima semana. 
Encontros com mdicos, reunies a que comparecer, locais de obras a visitar, 
arquitetos a organizar, pessoas, projetos, conferncias, tudo exigindo a sua 
ateno e... oh, diabo... e tambm a tal fotgrafa. Perguntou-se como 
conseguiria arrumar tempo para tudo. Mas daria um jeito. Sempre dava. 
Deixaria de comer, dormir ou qualquer outra coisa assim. Ele pegou a capa na 
prateleira por cima de sua cabea, onde a deixara dobrada, pendurando-a no 
brao e seguindo os outros passageiros de primeira classe para fora do avio. 
Sentia os olhos das aeromoas fixados nele. Era o que sempre acontecia. 
Ignorou-as. Elas no o interessavam. Alm do mais, ele no tinha tempo. Olhou 
para o relgio. Sabia que haveria um carro a sua espera no terminal. Passavam 
vinte minutos das duas horas da tarde. Conseguira realizar um dia inteiro de 
trabalho em apenas meio expediente no escritrio em Nova York e agora tinha 
tempo para pelo menos quatro ou cinco reunies em So Francisco. Na manh 
seguinte, j havia marcado um encontro para tratar de negcios durante o caf 
da manh, s sete horas. Era assim que sua vida transcorria. Era assim que ele 
gostava. Tudo o que se importava era com seu trabalho. Do trabalho e de um 
punhado de pessoas. Duas das quais estavam naquele momento desfrutando uma 
imensa felicidade em Majorca, na casa de amigos, enquanto a outra estava nas 
boas mos de Wendy, em Nova York. Todas estavam sob bons cuidados. Assim 
como ele. Tinha o centro mdico para absorv-lo. E tudo estava correndo s mil 
maravilhas. Michael sorriu para si mesmo, enquanto se encaminhava para o 
terminal. Aquela era uma obra sua.
      - Mr. Hillyard? - O motorista reconheceu-o imediatamente e Michael 
assentiu. - O carro est ali.
      Michael recostou-se no assento, enquanto o motorista ia buscar sua 
bagagem no caos do terminal. Era bastante agradvel estar novamente em So 
Francisco. Era um dia de maro de frio intenso em Nova York quando ele 
partira. Agora, eram 6h15min da tarde em So Francisco e tudo ao seu redor 
estava verde, vioso e maravilhoso. Em Nova York, as rvores ainda estavam 
desfolhadas, cinzentas, o verde continuaria a ser uma cor esquecida por mais 
um ms. Era muito difcil esperar a primavera em Nova York. Sempre se tinha a 
impresso de que jamais chegaria. E no momento mesmo em que se estava 
desistindo, chegando-se  concluso de que nada voltaria a ficar verde, os 
primeiros botes apareciam, traziam de volta a esperana. Michael havia-se 
esquecido de como a primavera era agradvel. Nunca notara. No tinha tempo.
      O motorista levou-o diretamente para o hotel, onde algum funcionrio 
subalterno da firma j o registrara e providenciara para que a sute estivesse 
devidamente preparada para a primeira reunio. Ele reservara duas sutes, uma 
para poder ficar em paz, a outra para as reunies. E se houvesse necessidade, 
as reunies poderiam ser realizadas simultaneamente nas duas sutes. Eram 
nove horas da noite quando ele terminou todo o trabalho do dia. Cansado, ligou 
para o servio e pediu um fil. Era meia-noite em Nova York e ele estava 
exausto. Mas havia sido umas poucas horas bastante proveitosas e. Michael 
estava satisfeito. Recostou-se no sof, tirou a gravata, ps os ps em cima da 
mesinha e fechou os olhos. E depois teve a impresso de ouvir a voz da me na 
sala: "J ligou para a moa?" Oh, Deus! As palavras pareciam ecoar pela sala, 
que ainda recendia a fumaa de cigarro e  roda de scotches que pedira ao 
final. Mas a moa... por que no? Tinha tempo, enquanto esperava o fil. Podia 
impedi-lo de cair no sono. Ele pegou a pasta, encontrou o nmero do telefone 
numa ficha e discou do sof mesmo. O telefone tocou trs ou quatro vezes, 
antes que ela atendesse.
      - Al?
      - Boa noite, Miss Adamson. Aqui  Michael Hillyard. Marie quase soltou 
um grito de espanto e teve de fazer um tremendo esforo para controlar a 
respirao.
      - Entendo. Est em So Francisco, Hr. Hillyard?
      A voz dela era brusca, parecia quase furiosa. Talvez ele tivesse ligado 
num momento errado. Ou ento ela no gostava de receber telefonemas de 
negcios em casa. Mas Michael no se importava.
      - Estou, sim, Miss Adamson. E estava imaginando que poderamos 
encontrar-nos. Temos algumas coisas a discutir.
      - No, no temos absolutamente nada a discutir. Pensei que tivesse 
deixado isso bem claro para sua me.
      Marie estava tremendo toda e apertando o fone com fora.
      - Se falou,  possvel que ela tenha esquecido o recado. 
      Michael estava comeando a parecer to tenso quanto ela. - Ela sofreu 
um pequeno ataque cardaco logo depois do encontro que tiveram. . Tenho 
certeza de que nada teve a ver com o encontro, mas a verdade  que ela no me 
disse muita coisa a respeito do que conversaram. O que  compreensvel, em 
vista das circunstncias.
      -  sim. - Marie fez uma breve pausa. - Lamento saber disso. Ela est 
bem agora?
      - Est, sim. - Michael sorriu. - Casou-se na semana passada e neste 
momento est em Majorca.
      Essa  tima! A desgraada arruna minha vida e parte em lua-de-mel! 
Marie sentiu vontade de ranger os  dentes ou bater com o telefone.
      - Mas isso no tem importncia para ns.. Quando podemos nos 
encontrar?
      - J dei a resposta: no podemos!
      Marie quase cuspiu as palavras pelo telefone, voltando a fechar os olhos. 
Mas Michel estava cansado demais para se incomodar com qualquer outra coisa.
      - Est certo. Aceito a sua recusa, pelo menos por enquanto. Estou no 
Fairmont. Se mudar de idia, pode telefonar-me. 
      - No vou telefonar.
      - Como quiser.
      -Boa noite, Mr. Hillyard.
      - Boa noite, Miss Adamson.
      Marie estava surpresa ao descobrir como Michael encerrara 
rapidamente a conversa. E no parecia absolutamente com Michael. Parecia 
cansado, como realmente no se importasse com coisa alguma. O que teria 
acontecido com ele nos ltimos dois anos? Depois que desligou, ela ficou 
sentada em silncio por longo tempo, pensando.
    

Captulo 26
      
      - Querida, voc est com uma aparncia terrivelmente solene. Algum 
problema?
      Peter fitou-a atravs da mesa do almoo. Marie sacudiu a cabea, 
mexendo distraidamente com o copo de vinho.
      - No. Estou apenas pensando num novo trabalho. Quero iniciar um novo 
projeto amanh. E isso sempre me deixa preocupado.
      Mas ela estava mentindo e ambos sabiam disso. Desde que Michael 
telefonara, na noite anterior, Marie fora lanada de volta ao passado. Tudo o 
que podia pensar era naquele ltimo dia. O passeio de bicicleta, a feira, as 
vistosas contas azuis, enterradas na praia, depois o vestido branco comprido e 
a touca azul de cetim para fugir e casar-se com Michael... e depois a voz da 
me dele no hospital, quando estava com o rosto coberto por ataduras, os olhos 
vendados. Era como ter um filme exibido constantemente diante de seus olhos. 
Ela no podia escapar.
      - Voc est bem, querida?
      - Estou, sim. Desculpe estar sendo uma companhia to desagradvel 
hoje. Talvez eu esteja simplesmente cansada.
      Mas Peter percebera a expresso angustiada e o franzido perturbado 
entre os olhos de Marie.
      - Tem visto Faye ultimamente?
      - No. Estou sempre para telefonar e convid-la para almoar, mas 
parece que nunca tenho tempo. Desde a exposio... - Marie fez uma breve 
pausa, contemplando-o com um sorriso de agradecimento. - ... que passo a 
metade do tempo no laboratrio e a outra metade correndo pela cidade com a 
cmara.         
      - Eu no me estava referindo a um encontro social, mais profissional.
      - Claro que no. J lhe contei que encerramos o tratamento antes do 
Natal.
      - Nunca me disse se a deciso de suspender as sesses foi sua ou dela.
      - Minha. Mas Faye no discordou. - Marie sentiu-se ligeiramente 
magoada pelo fato de Peter pensar que ela estava precisando de mais sesses 
psiquitricas. - Estou apenas cansada, Peter. No h mais nada.
      - No tenha tanta certeza assim. s vezes, acho que ainda se sente 
atormentada pelos... pelos acontecimentos de dois anos atrs.
      Peter falou cautelosamente, observando-a atentamente. E ficou 
consternado quando a viu quase se encolher, visivelmente.
      - No diga bobagem.
      - E perfeitamente normal, Marie. As pessoas ficam atormentadas por 
coisas assim durante dez ou vinte anos. E uma experincia terrivelmente 
traumtica para se viver. Alguma parte de voc, bem l no fundo, ir sempre 
recordar o que aconteceu, mesmo tendo ficado inconsciente depois do 
acidente. Se conseguir faze-la descansar, estar livre.
      - J pus para descansar e estou livre.
      - Somente voc mesma pode julgar isso. Mas quero que tenha certeza. 
Caso contrrio, sutilmente, ir afeta-la pelo resto da vida. Limitar a sua 
capacidade, prejudicar sua vida... Seja como for, no h necessidade de 
continuar. Pense no problema com todo cuidado. Pode querer continuar a se 
encontrar com Faye por mais algum tempo. No faria mal algum.
      Peter parecia preocupado.
      - No preciso.
      A boca de Marie estava contrada numa linha firme. Peter afagou-lhe a 
mo. Mas no pediu desculpas por ter abordado o assunto. No estava gostando 
do nimo de Marie.
      - Est certo. Vamos embora?
      Ele sorriu para ela mais gentilmente e Marie retribuiu o sorriso. Mas  
claro que Peter certo. Marie estava obcecada por ter falado com Michael.
      Peter pagou a conta e ajudou-a a vestir o blazer de veludo azul-marinho 
usada com saia Cacharel branca e a graciosa blusa de seda. Marie estava 
impecavelmente vestida, como sempre. Peter adorava a companhia dela
      - Quer que eu a leve para casa?
              - No, obrigada. Pensei em dar um pulo at a galeria. Quero 
discutir alguns problemas com Jacques. Estou com vontade de mudar algumas 
das peas. Muitos trabalhos anteriores meus esto, tendo agora mais destaque 
que os recentes. Estou querendo inverter essa situao.
      - O que faz sentido.
      Peter passou o brao pelos ombros dela, enquanto caminhavam ao sol da 
primavera. O nevoeiro da manh j se dissipara e estava fazendo um dia quente 
e maravilhoso. O manobreiro trouxe o Porsche preto rapidamente e Peter abriu 
a porta para Marie entrar. Ela ajeitou a saia e sorriu-lhe, enquanto ele se 
sentava ao volante. Sabia agora o quanto Peter tinha importncia para ela. s 
vezes, porm, perguntava-se se ele a amava porque a criara ou talvez porque 
ela permanecia de certa forma inatingvel. Freqentemente, Marie sentia-se 
culpada por no ser mais franca com Peter. Mas apesar da afeio que sentia 
por ele, havia sempre uma sombra de reserva entre os dois. Marie sabia que 
era sua a culpa. E talvez Peter estivesse certo. Talvez ela estivesse condenada 
a ficar para sempre atormentada e abalada pelo acidente. Talvez devesse 
voltar a procurar Faye.
      - No parece com muita disposio para falar hoje, meu amor. Ainda 
pensando no novo projeto?
      Ela assentiu, com um sorriso constrangido. Depois, passou a mo 
gentilmente pela nuca de Peter.
      - s vezes me pergunto por que voc me atura.
      - Porque tenho muita sorte em t-la.  uma pessoa muito especial para 
mim. Espero que saiba disso.
      Mas por qu? Havia ocasies em que Marie ficava pensando nisso. Ser 
que era parecida com a outra mulher a quem ele amara? Ser que Peter a 
fizera assim deliberadamente? Era uma idia terrvel.
      Marie recostou-se no assento por um momento e fechou os olhos, 
tentando relaxar. Mas abriu os olhos subitamente, ao sentir Peter dar uma 
guinada busca no pequeno carro. Tudo o que viu foi um Jaguar vermelho 
avanando na direo do lado do carro em que ela estava, de frente, o seu 
motorista ultrapassando um caminho estacionado em ma dupla. Por algum 
motivo, o motorista do Jaguar fora alm do necessrio e entrara na contramo, 
at ficar bem perto de Marie. Ela ficou olhando, os olhos arregalados pelo 
horror, apavorada demais para emitir qualquer som. Mas o incidente foi 
contornado em um rpido instante. Peter conseguiu evitar o outro carro e o 
Jaguar vermelho afastou-se na direo oposta, avanando um sinal vermelho. 
Marie ficou paralisada no assento, aterrorizada, agarrando o painel com fora, 
os olhos fixados  frente, a boca tremendo, as lgrimas prestes a se 
derramarem, a mente voltando a algo que testemunhara vinte e dois meses 
antes. Peter compreendeu imediatamente O que estava acontecendo. Parou o 
carro e inclinou-se para abra-la. Mas Marie estava rgida demais para se 
mover. No instante em que ele a tocou, Marie comeou a gritar. Os gritos 
vinham do fundo de sua alma e Peter teve de sacudi-la, envolv-a em seus 
braos, para subjug-la.
      - Calma, querida, calma... Est tudo bem agora. Est tudo bem. Fique 
calma. J acabou. Nada igual jamais voltar a acontecer. Est tudo acabado. 
      Marie desmoronou em soluos de terror, as lgrimas escorrendo pelo 
rosto, todo o corpo tremendo. Peter abraou-a firmemente. Quase meia hora 
se passou antes que Marie parasse de chorar, recostando-se no assento, 
exausta. Peter ficou a observ-la em silncio por algum tempo, afagando-lhe o 
rosto e os cabelos, segurando-lhe a mo, deixando-a sentir que estava de fato 
segura. Mas ele estava profundamente perturbado pelo que presenciara. 
Confirmava o que vinha pensando. Quando Marie finalmente parou de tremer e 
relaxou, ao lado dele, Peter ps-se a falar-lhe, suavemente, mas firmemente, 
enquanto Marie fechava os olhos:
      - Tem de voltar a se encontrar com Faye. Ainda no est superado para 
voc. E no estar enquanto no enfrentar o problema e alcanar a cura.
      Mas quanto mais ela podia enfrentar? E o que havia para curar? O amor 
de Marie por Michael? Como ela poderia curar isso? Como poderia contar a 
Peter que falara com Michael pelo telefone e que isso lhe despertara uma 
vontade intensa de abra-lo, beij-lo, sentir novamente as mos dele em seu 
corpo? Como poderia dizer uma coisa dessas a Peter? Em vez disso, Marie 
fitou-o com expresso cansada e assentiu em silncio.
      - Vou pensar nisso.
      - timo. Quer que eu a leve para casa?
      A voz de Peter era extremamente gentil e ela concordou. No tinha 
foras para ir at a galeria agora. No voltaram a falar at chegarem ao prdio 
em que Marie morava.
      - Quer que eu a leve at o apartamento, Marie?
      Mas ela se limitou a sacudir a cabea e beijou-o no rosto. E s disse uma 
palavra ao saltar do carro: 
      - Obrigada.
      No olhou para trs ao atravessar a calada. Subiu lentamente a escada, 
o fardo dos vinte e dois meses solitrios pesando terrivelmente em seus 
ombros. Se ao menos Michael jamais tivesse telefonado. .. Isso lhe trouxera de 
volta toda a angstia. E para qu? De que adiantava? Talvez ele no se 
importasse com coisa alguma, no final das contas. Queria simplesmente as 
fotografias dela. Pois que o desgraado comprasse o trabalho de qualquer 
outra pessoa. Por que diabo no podia deix-la em paz?
      Marie entrou no apartamento e foi direto para a cama. Fred foi pulando 
a seus ps e subiu na cama. Mas Marie no estava com disposio para brincar. 
Empurrou Fred para o cho e ficou deitada na cama por muito tempo, pensando 
se deveria ligar para Faye ou se isso tambm de nada adiantaria. Estava 
comeando a cochilar, numa exausto irrequieta, quando o telefone tocou. Ela 
teve um sobressalto e levantou-se. No queria atender. Mas provavelmente era 
Peter, querendo saber como ela estava e no tinha direito de deix-lo ainda 
mais preocupado do que j o fizera naquela tarde. Lentamente, estendeu a mo 
para o telefone.
      - Al?
      A palavra saiu trmula de seus lbios.
      - Miss Adamson?
      Oh, Deus, no era Peter! Era...         Marie fechou os olhos para conter as 
lgrimas, enquanto um suspiro interminvel sacudia todo o seu corpo.
      - Pelo amor de Deus, Michael, deixe-me em paz!
      Ela desligou. No outro lado da linha, Michael ficou olhando para o fone, 
na mais total confuso. O que estaria acontecendo? E por que ela o chamara de 
Michael?
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    Captulo 27
      
      Marie parecia cansada e tensa na manh seguinte, ao entrar na galeria 
com Fred. Usava uma cala preta e uma suter verde, cores que lhe ficavam 
muito bem. Mas parecia extremamente plida depois de uma longa noite sem 
dormir, durante a qual revivera, pelo menos dez mil vezes, o seu ltimo dia com 
Michael e o acidente. Tinha a sensao de que jamais conseguiria escapar, nem 
que vivesse mil anos. E sentia-se pelo menos com cem anos        de idade naquela 
manh.
      - Parece que andou trabalhando demais, meu amor. Jacques sorriu-lhe 
de trs da escrivaninha em seu escritrio.
      Estava usando o seu uniforme habitual: uma cala jeans francesa de 
corte impecvel, justa no corpo, blusa preta de gola roul e casaco de camura 
St. Laurent. Nele, a combinao parecia perfeita.
      - Ou ser que ficou acordada at tarde com o nosso mdico predileto?
      Ele era um velho amigo de Peter e j gostava imensamente de Marie. Ela 
sorriu em resposta e tomou um gole do caf que Jacques lhe servira. Era um 
caf puro, bem forte, o nico que ele tomava. Trazia-o da Frana, juntamente 
com outros artigos preciosos, sem os quais no podia sobreviver. Marie adorava 
caoar dele por seu chauvinismo .e pelos gostos dispendiosos. Como presente 
de aniversrio, dera-lhe papel higinico com o logo tipo da Gucci impresso. E 
tambm uma pasta da Hermes, que era mais ao estilo de Jacques: Mas ele 
gostara tambm do presente de brincadeira.
      - No, no fui a lugar nenhum com Peter. Acho que passei tempo demais 
trancada no laboratrio.
      - Mas que garota mais doida! Uma mulher como voc deveria estar 
sempre danando.
      - Mais tarde. Depois que eu trabalhar mais um pouco.
      Marie comeou a descrever sua nova idia para uma srie de fotografias 
sobre a vida nas ruas de So Francisco. Jacques assentiu em aprovao, 
visivelmente satisfeito.
      - a me plaite, Marie.  uma excelente idia. Deve comear assim que 
puder.
      Ele estava prestes a entrar em detalhes quando bateram na        porta da 
sala. Era a secretria, gesticulando discretamente.
      - Provavelmente  uma das suas namoradas, Jacques. 
      Marie adorava caoar dele por causa disso. Jacques deu de ombros, 
sorrindo, enquanto contornava a mesa para ir falar com a secretria, alm da 
porta. Escutou as palavras que ela lhe sussurrou e depois concordou, parecendo 
extremamente satisfeito. Fez um gesto afirmativo e depois voltou para a sala e 
sentou-se, olhando para Marie como se estivesse prestes a conceder-lhe um 
presente maravilhoso.
      - Tenho uma surpresa para voc, Marie. - Nesse momento, soou outra 
batida na porta - Algum muito importante est interessado em seu trabalho.
      A porta abriu-se antes que Marie tivesse tempo de compreender 
plenamente o significado daquelas palavras ou suas implicaes. Subitamente, 
ela se descobriu a virar a cabea para deparar com Michael. Quase soltou um 
grito e sentiu a xcara de caf fumegante tremer em sua mo. Ele estava muito 
bonito, num terno azul marinho, camisa branca, gravata escura, parecia em tudo 
o magnata que na realidade era.
      Marie largou a xcara para apertar a mo estendida de Michael. Ele 
ficou impressionado ao constatar como ela parecia serena e controlada ali no 
escritrio de Jacques. No parecia absolutamente a mesma mulher que 
atendera ao telefone na noite anterior, com angstia na voz, suplicando que a 
deixasse em paz. Talvez ela tivesse outros problemas, provavelmente com 
homens. Talvez estivesse embriaga da na ocasio. Com artistas, nunca se podia 
saber. Mas nenhum desses pensamentos transpareceu no rosto de Michael, 
assim como Marie no demonstrou o seu terrvel constrangimento.
      - Estou extremamente contente por finalmente encontra-la. Exigiu-me 
muito trabalho, Miss Adamson. Mas talentosa como , imagino que tem esse 
direito.
      Ele sorriu indulgentemente e Marie olhou para Jacques, que estava de 
p atrs da mesa, estendendo a mo para Michael. Ele estava muito 
impressionado pelo interesse da Cotter-Hillyard no trabalho de Marie. Michael 
explicara claramente  secretria que seu interesse era profissional, no para 
a sua prpria coleo particular ou para seu gabinete. Queria o trabalho dela 
para um dos maiores projetos que sua firma j realizara e Jacques estava atur-
dido. Mal podia esperar pelo momento em que Marie saberia. Mesmo a fria 
reserva dela seria destruda por uma notcia to espetacular. Mas s que Marie 
parecia agora to impassvel quanto antes, pelo menos naquele instante. Ela 
estava imvel na cadeira, evitando o olhar de Michael e com um sorriso frio nos 
lbios.
              Posso ir direto ao ponto e explicar aos dois o que tenho em mente?
      - Claro que pode!
      Jacques acenou para que a secretria servisse caf a Michael e depois 
recostou-se para escutar. Michael ps-se a explicar em detalhes o que estava 
querendo fazer com o trabalho de Marie. Era um projeto pelo qual qualquer 
fotgrafo teria lutado arduamente. Mas no final da exposio, Marie ainda 
parecia indiferente. Sacudiu a cabea ligeiramente e virou-se a fim de olhar 
para Michael.
      - Sinto muito, mas minha resposta ainda  a mesma, Mr. Hillyard.
      - J conversaram sobre isso antes?
      Jacques estava confuso e Michael apressou-se em explicar:
      - Um dos meus companheiros, minha me e at mesmo eu j entramos 
em contato com Miss Adamson, no apartamento dela. J lhe falamos do 
projeto, embora apenas de passagem, mas a resposta dela foi invariavelmente 
no. Eu tinha a esperana de faz-la mudar de idia.
      Jacques olhou para Marie, aturdido. Ela estava sacudindo a cabea.
      - Lamento muito, mas no posso aceitar o trabalho.
      - Mas por que no?
      As palavras eram de Jacques. Ele estava quase frentico.
       - Porque no quero.
      - Pode pelo menos informar-nos seus motivos?
      A voz de Michael era extremamente suave e tinha algo novo., o 
conhecimento de seu prprio poder. Marie ficou irritada ao descobrir que 
gostava desse aspecto da voz dele. Mas isso em nada contribuiu para faz-la 
mudar de idia.
      - Pode chamar-me de um artista temperamental, se quiser. De qualquer 
coisa. A resposta continua a ser no. E jamais deixar de ser no.
      Marie largou a xcara em cima da mesa, olhou para os dois homens e 
levantou-se. Estendeu a mo para Michael e sacudiu novamente a cabea, com 
expresso sombria.
      - De qualquer forma, obrigada por seu interesse. Tenho certeza de que 
encontrar a pessoa certa para o seu projeto. Talvez. Jacques possa 
recomendar algum. H muitos artistas e fotgrafos excepcionais ligados  
galeria.
      -Mas, infelizmente, queremos apenas voc.
      Michael parecia agora obstinado e Jacques estava quase apopltico. Mas 
Marie no ia perder aquela batalha, de jeito nenhum. J perdera demais.
      -  uma atitude irracional de sua parte, Mr. Hil1yard. E infantil. Vai ter 
de encontrar outra pessoa. No vou trabalhar consigo. E ponto final.
      - Estaria disposta a trabalhar com outra pessoa da firma? Marie tornou 
a sacudir a cabea e encaminhou-se para a porta.
      - Pode pelo menos considerar um pouco a proposta?
      Ela estava de costas para Michael ao parar por um instante na porta, 
mas novamente sacudiu a cabea. No instante seguinte, eles ouviram a palavra 
no, enquanto ela se retirava com o cachorro. Michael no perdeu um momento, 
sequer com o aturdido dono da galeria, que continuou sentado atrs da mesa. 
Ele saiu correndo para a rua, atrs dela, gritando:
      - Espere um instante!
      Nem mesmo sabia por que estava fazendo aquilo, mas sentia que 
precisava. Alcanou-a enquanto ela se afastava apressadamente.
      - Posso acompanha-la por um momento?
      - Se quiser. Mas no vai adiantar.
      Marie olhava fixamente para frente, evitando os olhos de Michael, que 
seguia a seu lado, obstinadamente.
      - Por que est fazendo isso? Simplesmente no faz o menor sentido.  
pessoal? Alguma coisa que sabe a respeito de nossa firma? Uma experincia 
desagradvel por que passou? Algo rela        cionado comigo?
      - No faz a menor diferena.
      - Mas claro que faz! - Michael deteve-a, segurando-lhe firmemente o 
brao. - Tenho o direto de saber.
      - Tem mesmo? - Ambos pareceram ficar parados ali por uma eternidade, 
at que finalmente Marie atenuou sua atitude. - Est certo.  pessoal.
      - Pelo menos sei agora que no  doida.
      Marie riu e fitou-o com expresso divertida.
      - Como pode ter certeza? Talvez eu seja.
      - Infelizmente, no creio que seja. Tenho a impresso de que 
simplesmente odeia a Cotter-Hillyard. Ou a mim.
      O que era um absurdo. Nem ele nem a firma jamais haviam tido qualquer 
publicidade desfavorvel. No estavam envolvidos em projetos controvertidos 
ou com governos suspeitos. No havia motivo para que ela se comportasse 
daquela maneira. Mas talvez a moa tivesse tido um romance com algum 
empregado do escritrio local da Cotter-Hillyard e isso provocara todo o seu 
ressentimento. Tinha de ser algo assim. Nada mais fazia sentido. 
      - No o odeio, Mr. Hillyard.
      Marie esperou por longo tempo para dizer isso, enquanto continuavam a 
andar.
      - No  essa a impresso que d.
      Michael sorriu e pela primeira vez parecia novamente um garotinho. 
Como o que costumava caoar dela, quando estava em seu apartamento, junto 
com Ben. Aquele vislumbre do passado foi um impacto no corao de Marie, que 
tratou de desviar os olhos.         
      - Posso convid-la para tomar uma xcara de caf em algum lugar?        
      Marie ia recusar, mas mudou de idia, achando que talvez assim fosse 
melhor, pois poderia acabar com aquilo de uma vez por todas. Talvez ento ele 
a deixasse em paz.
      - Est certo.
      Ela sugeriu um lugar no outro lado da rua e atravessaram para l, com 
Fred em seus calcanhares. Ambos pediram expressos. Sem pensar, Marie 
entregou-lhe o acar. Mas ele se limitou a agradecer, serviu-se e largou o 
aucareiro. No lhe pareceu estranho que Marie soubesse que ele tomava caf 
com acar.
      - No consigo explicar direito, mas acho que h algo estranho em seu 
trabalho. Algo que me deixa obcecado. Como se eu j o tivesse visto antes, 
como se j o conhecesse, como se compreendesse o que estava querendo 
mostrar e o que viu ao tirar as fotografias. Faz algum sentido para voc?
      Faz, sim. E muito sentido. Michael sempre demonstrara uma 
compreenso maravilhosa dos quadros dela. Marie suspirou e assentiu.
      - Acho que faz. Sempre espero que minhas fotos despertem essa 
impresso nas pessoas.
      - Mas elas fazem algo mais comigo. No consigo explicar direito. Como 
se eu j conhecesse o seu trabalho, digamos assim. No sei direito. Parece 
absurdo, quando falo nisso.
      Mas ser que no me reconhece? No reconhece esses olhos?
      - Pode pelo menos considerar um pouco a proposta?
      Marie descobriu-se a querer formular-lhe tais perguntas, enquanto 
tomavam caf e conversavam sobre o trabalho dela.
      - Tenho o pressentimento terrvel de que no vai ceder. No vai, no  
mesmo? - Tristemente, Marie sacudiu a cabea. -  por causa de dinheiro?
      - Claro que no.
      - No pensei que fosse.
      Michael nem mesmo mencionou o contrato fabuloso que tinha no bolso. 
Sabia que de nada serviria e talvez pudesse at agravar a situao.
      - Eu gostaria de saber qual o motivo.
      - Apenas minha excentricidade. Minha maneira de me vingar do passado.
      Marie ficou chocada com a prpria sinceridade, mas Michael parecia no 
ter reparado.
      Estavam ambos tranqilos agora, sentados no pequeno restaurante 
italiano. Havia tambm uma tristeza imensa naquele encontro, um laivo de 
amargura e ternura que Michael no conseguia compreender.
      - Minha me ficou muito impressionada com o seu trabalho. E ela no  
uma mulher fcil de se satisfazer.
      Marie ,sorriu pela escolha das palavras dele.
      - Sei que no . Foi o que ouvi dizer. Ela sempre exige  o mximo.
      - Tem razo. Mas foi assim que ela levou a firma ao ponto em que se 
encontra hoje.  um prazer receber a firma das mos dela. Como um barco 
perfeitamente comandado.
      - O que  muita sorte sua.
      A moa parecia novamente amargurada e outra vez Michael no 
entendeu. Num pequeno gesto nervoso, ele passou a mo por uma pequena 
cicatriz na tmpora. Abruptamente, Marie largou a         xcara em cima da mesa e 
observou-o.
      - O que  isso? 
      - Isso o qu?
      - Essa cicatriz.
      Ela no conseguia despregar os olhos da cicatriz. Sabia exatamente o 
que significava. Tinha de ser do. . .
      - No  nada. J a tenho h algum tempo.
      - No parece muito antiga.
      - Tenho h uns dois anos. - Michael parecia constrangido - Mas no foi 
nada importante. Um pequeno acidente, em companhia de alguns amigos.
      Ele estava tentando descartar-se do assunto e Marie sentiu vontade de 
jogar o caf em sua cara. Mas que desgraado! Um pequeno acidente... 
Obrigada, meu caro. Sei agora tudo o que precisava saber. Ela pegou a bolsa, 
fitou-o friamente por um momento e depois estendeu-lhe a mo.
      - Obrigada por um momento adorvel, Mr. Hillyard. Espero que aprecie a 
sua estada em So Francisco.
      - J vai? Falei alguma coisa errada?
      Oh, Deus, ela era mesmo impossvel! Que diabo havia de errado com ela 
agora? O que ele teria dito para deix-la assim? E no instante seguinte ele 
ficou chocado ao fit-la nos olhos.
      - Para ser franca, disse, sim. - Agora, era Marie quem estava chocada, 
ao ouvir suas prprias palavras. - Li a respeito do acidente que sofreu e no 
posso admitir que algum o classifique como algo sem importncia. As duas 
pessoas que estavam em sua companhia ficaram bastante machucadas, pelo que 
sei. No se importa absolutamente com isso, Michael? Ser que no se importa 
com mais nada alm de sua maldita firma?
      - Mas qual  o seu problema? Onde est querendo chegar?
       - Sou um ser humano e voc no .  por isso que o odeio. 
      - Voc est doida.
      - No, meu caro, no estou mais.
      Marie levantou-se bruscamente e afastou-se. Michael ficou a olhar para 
ela, aturdido. E depois, como se impelido por uma fora invisvel, descobriu-se 
de p, a correr atrs dela. Deixara uma nota de cinco dlares na mesinha de 
mrmore e foi no encalo de Marie Adamson. Tinha de contar para ela. Tinha 
de... No, no fora um pequeno acidente. A mulher a quem ele amava morrera. 
Mas que direito aquela jovem tinha de saber alguma coisa? Michael no teve a 
oportunidade de contar, porque Marie acabara de entrar num txi quando ele 
chegou  rua.
    

Captulo 28
      
      Marie tinha acabado de chegar  praia e estava armando o trip quando 
avistou o vulto se aproximar. A atitude determinada do homem deixou-a 
perplexa, at que descobriu quem era. Michael. Ele desceu  praia e subiu a 
pequena duna, parando diante dela e bloqueando-lhe a vista.
      - Tenho uma coisa para lhe dizer.
      - No quero ouvir.
      - O problema  seu, pois vou dizer de qualquer maneira. No tem o 
direito de se intrometer em minha vida particular e dizer-me que espcie de 
ser humano sou. Nem mesmo me conhece.
      As palavras de Marie haviam-no atormentado durante a noite inteira. E 
ele descobrira, atravs do servio de recados telefnicos de Marie, onde podia 
encontr-la. Nem mesmo tinha certeza por que fora at ali, mas sabia que 
precisava faz-lo.
      - Que direito tem de fazer qualquer julgamento a meu respeito?
      - Absolutamente nenhum. Mas no gosto do que vejo.
      Marie parecia fria e distante, enquanto trocava a lente da cmara.
      - E o que exatamente v?
      - Uma casca vazia. Um homem que no se importa com coisa alguma, a 
no ser com o seu trabalho. Um homem que no se importa com ningum, no 
ama nada, no d nada, no  nada.
      - O que voc sabe sobre o que sou, sobre o que fao, como me sinto? O 
que a faz pensar que  toda-poderosa para saber de tudo? - Marie contornou-o 
e focalizou a cmara na duna seguinte. - Faa o favor de me escutar!
      Michael estendeu a mo para a cmara e ela o empurrou, virando-se para 
ele, dominada por uma fria intensa.
      - Por que no sai de minha vida? 
      Como fez nos ltimos dois anos, desgraado!
      - No estou em sua vida! Estou apenas tentando comprar alguns 
trabalhos seu.  tudo o que quero! No quero os seus julgamentos sobre a 
minha personalidade, minha vida ou qualquer outra coisa! Quero apenas comprar 
algumas de suas malditas fotografias!
      Michael estava quase tremendo, de to furioso. Mas Marie 
simplesmente passou por ele, e foi at o portflio que estava sobre uma manta 
na areia. Abriu-o consultou uma ficha e depois pegou um negativo. Levantou-se 
e entregou-o a Michael.
      - Aqui est.  seu. Faa o que bem quiser com essa foto. E agora me 
deixe em paz.
      Sem dizer mais nada, Michael virou-se bruscamente e voltou para o 
carro que deixara estacionado  beira da estrada.
      Marie no virou a cabea para olh-lo, concentrando-se em seu trabalho. 
Ficou na praia at que o crepsculo chegou e no havia mais claridade 
suficiente para continuar a trabalhar. Voltou para o seu apartamento, preparou 
alguns ovos mexidos, esquentou um caf e. comeu. Depois, foi para o 
laboratrio. Foi deitar s duas horas da madrugada e no atendeu quando o 
telefone tocou. Mesmo que fosse Peter, ela no se importava. No queria falar 
com ningum. E ia voltar para a praia s nove horas daquela manh. Ligou o 
despertador para oito horas e adormeceu no instante seguinte. Libertara-se de 
alguma coisa l na praia. E tinha de ser franca consigo mesma: mesmo que o 
odiasse, pelo menos o vira. De uma estranha maneira, isso era um alvio.
      Na manh seguinte, ela tomou um banho de chuveiro e vestiu-se em 
menos de meia hora. Estava usando roupas de trabalho surradas. Tomou um 
caf enquanto lia o jornal. Deixou o apartamento na hora que havia prevista, 
alguns minutos antes das nove horas. J estava pensando no trabalho ao descer 
apressadamente a escada, acompanhada por Fred. Foi somente quando chegou 
l embaixo que levantou os olhos e soltou uma exclamao de surpresa. No 
outro lado da rua havia um enorme cartaz, montado num caminho, dirigido por 
Michael Hillyard. Ele estava sorrindo ao observ-la. Marie sentou-se no ltimo 
degrau e comeou a rir. Michael era mesmo doido. Pegara a fotografia que ela 
lhe dera, mandara ampliar e montara no caminho, depois a levara at a porta 
dela. Ele estava sorrindo ao sair do caminho e ao aproximar-se de Marie, E ela 
ainda estava rindo quando Michael se sentou no degrau a seu lado.
      - Est gostando?
      - Acho que voc  doido.
      -  possvel. Mas no ficou bom? Pense s como os seus outros trabalhos 
vo ficar, ampliados e montados nos prdios do centro mdico. No seria 
sensacional?
       Michael  que era sensacional, mas Marie no podia dizer-lhe isso.
       - Vamos tomar um caf e aproveitaremos para conversar.
      Naquela manh, Michael no estava disposto a receber um no como 
resposta. Ele adiara todas as reunies, reservando a manh inteira para Marie 
Adamson. E ela achou a determinao         dele comovente ao mesmo tempo que 
divertida.
      - Eu deveria dizer no. Mas no vou dizer isso.
      - Assim  melhor. Posso dar-lhe uma carona?
      - Naquilo?
      Marie apontou para o caminho e comeou a rir novamente. 
      - Claro. Por que no?
      E assim os dois entraram na cabina do caminho e seguiram para o Cais 
dos Pescadores, a fim de tomarem o caf da manh. Os caminhes eram uma 
paisagem familiar ali e ningum ia se impressionar com uma fotografia daquele 
tamanho.
      Surpreendentemente, o caf da manh transcorreu de modo agradvel. 
Ambos suspenderam a guerra, pelo medos at que o cafezinho final foi servido.
      - E ento, consegui persuadi-la?
      Michael parecia muito seguro de si mesmo, enquanto a contemplava, 
sorridente, por cima da xcara.
      - No. Mas reconheo que foi um momento dos mais agradveis.
      - Imagino que eu deveria sentir-me grato por esses pequenos favores, 
mas no  o meu estilo.
      - E qual  o seu estilo? Pode dizer, em suas prprias palavras.
      - Est querendo dizer que me d uma chance de explicar-me, ao invs de 
ficar dizendo o que sou?
      Michael falava em tom jocoso, mas havia uma ponta de amargura em sua 
voz. Ela chegara perto demais do problema com alguns dos seus comentrios no 
dia anterior.
      - Est certo, vou-lhe dizer. Sob certos aspectos, voc tem razo. Vivo 
para o meu trabalho.
      - Por qu? No tem mais nada em sua vida?
      - No. A maioria das pessoas bem sucedidas provavelmente no tem. 
No h lugar para isso.
      - O que  uma estupidez. No precisa trocar a sua vida pelo sucesso. 
Algumas pessoas tm as duas coisas.        
      - Voc tem? .
      - No inteiramente. Mas talvez algum dia eu possa ter.
      De qualquer forma, sei que  possvel.
      -Talvez seja. E talvez meu estmulo j no seja o que era antes.
       Os olhos de Marie se abrandaram quando ela ouviu tais palavras. 
      - Minha vida mudou consideravelmente nos ltimos anos. No realizei 
nenhuma das coisas que outrora planejei. Mas... tive algumas boas 
compensaes.Como tornar-se presidente da Cotter-Hillyard, s que Michael 
ficou constrangido de dize-lo.
      - Entendo. Presumo que no  casado.
      - No, no sou. No tenho tempo. Nem interesse.
      Essa era tima! Portanto, no final das contas, provavelmente havia sido 
melhor que no tivessem mesmo casado.
      - D a impresso de que nada o atrai.
      No momento,  isso mesmo o que acontece. E voc?'
      - Tambm no sou casada.
      - Quer saber de uma coisa? Apesar de toda a sua condenao ao meu 
modo de vida, no  to diferente assim. Est to' obcecada por seu trabalho 
quanto estou pelo meu, igualmente solitria, igualmente encerrada em seu 
pequeno mundo. Ento por que  to exigente comigo? Isso no  justo.
      A voz de Michael era gentil, mas tinha um tom de censura.
       - Desculpe. Talvez voc esteja certo.
      Era muito difcil discutir aquele problema. E depois, enquanto Marie 
pensava no que ele acabara de dizer, sentiu a mo de Michael na sua. Foi como 
uma faca a penetrar em seu corao. Ela puxou a mo, com uma expresso 
angustiada nos olhos. Michael parecia novamente infeliz.
      - Voc  uma mulher muito difcil de compreender
      - Creio que tem razo. H muita coisa que seria impossvel explicar.
      - Deve tentar algum dia. No sou o monstro que parece imaginar. 
      - Tenho certeza de que no .
      Fitando-o, tudo o que Marie queria era chorar. Era como dizer adeus 
para Michael. Era saber, novamente, o que ela nunca poderia ter. Mas talvez ela 
compreendesse melhor agora. Talvez finalmente fosse capaz de larg-la. Com 
um pequeno suspiro. Marie olhou para o relgio.
      - Tenho de ir trabalhar agora.
      - Cheguei por acaso mais perto de um sim como resposta  nossa 
proposta?
      - Infelizmente, no.
      Michael detestava ter de admitir mais seria forado a desistir. Sabia 
agora que ela jamais mudaria de idia. Todos os seus esforos haviam sido em 
vo.. Ela era uma mulher obstinada. Mas ele gostava dela. E estava surpreso ao 
descobrir quanto, no momento em que ela baixava a guarda. Havia nela uma 
suavidade e uma ternura que o atraam intensamente, como h anos no se 
sentia atrado por ningum.
      - Acha que eu poderia convenc-la a jantar comigo este noite, Marie? 
No poderia ser uma espcie de prmio de consolao, j que no consegui o 
que queria?
      Marie riu baixinho ao ver a cara dele e afagou-lhe a mo.
       - Bem que eu gostaria, mas neste momento no ser possvel. 
Infelizmente, terei de viajar.
      Oh, diabo! pensou Michael. Estava realmente perdendo a luta, um round 
depois do outro.
      - Para onde vai?
      - Vou voltar ao leste. Para cuidar de alguns problemas pessoais.
      Marie tomara a deciso na ltima meia hora. Mas sabia agora o que 
precisava fazer. No era uma questo de enterrar o passado, mas sim de 
desenterr-lo. E ela tinha certeza agora. Tinha de se curar do passado.
      - Telefonarei para voc da prxima vez que vier a So Francisco. Espero 
ter melhor sorte.
      Talvez. E talvez tambm, a esta altura, eu j seja a Sra. Peter Gregson. 
Talvez eu j esteja curada. E no ter mais qualquer importncia. 
Absolutamente nenhuma.        
      Voltaram em silncio ao caminho e Michael deixou-a no prdio em que 
ela morava. Marie quase no falou ao se despedirem. Agradeceu pelo caf da 
manh, sacudiu lentamente a cabea e subiu para seu apartamento. Michael 
perdera. E observando-a afastar-se, ele sentiu uma imensa tristeza. Era como 
se tivesse perdido algo muito especial. No sabia muito bem o qu. Um negcio, 
uma mulher, uma amiga? Alguma coisa. Pela primeira vez em muito tempo, ele se 
sentiu insuportavelmente s. Dando a partida no caminho, voltou para o hotel.
      Assim que entrou no apartamento, Marie ligou para Peter Gregson. .
      - Esta noite? Ora, querida, tenho uma reunio.
      Ele parecia desconcertado e estava com pressa, atendendo ao telefone 
entre dois pacientes.
      - Ento venha depois da reunio  importante. Vou viajar amanh.
      - Para onde? Por quanto tempo!
      Peter estava agora preocupado.
      - Eu lhe direi quando chegar aqui. Esta noite?
      - Est bem, est bem. Por volta das onze horas. Mas isso  realmente 
absurdo, Marie. Ser que no pode esperar?
      - No.        
      Esperara por dois anos e ela fora doida em deixar assim por todo esse 
tempo.
      - Est certo. Eu a verei esta noite.
      Peter desligou apressadamente. Marie telefonou para uma companhia 
area, a fim de reservar a passagem, depois foi ao veterinrio para acertar a 
estada de Fred.
      
    

Captulo 29
      
      Marie teve sorte. Houve um cancelamento naquela tarde e por isso 
estava sentada agora na sala aconchegante e familiar que h meses no 
visitava. Recostou-se no sof e estendeu as pernas na direo da lareira 
apagada, por puro hbito. Olhou distraidamente para os ps metidos em 
sandlias. Os pensamentos estavam to longe dali que nem ouviu Faye entrar.
      - Est meditando ou apenas comeando a dormir?
      Marie levantou os olhos com um sorriso, enquanto Faye sentava-se a sua 
frente.
      - Apenas pensando.  muito bom voltar a v-la. .
      Na verdade, Marie estava surpresa por se sentir to bem em voltar. S 
de estar ali experimentava uma sensao de voltar para casa, uma extrema 
serenidade por se ajustar novamente e um lugar feliz. Tivera bons momentos 
naquela sala, assim como outros difceis.
      - Devo dizer-lhe que est maravilhosa ou j se cansou de ouvir o 
comentrio?
      Faye fitava-a com uma expresso radiante e Marie no pde deixar de 
rir.
      - Nunca me canso de ouvir. - Somente com Faye ela tinha coragem de 
ser franca. - Creio que est querendo saber por que vim at aqui.
      O rosto dela tornou-se sbrio, enquanto fitava Faye nos olhos.
      - No posso deixar de admitir que a pergunta me passou pela cabea.
      Elas trocaram um rpido sorriso e depois Marie pareceu ficar 
novamente imersa em seus pensamentos, por algum tempo at         murmurar:
      - Tenho visto Michael.
      - Ele a encontrou?
      Faye estava aturdida e mais do que um pouco impressionada.
      - Sim e no. Encontrou Marie Adamson. Isso  tudo o que ele sabe. Um 
dos empregados dele estava querendo me contratar. A Cotter-Hillyard est 
fazendo um centro mdico aqui em So Francisco e querem fotografias minhas 
ampliadas para comporem a decorao.
      - O que  extremamente lisonjeiro, Marie.
      - E quem se importa com isso, Faye? O que pode importar-me o que ele 
acha do meu trabalho?
      Mas isso tambm no era toda a verdade. Ela sempre apreciara os 
elogios de Michael e mesmo agora experimentava uma certa satisfao por 
saber que novamente atrara a ateno dele com seu trabalho.
      - A me dele esteve aqui h algum tempo e eu disse a mesma coisa que 
j havia falado ao tal empregado. No. No estou interessada. No vou vender 
nada para eles. No quero trabalhar para eles. E ponto final.
      - E eles insistiram?
      - Demais at.
      -O que deve ser timo. Algum deles sabe quem voc ?
      - Ben no percebeu. Mas a me de Michael descobriu. Acho que foi por 
isso que ela marcou um encontro comigo.
      Nancy ficou calada, olhando para seus ps. Estava muito longe, de volta 
ao quarto de hotel, no dia em que se encontrara com Marion.
      - Como se sentiu ao v-la?
      - Muito mal. Fez-me lembrar de tudo o que ela me havia feito. Eu a 
odeio.
      Mas havia algo mais em sua voz e Faye percebeu-o.
      - E...?
      - Est bem. - Marie levantou os olhos, com um suspiro. - Fez com que 
tudo doesse novamente. Lembrou-se do quanto eu quis outrora que ela gostasse 
de mim, at mesmo me amasse,         pelo menos me aceitasse como esposa de. 
Michael.
      - E ela ainda a rejeitava?
      - No tenho certeza, mas creio que no.  agora uma mulher doente. 
Parece diferente. Quase como se estivesse arrependida do que fizera. Aposto 
que Michael no tem sido particular        mente feliz nos ltimos dois anos.
      - E como voc se sente em relao a isso?
      - Alivada. - Ela deixou escapar um suspiro de cansao.
      - E depois compreendi que no faz a menor diferena o que ele tem 
passado. Est tudo acabado para ns, Faye. Tudo aconteceu h anos. ramos 
pessoas diferentes. E a verdade  que ele nunca veio me procurar. 
Provavelmente no estaria agora insistindo em contratar meus servios se 
soubesse quem sou... quem eu era. Mas no sou mais Nancy McAllieter, Faye. E 
ele no  o Michael que conheci.
      - Como sabe?
      - Eu o vi. Est insensvel, frio, impiedoso. No sei, mas  possvel que 
tudo isso seja uma conseqncia. Mas h tambm muita coisa nova.
      - E o que me diz de dor? Sensao de perda? Desapontamento? 
Angstia?
      - No, Faye. Por que no falamos de traio, abandono, desero, 
covardia? No acha que so as verdadeiras questes?
      - No sei. Sero mesmo?  assim que se sente quando o v?
      - , sim. - A voz dela estava novamente dura. - Eu o odeio.
      - Neste caso, ainda deve importar-se muito com ele.
      Marie fez meno de contestar, mas depois sacudiu a cabea, enquanto 
as lgrimas afloravam a seus olhos. Ficou olhando em silncio para Faye por 
longo tempo.
      - Voc ainda o ama, Nancy?
      Faye havia usado o nome antigo deliberadamente. A jovem suspirou 
profundamente e deixou a cabea descair contra o encosto do sof, antes de 
responder. E quando o fez, estava olhando para o teto e a voz no tinha 
qualquer inflexo:
      - Talvez Nancy ainda o ame, o pouco dela. Marie no o ama. Tenho agora 
uma vida nova. No posso me permitir am-lo.        .
      Ela olhou para Faye com uma expresso de pesar.
      - Por que no?
      - Porque ele no me ama. Porque no  algo real. Tenho de me desligar de 
tudo agora. Totalmente. Sei disso. No foi para isso que vim aqui hoje, a fim de 
chorar em seu ombro por estar ainda apaixonada por Michael. Precisava contar 
a algum como me sinto. E no posso realmente falar com Peter a respeito. Iria 
deix-lo transtornado. Mas eu precisava de qualquer maneira tirar isso do 
peito.
      - Estou contente que tenha vindo procurar-me, Marie. Mas no tenho 
certeza se pode decidir livrar-se de tudo com essa simplicidade que est 
imaginando, deixar tudo para trs de um momento para outro.
      - Na verdade, tudo ficou para trs h dois anos. Eu  que no permiti 
que isso se consumasse, at agora. Disse a mim mesma que o tinha feito, mas 
no era verdade. Por isso... - Marie empertigou-se novamente no sof e fitou 
Faye nos olhos. - Estou indo para Boston amanh, a fim de resolver o problema 
de uma vez por todas.
      - Como assim?
      - O problema de deixar tudo para trs. - Marie sorriu, pela primeira vez 
em uma hora. - H algumas coisas que ficaram inacabadas por l, algumas coisas 
que Michael e eu partilhvamos. Deixei-as ficarem como um monumento a ns, 
porque sempre pensei que ele voltaria. Agora, tenho de ir a Boston para cuidar 
disso. .
      - Acha que est realmente preparada para tomar tal deciso? 
      - Estou, sim.
      Marie parecia segura de si mesma, at para Faye.
      -  o que realmente est querendo?
      - . sim.
      - No quer dizer a Michael quem...quem voc era, para ver o que 
acontece?
      Marie quase estremeceu.        
              - Nunca! Isso est acabado. Para sempre. Alm  do mais...- Ela fez uma 
pausa, suspirando novamente e olhando para as mos. - ...no seria justo com 
Peter.
      - Deve pensar em ser justa com a Marie.
      -  por isso que vou partir para Boston amanh. Continuo  pensar que, 
depois disso, talvez eu esteja livre para assumir um compromisso de verdade 
com Peter. Ele  um homem maravilhoso, Faye. E tem feito muito por mim.
      - Mas voc no o ama.
      Era assustador ouvir algum mais dizer aquelas palavras e Marie 
imediatamente sacudiu a cabea.
      - No! No! Eu o amo!
      - Ento por que o problema de assumir um compromisso?
      - Michael sempre se interps entre ns. .
      - Isso no  problema, Marie. Basta no deixar.
      - No sei..., - Ela fez uma pausa prolongada. - Alguma coisa sempre me 
deteve. H alguma coisa... que no est certa. Talvez eu no me tenha 
empenhado de verdade. Por um lado, fiquei esperando por Michael. Por outro... 
no sei, Faye, simplesmente tenho o pressentimento de que no est certo. 
Talvez a culpa seja minha.
      - Porque sente que no parece certo?
      - No tenho certeza, mas s vezes fico com a impresso de que Peter 
no me conhece. Isto , ele conhece a mim, Marie Adamson, porque  a pessoa 
que ajudou a criar. No conhece a pessoa que eu era ou as coisas que tinham 
importncia para mim antes do acidente.
      - No poderia ensinar-lhe isso, Marie? .
      -  possvel. Mas no tenho certeza se ele quer saber. Peter me fez 
sentir amada, mas no por mim mesma.
      - No se esquea de que h muito peixe no mar, Marie. 
      - Sei disso. Mas ele  um homem maravilhoso e no h razo para que 
no d certo.
      - No, no h... a menos que voc no o ame.
      - Mas eu o amo
      Marie estava comeando a ficar nervosa,  medida que a conversa 
prosseguia.
      - Pois ento relaxe.se e deixe que esse problema se resolva por si 
prprio. Pode voltar para c e discuti-lo comigo, se quiser. Mas primeiro vamos 
cuidar dos seus sentimentos em relao a Michael.
      - Quero apenas fazer essa viagem ao leste. E depois estarei livre.
      - Est certo. Faa a viagem, mas venha procurar-me assim que voltar. 
Est bem assim?        
      - Est bem.
      De certa forma, Marie estava satisfeita por volta. Era um alvio.
      Faye olhou para o relgio com uma expresso pesarosa e levantou-se. J 
se havia passado uma hora e meia que estavam conversando e ela tinha uma aula 
da universidade dentro de um hora.
      - Vai telefonar para marcar uma sesso assim que voltar? 
      - Imediatamente.
      - timo. E seja boa com voc mesma enquanto estiver no leste. No se 
atormente por causa do passado. E se tiver algum problema, trate de me 
telefonar.
      Era um alvio saber que podia recorrer a isso. Ao se retirar, Marie 
sentia-se mais animada que em qualquer outro momento daquela tarde. A 
conversa iria tornar mais fcil explicar sua deciso a Peter.
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 30
      
      - Boston? Mas por qu, Marie? No estou compreendendo.
       Peter parecia cansado e irritado, o que raramente acontecia. Mas fora 
um dia comprido e tivera uma reunio cansativa. Todas aquelas bobagens sobre 
o novo centro mdico. E tivera de encontrar-se com os arquitetos pela manh. 
Por que tinha de estar no comit? Certamente tinha coisas melhores a fazer 
com seu tempo.
      - Acho que  uma loucura fazer essa viagem.
      - No , no. Tenho de faz-la. E estou preparada. O passado acabou 
para mim. Completamente.
      - To completamente que outro dia, quando quase tivemos um acidente 
de carro, voc ficou histrica por mais de uma hora. No, Marie, no acabou.
      - Confie em mim, querido. Vou fazer a nica coisa que deixei inacabada e 
depois estarei livre. Voltarei depois de amanh.
      - Continuo a achar que  uma loucura.
      - No , no.
      A voz de Marie era to serena e firme que Peter no mais insistiu, 
recostando-se no sof, com um suspiro cansado. Talvez, no final das contas, ela 
soubesse o que estava fazendo.
      - Est certo. No entendo, mas tenho de esperar que voc saiba o que 
est fazendo. Tem certeza de que estar tudo bem quando voltar para l?
      - Claro! Confie em mim.
      - E eu confio, querida. No se trata de desconfiana.  que... ora, no sei 
direito. No quero que fique magoada. Posso fazer-lhe uma pergunta 
totalmente absurda?
      Marie esperava que no fosse a pergunta que temia. Ainda no. Mas no 
era nisso que Peter estava pensando, enquanto a observava atentamente do 
sof.
      - Pode, sim.
      Ela ficou esperando, como pela cirurgia.
      - J sabe que Michael Hillyard est em So Francisco?
      - J, sim.        .
      Marie estava estranhamente calma.
      - Voc se encontrou com ele?
      - Encontrei-me. Ele foi  galeria. Quer que eu faa um trabalho para o 
novo projeto que est realizando aqui. Recusei a proposta.
      - Ele soube quem voc era?
      - No.
      - Por que no lhe disse?
      Agora era o momento para Marie contar-lhe sobre o acordo que fizera 
com a me de Michael. Mas era tarde demais. No tinha mais importncia 
alguma.
      - Isso no fazia qualquer diferena. O passado est encerrado.
      - Tem certeza?
      - Tenho.  por isso que estou indo para Boston.
      - Neste caso, fico contente. - E no instante seguinte Peter ficou 
momentaneamente preocupado. - A viagem tem alguma relao com Hillyard?
      Mas ele sabia que isso no era possvel. Tinha uma reunio marcada pela 
manh com Michael Hillyard. Marie sacudiu firmemente a cabea.
      - No. No da maneira como est pensando, com o meu passado, Peter. E 
tem a ver somente comigo. No quero dizer mais nada alm disso.
      - Respeitarei a sua vontade.
      - Obrigada.
      Peter queria am-la naquela noite, mas no o fez Em vez disso, retirou-
se logo depois, beijando-a gentilmente. Sentia que ela precisava ficar sozinha.
      Foi uma noite tranqila e Marie ainda se sentia assim quando deixou 
Fred no veterinrio na manh seguinte. Sabia exatamente o que estava fazendo 
e por que, sabia que era o certo.
      Pegou o avio com toda calma e chegou a Boston s nove horas da noite. 
Pensou em pegar um carro e seguir para o local naquela mesma noite, mas seria 
pedir demais da sorte. Por isso, adiou o resto da viagem at a manh seguinte. 
J havia alugado o carro. Tudo o que precisava fazer agora era ir at l e 
depois voltar. Poderia pegar o ltimo avio de volta a So Francisco.
      Sentia-se como uma mulher com uma misso sagrada ao deitar-se 
naquela noite no quarto do motel. No tinha o menor desejo de ver a cidade, de 
procurar quem quer que fosse, de ir a algum lugar. No estava realmente ali. 
Era tudo como um sonho, um sonho de dois anos, que ela iria reviver pela ltima 
vez.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 31
      
      - Dr. Gregson? - Pois no?
      Ele ainda estava distrado quando sua secretria entrou na sala. Acabara 
de falar com Marie no aeroporto. Tinha um pressentimento desagradvel em 
relao  viagem, mas no podia deixar de respeitar os sentimentos dela em 
algo to pessoal. Mesmo assim, s iria sentir-se melhor quando ela voltasse, no 
dia seguinte. Ele levantou a cabea e tentou prestar ateno em sua 
enfermeira,        repetindo:
      - Pois no?
      - Um certo Mr. Hillyard est aqui, querendo falar-lhe. Disse que tem um 
encontro marcado. E veio junto com trs outros homens.
      - Mande-o entrar.
      Oh.. Deus, isso era o que mais estava precisando agora! Mas por que 
no? Pelo menos poderia conhecer o rapaz. Ele era na verdade jovem o 
bastante para ser seu filho. Mas que pensamento miservel! Peter se perguntou 
se Marie alguma vez j pensara nisso.
      Os quatro homens entraram na sala e apertaram a mo do mdico. A 
reunio foi iniciada imediatamente. Queriam recrutar o apoio dele para que o 
novo centro mdico fosse um sucesso total. J contavam com quinze ou mais 
mdicos ilustres em sua "equipe" e no restava a menor dvida de que as 
prdios teriam uma localizao ideal e instalaes magnficas. Era uma opo 
fcil de fazer. Gregson concordou em instalar seu novo consultrio no centro e 
declarou-se disposto a conversar a respeito com alguns colegas. Mas embora 
suas respostas fossem mecnicas, ele ficou observando Michael, fascinado, 
durante toda a reunio. Ento aquele era Michael Hillyard. No parecia um 
oponente to formidvel assim. Mas parecia jovem e atraente, bastante seguro 
e confiante. De uma maneira desconcertante, Peter comeou a compre.ender 
como ele era parecido com Marie. Havia uma semelhana de energia, 
determinao, at mesmo de humor. A compreenso fez Peter calar-se 
subitamente, compreendendo tudo. Ficou sentado em silncio por longo tempo, 
observando Michael. Nem mesmo estava mais prestando qualquer ateno  
reunio. Estava apenas se ajustando  realidade que evitara por tanto tempo. E 
pensando tambm no motivo que levara Marie a viajar para o leste naquela 
manh. Teria sido realmente para destruir os ltimos vestgios do passado ou 
para prestar-lhes uma homenagem?
      Pela primeira vez, Peter perguntou-se se teria o direito de interferir. 
Apenas de observar Michael, sentia que estava vendo o outro lado de Marie, um 
lado do qual no tinha o menor conhecimento. Aquele homem representava uma 
parte da vida de Marie que ele nem sequer compreendia, uma parte que jamais 
quisera conhecer. Ele sempre quisera que ela fosse Marie Adamson. Ela nunca 
fora Nancy para ele. Havia sido uma nova pessoa, uma pessoa que nascera de 
suas mos. Mas agora reconhecia que havia algum mais. Todas as peas do 
quebra-cabeas comeavam a se ajustar e Peter experimentava uma sensao 
de resignao, assim como de perda. Estivera travando uma guerra que no 
podia vencer, tentando reconstituir o seu prprio passado. Marie era realmente 
uma nova pessoa, mas havia nela vislumbres da mulher que ele outrora amara, 
da mulher que morrera. Acalentar a esses vislumbres de Lvia, assim como da 
jovem que trouxera para a vida. Talvez no tivesse o direito de fazer isso. 
Jamais tivera antes tanta liberdade com qualquer paciente, porque Marie no 
tinha ningum em quem se apoiar. A no ser ele. Permitira-lhe que fosse tudo 
para ela... tudo, exceto, o que ele queria ser agora. Observando Michael, podia, 
compreender que seu prprio papel na vida de Marie fora multo parecido com o 
de um pai. Ela ainda no havia percebido isso, mas um dia compreenderia.
      A reunio terminou e eles se levantaram, apertando-se as mos. Os trs 
companheiros de Michael j estavam na ante-sala, a sua espera, enquanto ele 
trocava as ltimas amenidades com Gregson. Subitamente, tudo parou. Michael 
olhava fixamente para algo por cima do ombro do homem mais velho. Era o 
quadro que ela estava pintando h dois anos, antes... iria ser o seu presente de 
casamento... fora roubado do apartamento depois que ela morrera, pelas duas 
enfermeiras. E agora estava no consultrio daquele homem e terminado! 
Hipnotizado, Michael aproximou-se do quadro, antes que Gregson pudesse 
det-lo. Mas nada poderia t-lo detido. Ele ficou parado ali, olhando para a 
assinatura, como se j soubesse o que iria ver. No canto, em letras pequenas, 
estava o nome. Marie Adamson.
      - Oh, Deus... Deus         Michael estava completamente aturdido, enquanto 
Gregson o observava. 
              - Mas como? No ... oh, Deus... por que ningum me falou? O que...
      Mas ele compreendia agora. Haviam-lhe mentido. Ela estava viva. 
Diferente, mas viva. No era de admirar que o tivesse odiado. Ele nem sequer 
desconfiara. Mas durante todo o tempo sentira-se atrado por alguma coisa 
nela, nas fotografias. Havia lgrimas em seus olhos quando se virou e fitou 
Gregson.
              Peter contemplava-o tristemente, com receio do que estava para 
acontecer.        ,
      - Deixe-a em paz, Hillyard. Est tudo acabado para ela agora. Ela j 
sofreu demais.
       Mas mesmo enquanto ele falava, as palavras careciam de convico. S 
de olhar para Michael naquela manh, Peter ficara sem saber se ele deveria 
mesmo manter-se afastado de Marie. E algo no fundo dele queria revelar onde 
ela estava.
              Michael continuava a fit-lo com uma expresso de espanto.
      - Eles mentiram para mim, Gregson. Sabia disso? Mentiram para mim. 
Disseram que ela estava morta. - Os olhos dele transbordavam de lgrimas.- 
Passei dois anos como um morto, trabalhando como um rob, desejando ter 
morrido no lugar dela, E durante todo esse tempo.. .
      Por um momento, ele no conseguiu continuar a falar. Gregson desviou os 
olhos.
      - E quando a encontrei esta semana, no pude imaginar. Eu... isso deve 
ter sido uma morte para ela... no  de admirar que me odeie. Ela me odeia, no 
 mesmo?
      Michael afundou numa poltrona, olhando para o quadro.
      - No, Hillyard, ela no o odeia. Apenas quer deixar o passado para trs. 
E ela tem esse direito.
      E eu tenho o direito a ela. Peter queria dizer essas palavras, mas no 
conseguiu. Mas, subitamente, era como se Michael tivesse ouvido seus 
pensamentos. Michael acabara de lembrar-se do comentrio que ouvira a 
respeito de Marie, que ela tinha um patrocinador, um cirurgio plstico. As 
palavras ressoaram de repente em seus ouvidos e tambm subitamente a ira e 
a angstia de dois anos invadiram-no. Ele se levantou de um pulo e agarrou 
Gregson pelas lapelas.        
      - Ei, espere um pouco! Que direito voc tem de dizer que ela quer deixar 
o passado para trs? Como pode saber? Como pode sequer comear a entender 
o que tivemos juntos? Como pode imaginar o que tudo aquilo significou para ela 
ou para mim? Se eu sair da vida dela sem dizer nada, ento voc poder ter o 
que quiser. No  isso mesmo, Gregson? No  justamente isso o que est 
querendo? Pois v para o inferno!  com a minha vida que est jogando e acho 
que j houve pessoas suficientes manejando-a  vontade. A nica pessoa que 
pode dizer-me que quer tudo acabado entre ns  Nancy.
      - Ela j lhe disse para deix-la em paz.
      A voz de Peter era serena, enquanto ele fitava Michael nos olhos. 
Michael recuou, mas havia agora um brilho de esperana em seus olhos, 
misturado com a raiva e a confuso. Pela primeira vez em dois anos, havia um 
pouco de vida naqueles olhos.
      - No, Gregson. Marie Adamson me disse para deix-la em paz. Nancy 
McAllister no me disse uma s palavra h dois anos. E ela vai ter muito o que 
explicar. Por que no me telefonou?
      Por que no me escreveu? Por que no me informou que estava viva? E 
por que me disseram que ela estava morta? Isso foi idia dela ou... ou de 
alguma outra pessoa? E por falar nisso. .. Michael hesitou por um instante, no 
querendo fazer a pergunta, porque j sabia qual seria a resposta. - ... quem 
pagou a cirurgia?
      Os olhos dele no se afastaram do rosto de Gregson por um instante 
sequer.
      - No conheo as respostas para algumas de suas perguntas, Mr. 
Hil1yard.
      - E quais so as que conhece as respostas? .
      - No tenho permisso para...
      - No me diga isso!
      Michael avanou novamente para cima dele e Peter levantou a mo.
      -Sua me pagou todas as intervenes cirrgicas e as despesas de 
estada dela desde o acidente. Foi um presente realmente extraordinrio.
      Era isso o que Michael temia, mas no chegou a se constituir um choque 
to grande. Ajustava-se ao resto do quadro que podia perceber agora. Talvez, 
de alguma maneira insana, totalmente desvirtuada, a me pensasse que estava 
agindo assim pelo bem dele. Mas pelo menos ela o conduzira agora de volta a 
Nancy. Ele olhou novamente para Gregson e assentiu.
      - E o que me diz de voc? Qual  exatamente o seu relacionamento com 
Nancy?
      Agora, Michael queria saber de tudo.
      - No vejo por que isso seja de sua conta.
      - Escute aqui!
      As mos de Michael agarraram novamente o casaco de Peter, que 
levantou a mo numa admisso de derrota.
      - Por que no paramos logo com isso? Todas as respostas esto com 
Marie. O que ela quer, quem ela quer. Afinal, ela pode at no querer nenhum 
dos dois. Por quaisquer que sejam os motivos, voc no a procurou por dois 
anos. Quanto a mim, tenho quase o dobro da idade dela e, por tudo o que sei, 
estou sofrendo de um complexo de Pigmalio.
      Peter sentou-se na cadeira trs de sua escrivaninha e sorriu 
tristemente.
      - Estou comeando a pensar que ela pode arrumar algo melhor que um de 
ns dois.
      -  possvel, s que desta vez quero ouvir isso pessoalmente dela. - 
Michael olhou para o relgio. - Vou at o apartamento dela imediatamente.
      - No vai adiantar. - Peter ficou olhando para o rapaz, a cofiar a barba. 
Quase que desejava que Michael tivesse sorte. Quase. 
      - Ela me telefonou esta manh do aeroporto, pouco antes de voc chegar 
aqui.
      Mais uma vez, Michael pareceu ficar chocado.
      - Como assim? Para onde ela estava indo?
      Por um longo momento. Peter Gregson hesitou. No precisava dizer nada. 
No tinha de...
      - Ela foi para Boston.
      Michael fitou-o em silncio por algum tempo e depois um sorriso se 
insinuou em seus olhos, enquanto corria pala a porta Parou ali, olhou para trs e 
saudou Peter com um sorriso exultante.
      - Obrigado.        
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
    

Captulo 32
      
      Marie acordou ao amanhecer. Desperta, viva. Sentia-se melhor que em 
qualquer outra ocasio h anos. Estava quase livre agora. Dentro de poucas 
horas, estaria inteiramente livre. Como se aquela promessa infantil a tivesse 
prendido por todo esse tempo. E somente porque ela prpria permitira. Seu 
nico poder era o que ela mesma lhe concedera.
      No se deu ao trabalho de comer alguma coisa. Limitou-se a tomar duas 
xcaras de caf e entrou no carro..alugado. Poderia chegar l em duas horas. Ou 
seja por volta das dez horas. Estaria de volta ao hotel em torno de meio-dia. 
Poderia pegar um avio para So Francisco e estar em casa ao final da tarde. 
Poderia at mesmo ir buscar Peter no consultrio, fazer-lhe uma surpresa. O 
pobre Peter mostrara-se bastante paciente em relao quela viagem..
      Descobriu-se a pensar em Peter enquanto guiava, desejando ter-lhe 
dado mais, desejando ter sido capaz de faz-lo. Talvez, depois daquele dia, isso 
tambm mudasse. Ou ser que... Marie no se permitiu terminar a indagao.  
claro que ela o amava. No era essa a questo.
      Ela seguiu em frente pelos campos da Nova Inglaterra, mal notando 
qualquer coisa por que passava. A paisagem ainda era cinzenta e escura, as 
folhas novas ainda no haviam surgido. Era como se os campos tambm 
tivessem ficado enterrados por dois anos. J eram nove e meia quando ela 
passou pela Revere Beach, onde a feira fora realizada. Sentiu um pequeno 
aperto no corao ao reconhecer o lugar. Seguiu por uma estrada antiga, que ia 
serpenteando ao longo da costa, at que finalmente parou e saltou do carro. 
Estava tensa, mas no cansada. Estava exultante e nervosa. Tinha de fazer 
aquilo... tinha de fazer... j podia ver a rvore do lugar em que estava. Ficou 
parada a contempl-la por um longo tempo, como se a rvore guardasse todos 
os segredos, conhecesse a fundo a sua histria, estivesse esperando por seu 
retorno. Encaminhou-se lentamente para a rvore, como se fosse encontrar 
uma velha amiga. Mas no era mais uma amiga. Como tudo e todos que outrora 
amara, era uma estranha. Era apenas outra marca no tmulo de Nancy 
McAllister.
      Ela parou ao alcanar a rvore, ficando ali por um momento, antes de 
atravessar a areia at a pedra. Ainda estava ali. No se mexera. Nada sara do 
lugar. Somente ela e Michael haviam-se movido, em direes opostas e para 
mundos diferentes. Ficou imvel ali por muito tempo, como se procurasse 
reunir a fora e a coragem para fazer o que precisava. E finalmente abaixou-se 
e comeou a empurrar a pedra, que se moveu um pouco. Rapidamente, com um 
pedao de pau, ela escavou a areia por baixo, em busca do que procurava. Mas 
no havia nada ali. Ela largou a pedra, ofegante. Depois de um momento, com 
vigor renovado, tornou a empurrar a pedra, at certificar-se de que no havia 
mais nada ali embaixo. Algum levara as contas. Ela deixou a pedra voltar para 
o lugar e nesse momento ouviu a voz dele.
      - No pode t-las. Elas pertencem a outra pessoa. A algum que amei. A 
algum que nunca esqueci.
      Havia lgrimas nos olhos de Michael enquanto ele falava. Esperara 
metade da noite pela chegada dela. Fretara um jato para traz-lo antes que ela 
chegasse ali. Mas teria voado com as prprias asas, se houvesse necessidade. 
Michael estendeu a mo e ela viu as contas, ainda com a areia grudada. Os olhos 
dela tambm se         encheram de lgrimas ao v-las.
      - Prometi nunca dizer adeus. E nunca disse.
      Os olhos de Michael no se despregavam dos olhos dela. - Nunca tentou-
me encontrar.
      - Disseram-me que estava morta.
      - Prometi nunca mais tornar a v-lo se... se me dessem um novo rosto. 
Prometi porque sabia que voc me encontraria. E depois... voc no me 
encontrou.
      - Teria encontrado, se soubesse. Lembra-se da promessa que me fez?
      Ela fechou os olhos e falou solenemente, como uma criana. Pela 
primeira vez, em muito tempo, era a voz de Nancy McAllister, a voz que ele 
amara, no A voz nova e suave que ela aprendera.
      - Prometo nunca esquecer o que est enterrado aqui. Nem o que 
representa.
      - Havia esquecido?
      As lgrimas estavam escorrendo lentamente dos olhos de Michael. Ele 
estava pensando em Gregson e nos dois anos que haviam passado. Mas ela 
sacudiu a cabea.
      - No. Mas tentei esquecer.
      - Est disposta a recordar agora? Nancy, est... Mas ele no conseguiu 
continuar falando. Aproximou-se dela e abraou-a, levando algum tempo para 
murmurar:
      - Oh! Nancy, como eu a amo! Sempre amei. Pensei que ia morrer quando 
voc... quando pensei que voc tinha morrido. E, de certa forma, morri mesmo 
quando me disseram.
      Ela estava chorando demais para falar, recordando os interminveis 
dias, meses e anos de espera, at desistir de toda e qualquer esperana. 
Agarrou-se firmemente a Michael, como uma criana a uma boneca, como se 
nunca mais pretendesse larg-lo. . E finalmente recuperou o flego e sorriu.
      - Querido, eu tambm o amo. Sempre pensei que me encontraria.
      - Nancy... Marie... qualquer que seja o seu nome... - Ambos riram como 
crianas, entre as lgrimas. - Pode dar me a honra de tornar-se minha esposa? 
Desta vez, como pessoa civilizadas, num casamento com convidados, msica e...
      Michael estava pensando no casamento da me, apenas algumas semanas 
antes. Era estranho como estava totalmente livre de qualquer sentimento de 
raiva. Deveria odiar a me pelo que ela fizera. Em vez disso, queria perdoar. 
Tinha Nancy de volta. E isso era tudo o que importava. Sorriu para Nancy, ainda 
em seus braos, pensando no casamento deles. Mau ela estava sacudindo a 
cabea e Michael teve a sensao de que seu corao iria parar.
       - Temos mesmo de esperar tanto tempo? Temos de aceitar toda essa 
histria de convidados, msica e...
      - Est sugerindo... 
      Michael no se atreveu a concluir a frase, mas Nancy assentiu. 
      - Estou, sim. Por que no? Agora. No quero esperar novamente. No 
poderia suportar. A cada momento ficaria com medo de que alguma coisa 
pudesse acontecer. Talvez a voc, desta vez.
      Michael concordou silenciosamente e. apertou-a com mais fora ainda, 
enquanto as ondas deslizavam pela praia e o sol plido a leste espiava atravs 
das nuvens. Ele podia compreender.
      
      
